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3. OBJETIVOS

6.2 O DUPLO ESTIGMA VIVENCIADO PELAS PESSOAS QUE USAM CRACK

Atualmente não existe um consenso sobre a definição de estigma e é possível encontrar muitas variações desse conceito. Segundo Link e Phelan (3) são duas as razões principais para isso. Primeiro, o conceito de estigma é utilizado em uma grande

variedade de contextos e, como cada um deles é único, é natural que cada autor que se utilize desse termo o defina de maneira diferente de acordo com a conjuntura considerada. Segundo, a pesquisa sobre estigma envolve várias disciplinas e áreas do conhecimento, que apesar de terem interface em alguns assuntos, dão ênfases diferentes ao tema. Inclusive, mesmo dentro de uma mesma disciplina ou área do conhecimento sujeitos diferentes utilizam teorias distintas para escolher o que deve constar na definição de estigma(3).

Um dos trabalhos mais emblemáticos sobre tema foi escrito por Goffman(2). Segundo ele, o termo estigma foi criado pelos gregos que o utilizavam para se referirem a marcas no corpo de um indivíduo pelas quais buscavam tornar evidente alguma característica formidável ou ruim sobre a situação moral de quem as possuía. Eles assinalavam os corpos dos sujeitos com fogo ou com cortes que indicavam que aquela pessoa deveria ser evitada por ser um escravo, um delinquente ou algo semelhante. Atualmente o termo estigma é utilizado de forma similar ao sentido grego, entretanto, mais aplicado a uma situação em que se encontra o indivíduo do que a uma evidência perceptível no corpo(2).

Ainda de acordo com esse autor, há três tipos diferentes de estigma. O primeiro está relacionado às deficiências físicas, o segundo se refere

às culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, crenças falsas e rígidas, desonestidade, sendo essas inferidas a partir de relatos conhecidos de, por exemplo, distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualismo 7 , desemprego, tentativas de suicídio, e comportamento político radical. (2)

E em terceiro está o estigma relacionado à raça e à religião que pode ser transmitido por pais e mães para os seus descendentes e atingir todos os componentes da família. Nota-se que os mesmos traços sociológicos perpassam todos os exemplos de estigma apresentados: uma pessoa que é impedida de participar de relações sociais por possuir uma característica destacada, que impede que outros sujeitos tenham contato com ela e que dificulta que outras características suas sejam observadas(2).

Essa definição é similar à utilizada pelo IBC da UNESCO. De acordo com o IBC(6) “Em seu significado mais comum, um estigma é uma marca que traz vergonha,

7 Reconhece-se que este não é o termo adequado para se referir a indivíduos que se relacionam amorosamente com pessoas do mesmo sexo, por indicar que este comportamento seria uma enfermidade. Entretanto, o termo foi mantido conforme escrito pelo autor pela necessidade de fidelidade à citação.

desgraça ou descrédito. (…) Impor um estigma em uma pessoa é torná-la passível de ser tratada com desrespeito.”(6). Ou seja, o estigma seria uma marca que aos olhos de terceiros daria permissão para tratar o seu possuidor de maneira desrespeitosa.

Link e Phelan(3) preferem utilizar o termo “rótulo”, ao invés de “marca”, “atributo” ou “condição”. Segundo esses autores, a preferência pela palavra rótulo se dá devido ao fato de que as diferenças humanas são socialmente selecionadas de acordo com a proeminência. Assim, ao utilizar as outras palavras citadas (ao invés de “rótulo”), há o risco de identificar aquela característica selecionada como sendo do sujeito estigmatizado, e de se esquecer de que essa identificação e a seleção da característica como estigmatizante são resultados de processos sociais. Ainda segundo os referidos autores, ao contrário disso, rótulo é um elemento que originalmente não faz parte do componente principal, mas que é afixado. Ademais, utilizar termos como “atributo”, “condição” ou “marca” sugerem que essa designação é legítima. Já o termo “rótulo” deixa a legitimação da designação como um assunto incerto (3), o que é uma boa opção quando o tema em discussão é, por exemplo, o estigma depositado em pessoas que usam drogas.

Ainda segundo Link e Phelan(3) há estigma quando os cinco componentes inter-relacionados citados abaixo se cruzam:

No primeiro componente, as pessoas distinguem e rotulam as diferenças humanas. No segundo, crenças culturais dominantes associam pessoas rotuladas a características indesejáveis – a estereótipos negativos. No terceiro, pessoas rotuladas são colocadas em categorias distintas de modo a conquistar algum grau de separação entre “nós” e “eles”. No quarto, as pessoas rotuladas experimentam perda de status e discriminação que levam a desfechos desiguais. Finalmente, a estigmatização é inteiramente subordinada ao acesso ao poder social, econômico e político que permite a identificação das diferenças, a construção de estereótipos, a separação das pessoas rotuladas em categorias distintas, e a execução completa da desaprovação, rejeição, exclusão e discriminação. Assim, nós aplicamos o termo estigma quando elementos da rotulação, estereotipagem, separação, perda de status, e discriminação ocorrem simultaneamente em uma situação de poder que permite aos componentes do estigma se revelarem. (3) Para este estudo, é importante destacar o terceiro e quarto componentes. O terceiro se refere à alocação das pessoas estigmatizadas em uma categoria diferente, separando “eles” de “nós”. Em casos extremos, essa separação imbuída da noção de que o sujeito estigmatizado é tão diferente de “nós”, leva a crença de que as pessoas tidas como “eles” não são realmente seres humanos. O que abre a possibilidade de que, também em casos extremos, todo tipo de tratamento degradante seja dispensado

a esses indivíduos sem qualquer problema(3). Ou seja, esse componente introduz o componente quatro, que dialoga com o que Goffman(2) diz sobre reduzir a pessoa estigmatizada a um ser humano menor.

Godoi e Garrafa(4) seguem nessa mesma linha. Eles afirmam que ao estigmatizar um sujeito, retira-se dele a sua dignidade, diminuindo-o, portanto, naquilo que o constitui como ser humano, inferiorizando-o e o considerando abaixo dos demais seres humanos(4). Nessa situação, utiliza-se termos estigmatizantes como aleijado, retardado e noiado no vocabulário diário como metáfora ou como representação sem se dar conta do seu significado real(2).

Portanto, grupos estigmatizados são formados por pessoas às quais foram atribuídas um rótulo que é perceptível pela sociedade como uma espécie de autorização para que os membros desse grupo sejam considerados como pessoas inferiores aos seres humanos não rotulados, e que, por isso, não devem ter acesso aos mesmos locais, aos mesmos direitos e a elementos que proporcionam uma vida digna. Além disso, a utilização de termos estigmatizantes no vocabulário corrente das pessoas reforça o estigma sob a condição a qual o termo se refere e também sob o a pessoa ou grupo identificado pela referida condição.

Pode-se afirmar que esse é o caso das pessoas que usam drogas, especialmente as ilícitas. Estas são componentes de um grupo estigmatizado porque, em geral, há uma visão de que usuários de drogas são pessoas “perigosas, violentas e únicos responsáveis pela sua condição”(7), ou seja sem caráter e com pouca força de vontade para evitar o início do uso ou cessá-lo. Portanto, isso as inclui no segundo tipo de estigma descrito por Goffman(2).

Todavia, os usuários de crack no Brasil vêm ocupando uma posição de destaque relacionado a estigma entre as pessoas que usam drogas no país. Conforme já mencionado, atualmente, “a responsabilidade por crimes violentos e a suposta degradação moral da juventude brasileira”(8) são atribuídas ao uso de crack. Ademais, a estes também é adjudicado o destino de se tornarem viciados no primeiro contato com a droga e falecerem em no máximo seis meses.

Para visualizar com mais clareza a relação entre estigma e o uso de crack, Souza(176) explica que a maior parte das pessoas que usam essa droga de maneira abusiva estão incluídas no que ele chama de “a classe dos desclassificados no Brasil moderno”(176).

Essas pessoas foram inseridas nessa classe a partir da abolição da escravatura, feita sem qualquer planejamento, abandonando os ex-escravos sem qualquer estrutura para que pudessem se inserir no processo de desenvolvimento do Brasil. À essas pessoas, na maioria preta e parda, foram atribuídas o rótulo de que são indivíduos sem capacidade emocional e moral de adquirir conhecimento, ou seja, sem condições de possuir o que é necessário na sociedade atual para exercer algumas funções. Sendo assim, elas são excluídas do mercado de trabalho, no que tange a profissões que exigem esforço intelectual. Dessa forma, em geral, os membros dessa classe que conseguem ser absorvidos pelo mundo laboral o são em atividades relacionadas ao esforço corporal, tidas como perigosas e por vezes até sujas(176).

Esse problema de afastamento das atividades intelectuais é atribuído à falta de estímulos que essas pessoas possuem, no âmbito familiar, para exercer atividades que exigem disciplina e concentração. Assim, esses indivíduos não são bem sucedidos na área acadêmica e, consequentemente, no mercado de trabalho, que demanda qualificação. Portanto, é dessa forma em que é eternizada a continuidade de uma população incapaz de adquirir conhecimento e planejar o seu futuro.(176)

A esmagadora maioria dos usuários autodestrutivos de crack é construída socialmente pelo seu abandono secular e pela experiência de humilhação cotidiana que ela implica. A violência peculiar dessa droga é uma resposta a esse abandono e humilhação (...).(176)

Dito isso, o estigma atribuído a pessoas que fazem parte da classe dos desclassificados (de que são incapazes se desenvolver intelectualmente) coloca-os em um ciclo difícil de ser rompido que acaba por mantê-los como indivíduos marginalizados pela sociedade. Essa marginalização humilhante em alguns casos contribui para que essas pessoas iniciem o consumo do crack, o que traz para esses indivíduos outro estigma, neste caso relacionado ao uso de drogas, que atribui a eles o rótulo de pessoas perigosas, violentas e sem caráter. Isso é o que se chama nesse duplo estigma no âmbito desse estudo.

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