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Em primeiro lugar, vamos cercar a palavra “adolescente”. A faixa etária é ampla. Ultimamente, observamos muitas discussões em torno de uma extensão desse período da vida que se convencionou chamar de adolescência.

Assim como o conceito de infância, a definição desse período especial em que o indíviduo se situa entre a fase infantil e a adulta, é uma criação sóciocultural. O olhar para as especificidades da adolescência começa a ganhar forma a partir dos anos 1920, portanto no período do pós- primeira guerra e vai se consolidando ao longo do século XX. Em alguns momentos do século, em especial a partir dos anos 1950 e sobretudo nos anos 1960, algumas características da adolescência, como a rebeldia, por exemplo, passam a ocupar uma cena maior no caldo cultural das sociedades ocidentais, expressando-se no movimento que ficou conhecido como a contracultura. De certa forma, até hoje a adolescência tem sido associada a este “contra”, à “rebeldia”, ao desejo de mudança, à necessidade de dar voz aos desejos individuais, ao sonho de liberdade.

O quanto essas características fazem de fato parte do mundo adolescente ou foram uma construção dos adultos sobre esse período, ainda é discutível para alguns autores. Em artigo do jornal A Folha de São Paulo, em 27 de julho de 2008, Calligaris escreve:

A adolescência como época separada e específica da vida foi inventada nos anos 1950 e 1960. É nessa época que o cinema e a literatura (narrativas inventadas pelos adultos) criaram a figura do adolescente revoltado, ao qual foi confiada a tarefa de encenar as rebeldias inconfessáveis e frustradas dos adultos.

Uma explicação materialista para esse fenômeno diz que, no quase pleno emprego do pós-guerra europeu e americano, era bom que os jovens levassem mais tempo antes de chegar ao mercado de trabalho; ou, então, que um tempo maior de preparação e estudo era exigido por um mercado de trabalho cada vez mais especializado.

Outra explicação, menos materialista, diz que os adultos, na pequena prosperidade do pós-guerra, achavam sua vida um pouco chata (e era, de fato, mais do que nunca, massificada). Os adultos, portanto, sonhavam com aventuras às quais pareciam ter renunciado em troca de uma casa, um liquidificador, dois carros e uma TV. E eles inventaram a adolescência como encarnação de sua vontade de uma vida menos enlatada.

[...] foi um momento especial, em que a insatisfação reprimida dos adultos do pós- guerra delegou aos jovens uma missão quase revolucionária. Desde então, é como se a adolescência tivesse perdido sua razão de ser.

Num mundo cada vez mais complexo, com um futuro intangível, tal qual Petit (2008) definiu em seu livro Os jovens e a leitura, parece caber cada vez mais ao adolescente preocupações em relação ao amanhã. O que farão da vida, como será o futuro, como estará o mundo? O que devem saber para poder sobressair-se no mercado de trabalho, ou o que não adianta nem saber, visto que a divisão de classes é tão acirrada e o abismo que se constrói desde cedo, ainda nas primeiras experiências familiars e escolares, intrasponível? Numa sociedade tão desigual como

Ainda seguindo o pensamento de Petit (2008), vivemos atualmente um paradoxo: nossa sociedade enaltece a juventude, como o lugar e tempo que todos querem estar e fazem de tudo para manter-se, mas nunca os jovens reais tiveram tão poucas perspectivas, em termos de inserção social, econômica, garantias quanto ao futuro.

Pensando por este lado, talvez possamos afirmar que os adolescentes de hoje estejam mais próximos das angústias do mundo adulto. Num tempo em que também estão mais expostos a todo tipo de informação, sobretudo via internet, o mundo dos adolescentes tende a ficar mais real e menos romântico. Os adolescentes querem de fato mudanças, ou desejam mais é um lugar ao sol, uma inserção social?

Difícil dizer. Difícil também generalizar. Existe a adolescência ou devemos pensar em adolescências? Existem relações com a leitura, ou relações com diferentes leituras? Há um leitor adolescente, de quem podemos falar genericamente ou experiências muito singulares de leituras literárias, que fazem leitores adolescentes encontrarem espaços, respiros, ganchos para suas reflexões, ansiedades, necessidades de identificação? Há um determinado tipo ou leitor ideal? Um leitor que se encaixaria em moldes de uma formação literária iluminista29, que altera profundamente nosso lugar no mundo, ou experiências pontuais de leitura, aproximações e distanciamentos? Qual será o leitor possível? O leitor comum? É necessário reverenciar a leitura literária como a experiência fundamental humana, ou uma entre outras, que nos ajudam a situar no mundo e em relação a nós mesmos?

É evidente que um projeto de formação de leitores na escola está sintonizado com discursos de seu tempo. Há expectativas e resultados desejados a partir de ações previstas em torno dessa formação. Pensa-se um leitor equânime – que dialogue em uníssono, respondendo às demandas sociais e educacionais - e que caminhe da mesma maneira que seus pares, a partir da oferta igualitária de experiências com a leitura. Uma parada neste ponto do texto é essencial. Retomando o que já foi dito a respeito da experiência estética e, portanto, subjetiva

29 Segundo Perrotti. Op. Cit. P. 16, na melhor tradição iluminista, a cultura letrada é tida – em especial a literária,

como a criação mais elevada, concebida pelo espírito humano. O acesso a ela possibilita não só revelação proveniente de sua grandeza imanente, como também distinção, diferenciação, destaque (...)

da leitura, equalizar as relações dos leitores com o texto literário poderá fazer sentido para as estatísticas, mas não quando se deseja apreender que tipo de experiência está-se construindo na escola. Ou então: que leitores estamos formando dadas certas condições, lugar, tempo?