A EMBRATUR CONTA SUAS RECEITAS
2.1. E M BUSCA DOS INGREDIENTES
Para o desenvolvimento da pesquisa que me propus realizar35, a EMBRATUR constitui-se num elemento fundamental, uma vez que é um instrumento do Estado para estabelecer, implantar e administrar as iniciativas do desenvolvimento do turismo, incluindo a seleção de imagens a serem divulgadas, no exterior e dentro do Brasil, em nome da geração de fluxos turísticos para o país.
Após uma série de contatos telefônicos, embarquei para Brasília no dia 17 de abril de 2003, com a expectativa de trabalhar durante cerca de um mês consultando os arquivos do Instituto, enviados para Brasília após o encerramento das atividades do escritório da EMBRATUR no Rio de Janeiro. O contato in loco com arquivo seria necessário e primordial não apenas para o levantamento das campanhas e do material publicitário produzidos pelo Instituto, mas também para o arrolamento de informações sobre os objetivos e metas dos diferentes planos de atuação em desenvolvimento turístico, o que contribuiria para a contextualização das campanhas.
Encaminhada para vários setores, em que conversei com diferentes pessoas, tomei conhecimento de que o arquivo do Instituto havia sido doado à UnB, mas que até então ainda não estava disponibilizado para o público. Diante disso, procurei a biblioteca central daquela universidade, que, por seu turno, encaminhou-me para o Centro de Excelência em Turismo, órgão da própria Universidade e cuja coordenadora não me recebeu. Dirigi-me
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ARHAT, Said. Mensagem do Presidente da EMBRATUR no 10º aniversário de criação da Empresa. Rio de Janeiro, 1976.
35 O que sustenta e anima o item 2.1. deste capítulo é, acima de tudo, minha experiência pessoal enquanto pesquisadora lidando com percalços a cata de material. Por isso, pareceu pertinente o uso da primeira pessoa aqui.
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então diretamente à biblioteca do CET, onde encontrei o arquivo. O material estava sendo desencaixotado e seria analisado por um professor cuja incumbência era selecionar o que seria mantido ou não na biblioteca.
O conjunto de documentos não tinha qualquer tipo de classificação ou índice. Era composto de cerca de 200 caixas de papelão contendo desde material institucional da EMBRATUR até material publicitário de diferentes lugares, estudos do potencial turístico de diferentes cidades, anuários estatísticos, apostilas de cursos, cópias de discursos proferidos por representantes da EMBRATUR etc. Um funcionário da biblioteca, o Sr. Benê, responsável por desencaixotar o material, acompanhou-me nesta primeira visita ao arquivo, e pude observar que algumas caixas já haviam sido separadas para possível descarte. Foi quando resolvi entrar em contato novamente com a coordenadora do CET, para verificar que tipo de material estava sendo mantido e que fim seria dado ao restante. Mais uma vez, não fui atendida.
Voltei então à EMBRATUR e conversei com algumas pessoas a respeito do que observara na biblioteca. Após minhas considerações, a Sra. Katia, da área de Propaganda, sensibilizou-se com a importância do material e entrou em contato com o CET para verificar o que estava ocorrendo. Outras pessoas sequer sabiam que os arquivos haviam sido doados para a UnB e não se comoveram com meus apelos para a preservação dos documentos, pois consideravam tratar-se de material que se referia ao passado. Cheguei mesmo a ser questionada por um alto funcionário do Instituto acerca das razões do meu interesse em preservar documentos relativos a um passado de resultados pouco significativos.
No CET, conheci o Sr. José Mauro, professor do Centro e responsável pela classificação do material, e que foi bastante receptivo. Cheguei inclusive a ajudar na seleção dos periódicos publicados pela EMBRATUR. Após expor-lhe a importância da conservação do arquivo, por sua relevância histórica para o turismo brasileiro, o professor entrou em contato com a direção do Centro, que resolveu realizar uma nova seleção dos documentos, que agora estão sendo restaurados. Considero, assim, que minha presença, naquele momento, no CET, foi de extrema importância para a conservação do arquivo, uma vez que faltavam ali a visão e o interesse de alguém com formação na área que mostrasse a importância da documentação.
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O período inicialmente previsto de um mês teve que ser alterado devido ao grande trabalho que teria que ser realizado no arquivo. Passei grande parte dos seis meses em que lá estive desencaixotando e verificando item por item do arquivo, para separar o material que seria relevante para minha pesquisa. Contei com a colaboração de todos os funcionários da biblioteca, especialmente do Sr. Benê, nos primeiros meses, para a seleção e fotocópias. Este trabalho só foi possível graças à colaboração do senhor João Carlos Vasconcelos, então assessor diretor da Presidência da EMBRATUR e que, desde o primeiro contato, apoiou incondicionalmente minha pesquisa, inclusive permitindo que as fotocópias de todo o material fossem realizada pela própria EMBRATUR, já que o auxílio financeiro conseguido para a realização da pesquisa somava valor suficiente para apenas um mês, cobrindo gastos de transporte, hospedagem e alimentação, e não poderia ser usado para fotocopiar o material.
Os dados apresentados neste trabalho foram retirados do material fotocopiado, que continha relatórios anuais das diversas diretorias da EMBRATUR para a presidência do Instituto, relatórios da EMBRATUR para os diferentes ministérios aos quais o Instituto foi vinculado, no período de 1966 a 2002, totalizando aproximadamente 200 diferentes relatórios, nos quais não constavam, em sua grande maioria, datas, numeração de páginas, índice, autoria, ou outros dados que teriam facilitado sobremaneira todo o processo de pesquisa e catalogação.
Além dos relatórios oficiais, também foram analisados relatórios de pesquisas pagas pelo governo e realizadas por reconhecidos institutos de pesquisa internacionais, para a análise de mercados potenciais, importantes para que se traçasse o perfil dos possíveis consumidores, para o conhecimento da idéia que os estrangeiros tinham do Brasil, entre outras informações importantes para a elaboração de um plano de desenvolvimento turístico.
Também foram analisados materiais impressos pela própria EMBRATUR para a divulgação de sua atuação junto ao mercado nacional e internacional e à imprensa. Este material é composto por boletins de imprensa, revistas e livretos da EMBRATUR. Discursos dos vários presidentes do Instituto também foram analisados. Estes documentos também não possuíam informações relevantes como data e local de realização. Muitos estavam em versão original, contendo, inclusive, anotações de punho dos próprios presidentes ou assessores.
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Entre o material também havia relatórios de reuniões e congressos nacionais e internacionais, bem como discussões dos resultados dos eventos –– na maioria dos casos, o autor do relatório não é citado. Normas e publicações da OMT, artigos de jornais e revistas publicados sobre e pelo Instituto em diferentes períodos também integram o arquivo.
Ainda no que tange aos procedimentos metodológicos, também foram realizadas entrevistas com atuais membros da presidência da EMBRATUR, que preferiram não ter seus nomes citados, bem como com ex-funcionários então envolvidos na divulgação do país, enquanto produto turístico, no exterior.
Nos meses em que convivi com aquelas pessoas, participei intensamente do trabalho realizado com o arquivo, tornei-me “funcionária honorária” da biblioteca, participando inclusive de festas de aniversário dos funcionários. Sinto que foi uma conquista, já que, de início, não fui muito benquista, pois era encarada como a pessoa que denunciou, para a EMBRATUR, a maneira lamentável como a seleção do arquivo estava sendo realizada.
Fato curioso é que a coordenadora, que jamais me recebeu, mas tomou conhecimento do meu interesse e das motivações da pesquisa que estava realizando, publicou um artigo no Jornal de Brasília, relatando que o CET estava restaurando o arquivo da EMBRATUR, material importantíssimo para pesquisadores interessados. Ao final do meu trabalho tentei novamente falar com a funcionária, desta feita para entregar uma carta de agradecimento pela atenção a mim dispensada pelos funcionários da biblioteca do CET, e de novo não fui recebida.
Sob indicação da EMBRATUR, participei de alguns eventos em turismo no Distrito Federal, inclusive no lançamento, pelo presidente da República, do Plano Oficial de Turismo, realizado no dia 29 de Abril de 2003, no Palácio do Planalto.
A partir da análise de tal material colhido e de depoimentos prestados por pessoas que viveram fases da trajetória da EMBRATUR, é possível contar a história, descrita pelo próprio Instituto, do turismo no Brasil. Farei um recorte, selecionando o que é mais importante às propostas e objetivos deste trabalho. É importante ressaltar que a ausência de datas e numeração das páginas criou uma dificuldade adicional na organização cronológica do material. Foi difícil, trabalhoso, dolorido –– já que me rendeu uma sinusite alérgica –– porém gratificante, ao saber que o arquivo, ou pelo menos boa parte dele, está sendo restaurado e preservado, o que possibilitará a realização de várias outras pesquisas, em nome do maior conhecimento sobre o desenvolvimento turístico do país.
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Após o levantamento e a análise de todo o material, teve início a fase da redação propriamente dita da dissertação.