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E a onda levou Erickaline Bezerra de Lima

No documento Café frio e outros contos (páginas 65-71)

P

aralisado em meio à areia da praia, o senhor Pedro Rocha

sentiu seus nervos aflorarem de maneira entorpecente. Mo- mentos de sua vida se convergiram em devaneios, onde se reconstituíam ora uma vida perfeita e realizada, ora desgostos e decepções. Tais pensamentos giravam em sua mente, seme- lhantes à brisa que incessantemente soprava em seus ouvidos, como o som de uma leve sinfonia acompanhada de uma lírica voz feminil. Com o peso da sua consciência, os pés afundavam sobre a areia úmida e seus dedos se emaranhavam entre os sólidos grãos de areia. Até que se deu conta: caminhava lenta- mente em direção ao mar.

Pedro Rocha almejava ser parte da imensidão inócua daque- las águas em que via refletido como em um espelho os frenéticos raios do crepúsculo que aos poucos se aconchegavam na super- fície ondulada do mar. Seus olhos esforçavam-se, devido à clari- dade, a permanecerem abertos e testemunharem o fenômeno tão belo dos raios que despendiam do sol, formando uma espécie de caminho marítimo iluminado, contínuo e infinito. Era como se caminhasse ao encontro do paraíso e, lá no final, próximo àquela

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luz majestosa, alguém chamasse repetidamente seu nome. Naque- le momento seu corpo e suas pegadas profundas, marcadas na areia, eram os únicos indícios de sua existência.

Entregando-se à magnitude da correnteza, lágrimas se des- prendiam dos seus olhos e misturavam-se às límpidas águas do oceano. Em sua mente perturbada, juntavam-se resquícios de lembranças angustiantes, as quais ele lutava braviamente para que fossem impelidas pelas maretas. Pedro queria esvaziar-se, deter-se em uma amnésia, pois seria oportuno acreditar na ilusão de um sentimento de liberdade dos seus problemas.

Assim, Pedro Rocha flutuava sobre as ondas deixando-se levar sem rumo mar adentro. Cada vez mais ele se distancia- va da orla e, caso quisesse voltar, não poderia, pelo menos não sozinho. O local onde Pedro decidiu se atirar ao mar de modo inconsequente é um completo paraíso de águas claras e mar inconstante. Embora frequentado por pescadores das redondezas e possuir um movimento razoável de turistas, no momento, não havia nada e ninguém nos arredores.

Enquanto observava o céu coberto por nuvens acinzentadas sua mente ficou vazia, nenhum problema parecia lhe atormentar mais; apenas auscultava minuciosamente os sons que o circunda- vam: o próprio mar, o cantar das gaivotas e a brisa que levemen- te secava sua face. Aquele era um verdadeiro momento de paz e tranquilidade, onde nada e ninguém poderia lhe perturbar – po- rém, na vida nunca se está completamente só. O mar também es- quecido por ele deu sinal de sua presença, exaltando-se.

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Logo, o que parecia ser um mar de calmaria começou a se mostrar agitado e inóspito. As ondas aumentaram de tamanho, a correnteza ganhou força, e o senhor Pedro Rocha se viu preso em meio à fúria das águas. Ele estava se afogando nos próprios medos e problemas que outrora tentara esquecer, agora, descarregados em alto mar. As águas pareciam ter se enfurecido e, em revolta, um misto de movimento e força fazia Pedro se dobrar feito papel. O oceano estava o repreendendo, castigando, protestando!

Senhor Pedro Rocha via sua vida passar diante dos seus olhos e desejava o mais rápido possível calcar seus pés novamente na areia e sentir a emoção de estar vivo. Tinha dois filhos adolescen- tes e uma esposa para amar. O que faltava então? O que lhe levou a fazer tamanha loucura? Eram estas perguntas que mantinha em sua mente, em meio ao desespero de arrependimentos que inun- davam o interior do pobre homem. Seus problemas tinham a for- ma das ondas que insistiam em lhe deixar submerso.

Então, na luta com o gigante mar de emoções, simplesmente deixou-se afundar como uma pedra atirada n’água. Já submerso, percebe a sua volta à riqueza do mundo marítimo. A vida e o co- lorido que Pedro enxergava por entre as frestas dos seus olhos – incomodados pela água salgada – contrastavam com a sensação de arrependimento que o encharcava por dentro. Pouco tempo depois, lá estava ele, debruçado em algo sólido, era a areia em con- tato com seu corpo.

Alguns turistas que passavam por ali avistaram algo estranho sobre a areia e ao se aproximarem viram se tratar de uma pessoa,

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as roupas estavam secas e a feição tranquila. Preocupados com a maré que rapidamente subia, quase o alcançando, cogitaram em acordá-lo, mas, para surpresa de todos, o próprio recobrou a consciência em um despertar súbito – amedrontado e ofegante. Na verdade, nunca havia saído da orla. Enquanto refletia sobre sua problemática vida, adormeceu no conforto daquele chão are- noso, submergindo no estado mais profundo de sono.

Apesar dos turistas não terem noção do que exatamente ocorreu e se mostrarem receptivos a ajudá-lo, explicação nenhu- ma seria dada, pois Pedro queria apenas voltar à sua vida normal – da qual havia se afastado irresponsavelmente. Ao menos ele sa- bia que tudo não passava de uma mera fantasia remontada pela sua mente – um sonho – uma construção deliberada do incons- ciente que se encontrava tomado por conflitos. Essa certeza o fez dar um longo suspiro de alívio.

Pedro Rocha se levantou, negando a ajuda oferecida pelos tu- ristas, retirando-se contido e pensativo em direção ao local onde havia estacionado seu carro – alguns metros dali. As lembranças sobre o que lhe acontecera nos últimos minutos, que para ele pa- reciam horas, eram somente flashes aleatórios sem ligação algu- ma. De qualquer modo, mesmo os acontecimentos sendo fruto de um sonho, não deixavam de significar para Pedro uma segunda chance, uma oportunidade de se refazer.

O barulho do motor do carro ao dar a ignição indicava o retorno à realidade, sabia exatamente no que tinha falhado, para onde teria e queria ir. Então, pacientemente regressou à vida

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normal enxergando-a com outros olhos, mas, sobretudo, com a concepção de que a imensidão do mar não é o lugar certo para desaguar os conflitos de pensamentos desvairados, muito menos, quando se está nele.

Erickaline Bezerra de Lima é formada em Teatro pela UFRN, com experiência em crítica teatral, par- ticipa do Projeto de Pesquisa e Extensão Vertentes da Crítica. Atualmente é aluna do Programa de Pós-gra-

duação em Artes Cênicas e do curso de Psicologia –

UFRN. Desenvolve pesquisas que envolvem arte, li- teratura, reflexão, recepção, estudos filosóficos, entre outros temas.

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Devaneios e morte

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