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CAPÍTULO III – CRIANDO OUTRAS IMAGENS: O PROCESSO DE

3.3. E a Igreja Católica? Possibilidades e silenciamentos

No caso de Manoel Ageu o discurso do promotor Evandro Sodré revela uma proximidade entre a legislação e a instituição religiosa, por conta de que uma das acusações mais graves contra o beato seria de que ele estaria profanando os obje- tos de culto da fé católica e ministrando indevidamente os sacramentos católicos aos seus seguidores, como por exemplo, casando, batizando e confessando, práticas estas consideradas “provadas” pelo supracitado promotor público51.

É observável que o próprio Manoel Ageu e seus seguidores que prestaram depoimento negaram que na casa do beato estavam sendo realizados sacramentos, exceto o da confirmação do batismo ou crisma, que o próprio profeta assumiu que era praticado, porém, não por ele, mas por seu assessor que falecera no conflito. Percebemos aqui uma tentativa do mesmo de se eximir da acusação, acusando seu companheiro morto, assim afirma ele que “Cícero Alexandre confirmava o baptismo mas que alhi nunca confessavam nem casavam ninguém; que o pôvo fornecia di- nheiro a Cícero para as arromações que ele pedia que elle interrogado nunca rece- beu dinheiro de ninguém a não ser esmolas”52.

Mas mesmo negando, enquanto, as testemunhas não apresentavam nenhu- ma comprovação de que de fato Ageu confessava e casava, ele é tido como culpa- do, certamente na época essa história se espalhou, sobretudo, na pequena sede municipal, a Vila de Cabaceiras, que também era sede da freguesia. Isto, nos leva a perguntar, qual a reação do pároco da época acerca destes eventos?

Não seria de se surpreender se o padre considerasse tais práticas como heré- ticas, pois aquele contexto era de conflito com estas aparições de casos exacerba- dos de religiosidade popular, e por Manoel Ageu representar uma forma de “perver- são” das práticas católicas e da figura sacerdotal, mas para pensar tais possibilida- des em que iríamos nos fundamentar?

51

Evandro Souto declara que provadamente Manoel Ageu realizava os sacramentos em sua casa e fazia uso de paramentos sacerdotais, não sendo padre constitui-se como crime de profanação (Pro- cesso Criminal, 1925, p. 197)

52

O pároco da freguesia de Nossa Senhora da Conceição na época era o re- cém chegado Padre Inácio Cavalcanti de Albuquerque53, é provável que ele tenha tido uma postura de opositor à campanha messiânica do beato com base nas supo- sições já apresentadas. Porém, nada encontramos para mostrar isso, não encon- tramos nenhum escrito dele acerca dos fatos que decorreram em Paraibinha, o que encontramos foi – silêncio54.

No livro de óbito nº455, que abrange do ano de 1921 a 1927 não consta o no- me de nenhum dos 8 mortos na chacina, o que nos leva a crer que, igualmente, a narrativa de Silva Filho (2005, p. 155) ao afirmar que alguns não queriam enterrar os fiéis no cemitério da Igreja, pois, os corpos eram de “hereges”, os nomes não cons- taria nos livros eclesiais por estes indivíduos não serem considerados católicos. Ou- tra possibilidade seria que este silenciamento, provém, do receio do vigário em que revelando o surgimento deste caso de messianismo a culpabilidade seria da própria instituição religiosa por não atender tais localidades longínquas, deixando a função de ministros da palavra de Deus a critério de evangelizadores leigos. Logo, silenciar seria mais cômodo, deixar com que realmente se cresse que a religião de Ageu fos- se entendida como um outro credo, e assim Padre Inácio evitava entrar em conflito com a hierarquia que na época buscava tornar a religião mais ortodoxa e livre de tais manifestações populares.

53

“Padre Inácio, filho de São João do Cariri e ordenado (...) foi duas vezes vigário de Cabaceiras: nos anos de 1907-1908 e nos anos de 1925-1941.” (RIETVELD, 2017, p. 241)

54

De acordo com o historiador Michel Pollak (1989) o conceito de silêncio e o não-dito, consistem em memórias “clandestinas e inaudíveis”, as quais separam o dizível e o indizível, opondo-se às memó- rias coletivas nacionais ou as ditas oficiais. “Essa tipologia de discursos, de silêncios, e também de alusões e metáforas, é moldada pela angústia de não encontrar uma escuta, de ser punido por aquilo que se diz, ou, ao menos, de se expor a mal entendidos” (POLLAK, 1989, p. 8).

55

Livro disponível no arquivo da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição e São Bento – Cabacei- ras-PB.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base no que foi exposto, compreendemos alguns aspectos do imaginário messiânico da comunidade de Manoel Ageu em Paraibinha, e como ele se tornou um homem dado como santo e profeta, através do uso de imagens e práticas cultu- rais já existente em uma sociedade que segundo alguns estudiosos se caracteriza quanto uma expressão do catolicismo rústico.

O catolicismo rústico, sendo herdeiro da cultura colonial, possibilitou di- versas formas de religiosidades populares sob as expressões de devoções, exemplo disso, são as novenas, as romarias, os festejos aos santos. Surgindo justamente em um período em que os agentes religiosos não tinham acesso a todas as comunida- des rurais, ficando a função de transmissores da fé a cargo de indivíduos leigos sem muito preparo acerca da doutrina oficial, ou mesmo nenhuma, o caso de Manoel Ageu é um exemplo destas práticas.

Uma das devoções mais notáveis era a ligada a dos romeiros que andavam centenas de Quilômetros até o Juazeiro do Ceará, estes romeiros atribuem ao Padre Cícero Romão qualidades de naturezas divinas e milagroso. A partir deste trabalho de pesquisa identificamos que Ageu era um devoto fervoroso e por ter recebido ins- pirações por parte do “Padim Cíço” para a construção do imaginário de sua própria comunidade de devotos.

Segundo as nossas reflexões, além da figura central do Padre Cícero, outros elementos poderiam ter contribuído para a construção deste imaginário messiânico de Paraibinha, provavelmente, pode ter sido através de supostas experiências so- brenaturais que Manoel Ageu vivenciou, como também por ele ter tido algum tipo de contato com as literaturas que enfatizavam imagens e uma realidade escatológicas.

Além disso, encontramos algumas pistas que nos fazem acreditar que Manoel Ageu, provavelmente, era filho de um beato que viveu em finais do século XIX em sua cidade natal – Bom Jardim-PE – desse forma compreendemos que é possível que Ageu tenha dado continuidade ao ministério de seu suposto pai, José Guedes.

As imagens mentais e verbais presente na comunidade de Paraibinha são bastante curiosas, dentre elas encontramos a justificação de que Manoel Ageu era um santo, que morreu e ressuscitou. Como também a ideia que ali dentre os fiéis

manifestava-se os próprios santos revividos que estariam esperando o dia do juízo que seriam salvos em uma barca que os conduziria à Jerusalém Celeste.

Em contrapartida a esta investigação de discursos e imaginários, encontra- mos outros indícios, agora de como pôde ter se constituído a imagem ainda presen- te na região de Barra de Santana- PB de que Manoel Ageu era um charlatão e apro- veitador da ignorância dos moradores daquela região árida. Ageu fora acusado e incriminado sob discursos depreciativos dos maridos de suas seguidoras e de auto- ridades como a justiça e a imprensa, enquanto seus seguidores foram tidos como fanáticos, incultos e incivilizados.

O caso de Manoel Ageu é só mais um exemplo do contexto e da sociedade dos primeiros anos da república, momento de intenso conflito, entre o mundo que se considerava civilizado e o mundo do “atraso”. Ambos inconformados com o pensa- mento do outro, pois enquanto os ditos “civilizados” tentavam promover uma certa modernização das práticas culturais os “incivilizados” eram aqueles que resistiam e tentavam conservar os costumes antigos.

Uma das finalidades deste trabalho foi, antes de mais nada, incluir o episódio das rezas do beato Manoel Ageu ao âmbito das discussões acadêmicas no campo historiográfico, pois até agora não temos conhecimento se este fato fora abordado por algum historiador. Além do mais, nossa análise da comunidade de Paraibinha se enquadra na chamada História Local que buscou apresentar as rezas de Ageu como constituinte de uma pequena fração de uma história mais geral56, sabendo que o contexto local se relaciona diretamente com o contexto nacional. E por se tratar de um caso em uma localidade muito específica, podemos suscitar questões relaciona- das à memória dos moradores da região de Paraibinha.

56

De acordo com Francisco Ribeiro da Silva (1999, p. 386) uma das funções da História Local consis- te na percepção de que a História Nacional é composta por partes.

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