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2 REVISÃO DE LITERATURA

2.6 Durabilidade natural da madeira

2.6.2 Durabilidade natural da madeira aos cupins

Os cupins são insetos da ordem isoptera, que apresentam metamorfose incompleta, formam colônias com diferentes castas e quando xilófagos são os maiores degradadores da madeira. A ordem isoptera contém mais de duas mil espécies distribuídas em sete famílias, sendo que espécies de quatro dessas famílias: serritermitidae, termitidae, rhinotermitidae e kalotermitidae, vivem no Brasil (OLIVEIRA et al., 1986; LELIS et al., 2001).

A celulose é o alimento básico dos cupins, porém é uma substância de difícil digestão, a qual exige complexos enzimáticos específicos que esses insetos não produzem (CLEAVELAND, 1923; OLIVEIRA et al., 1986; LELIS et al., 2001;

GONÇALVES e OLIVEIRA, 2006). Assim, muitas espécies de cupins estão associadas simbioticamente com microrganismos capazes de degradar a celulose em moléculas de glicose (CLEAVELAND, 1923; OLIVEIRA et al., 1986). Cleaveland (1923), ao estudar várias espécies de 36 gêneros de mastotermitidae, termitidae, rhinotermitidae e kalotermitidae, constatou que existe correlação direta e positiva entre o hábito de comer madeira e a presença de protozoários no intestino desses insetos.

Segundo Barreal (1998) e Lelis et al. (2001), na prática, esses insetos podem ser classificados em função do local de permanência da colônia nos seguintes grupos:

(1) cupins arborícolas; (2) cupins subterrâneos ou de solo; e (3) cupins de madeira.

Os representantes típicos dos cupins de madeira são da família kalotermitidae e, segundo Oliveira et al. (1986), Lelis et al. (2001) e Evans et al. (2005), se caracterizam por apresentarem colônias pequenas e totalmente inseridas dentro da peça de madeira. Esses cupins são classificados em: (1) cupins de madeira úmida, pois se desenvolvem no material acima do PSF; e (2) cupins de madeira seca, pois se estabelecem em madeira com baixos teores de umidade.

Evans et al. (2005) realizaram estudos com o cupim de madeira seca Cryptotermes domesticus, em amostras com diferentes dimensões de Pinus radiata, e concluíram que esses insetos preferem fazer seus túneis em peças menores de madeira tais como móveis, com o objetivo de evitar a competição com espécies de cupins maiores, os quais estabelecem suas colônias em peças maiores, pois precisam de um volume maior de madeira. Assim, consequentemente, esses cupins têm suas colônias transportadas ao redor do mundo e tornaram-se uma praga cosmopolita.

Os cupins de madeira seca são considerados os mais importantes, do ponto de vista econômico, e, no Brasil, o representante típico desse grupo é o C. brevis (OLIVEIRA et al., 1986; LELIS et al., 2001; GONÇALVES e OLIVEIRA, 2006). Para avaliar a durabilidade natural da madeira a esses cupins de madeira seca, procedimentos podem ser realizados conforme preconiza a norma IPT-1157 (1980).

Contudo, de acordo com Ribeiro et al. (2014), estudos sobre a resistência natural das madeiras aos cupins C. brevis são escassos.

Na avaliação da resistência natural da madeira de Tectona grandis (Teca) ao cupim C. brevis foi mostrado que a mortalidade dos insetos durante o ensaio, a perda de massa e a nota de desgaste provocado pelos insetos são fatores que caracterizam a durabilidade natural da madeira. O cerne e o alburno da madeira estudada apresentaram respectivas perdas de massa de 0,24% e 0,93%, enquanto que as notas de desgaste foram 0,86 (desgaste pouco expressivo) e 2,44 (desgaste moderado a acentuado) e a percentagem de cupins mortos durante o ensaio foram 64,8% e 55,0% (PAES et al., 2015). Os autores classificaram a madeira de Teca como de resistência moderada aos cupins de madeira seca.

A madeira de Toona ciliata (Cedro australiano) apresentou maior teor de extrativos (13,0%) e menor massa específica básica (0,32 g/cm3) que a de Pinus sp.

(6,4% e 0,36 g/cm3), porém a perda de massa provocada pelo cupim C. brevis foi 1,74% na madeira da folhosa e de 6,62% na da conífera estudada (RIBEIRO et al., 2014). Os autores salientam que embora a madeira do Cedro australiano apresente menor massa específica que a de Pinus, o que facilitaria a sua degradação pelo inseto, o efeito químico (maior teor de extrativos, principalmente limonóides) foi mais relevante para a resistência natural da folhosa perante aos insetos xilófagos.

Gonçalves et al. (2013) avaliaram a resistência natural, a composição química e a massa específica aparente da madeira de várias espécies comerciais brasileiras e concluíram que o cupim C. brevis não ataca as diferentes madeiras com a mesma intensidade. As madeiras de Pinus caribaea var. caribaea, de Dalbergia nigra (Jacarandá-da-Bahia) e de Hymenolobium petracum (Angelim pedra) foram as mais deterioradas pelos cupins, com, respectivamente, notas 4,0 (maior desgaste), 3,0 e 1,87. Já as madeiras de Caesalpiniae echinata (Pau Brasil), Eucalyptus cloeziana, Anadenanthera peregrina (Angico verdadeiro) e de Eucalyptus toreliana apresentaram desgaste intermediário, como mostram as notas 1,73, 1,73, 1,40 e 1,07. Nas mesmas condições, as madeiras que foram menos atacadas pelo agente xilófago foram a Anadenanthera columbrina var. cebil (Angico vermelho), Manilkara longifólia (Parajú), Chlorophora tinctoria (Amoreira) e Peltogine nitens (Roxinho), com notas de 0,27, 0,53, 1,0 e 1,0, respectivamente. Segundo os autores, não existe uma característica única que possa ser empregada para relacionar o ataque provocado pelos cupins nas madeiras estudadas, mas que os maiores valores de mortalidade dos cupins ocorreram em madeiras com maiores massa específicas aparentes a 5%, maiores teores de extrativos e cinzas.

Em estudo sobre a avaliação da resistência natural das madeiras de Pinus sp., S. parahyba (Guapuruvu), Toona ciliata (Cedro-australiano), Tachigalia myrmecophylla (Cacunda), Goupia glabra (Cupiúba), Cedrela fissilis (Cedro-rosa) e Caryocar brasiliense (Pequi) ao cupim C. brevis foi mostrado que as respectivas madeiras apresentaram nota de ataque de 4 (maior desgaste), 2,78, 1,94, 1,33, 0,45, 0,28 e 0,22. Nas madeiras estudadas, a mortalidade de cupins foram 17,5%, 21,67%, 69,58%, 66,67%, 90,42%, 73,75% e 70,83%, respectivamente. Ficou constatado que as madeiras de Pinus e de Guapuruvu foram as únicas que apresentaram furos causados pelo cupim, 2 e 6 respectivamente, e são as menos resistentes ao inseto, pois apresentaram desgaste de moderado a acentuado (GONÇALVES e OLIVEIRA, 2006).

Kartal et al. (2009) explicam que a presença de compostos de sílica na madeira aumenta a sua resistência aos cupins. Para tanto, os autores modificaram a madeira de Cryptomeria japonica com tetraetoxisilano e metiltrietoxisilano e, concluíram que a madeira não tratada apresentou perda de massa de 30% após 3 semanas de ensaio com os cupins subterrâneos Coptotermes formosanus, enquanto que as modificadas com os compostos de sílica apresentaram resistência total aos térmitas.

Segundo Oliveira et al. (1986) e conforme exposto anteriormente há três formas para impedir, ou pelo menos atenuar, a ação dos agentes deterioradores da madeira: (1) usar madeira com elevada resistência biológica; (2) incorporar produtos químicos, conhecidos como preservativos, na madeira; ou (3) promover alterações químicas permanentes na estrutura dos componentes poliméricos da madeira com o intuito de impedir o reconhecimento do substrato pelos organismos xilófagos.