ambiente de qualidade, ou seja, vivencia sempre a qualidade, para que quando estiver no mercado de trabalho, objetive qualidade, voltado aos interesses da empresa como projeto de adulto – pro-jeto de profissional. Está, dessa forma, a qualidade total ligada ao desenvolvimento produtivo e não ao ser humano em todos os seus aspectos afetivo, cognitivo, social e espiritual.
Ainda, a gestão da qualidade total consiste num sistema administra-tivo voltado ao atendimento das necessidades, interesses e expectativas dos clientes, diferindo, entretanto, de outros sistemas porque possibilita aos participantes a capacitação para planejar e gerenciar o próprio traba-lho, contribuindo eficazmente com o grupo na solução dos problemas e para que os objetivos estabelecidos sejam atingidos.
A qualidade como processo
e qualidade total: estabelecendo paralelos
O da qualidade em educação está voltado para a aprendizagem cidadã. E
ao falarmos em qualidade de educação e aprendizagem cidadã, primeira-mente, como premissa fundamental temos de indagar e colocar:
Que homem e que sociedade se deseja construir?
A resposta a essa premissa é que vai fundamentar a proposta educacional da escola, retratada no seu Projeto Político-Pedagógico, instituindo os seus pilares sustentadores e elegendo a esse projeto os princípios, de acordo com o nosso credo, respaldado em diversos autores como: Paulo Freire, Pedro Demo, Danilo Gandin, Celso Vasconcellos e outros que acreditam e defendem uma linha de educação humanista, ou seja, educação para a liberdade, quais sejam:
instrumento de transformação social tendo em vista a construção de uma
sociedade democrática e participativa, na qual a participação coletiva nas decisões sejam uma constante;
defesa aos direitos do homem, individuais e coletivos, buscando o resgate
da dignidade, liberdade e justiça;
defesa por uma sociedade em que todos os homens (pessoa humana)
possam se tornar sujeitos de seu processo histórico, do seu próprio desen-volvimento e do desendesen-volvimento social;
auxílio na construção de uma sociedade pluralista, imperando o respeito
às pessoas e às organizações.
O Projeto Político-Pedagógico, além de promover a organização da escola como um todo, traz à escola uma nova qualidade de trabalho, partindo dos se-guintes princípios norteadores:
igualdade (igualdade não quer dizer uniformidade, ao contrário, é a única
autêntica diversidade. Segundo Marx: a cada um, segundo suas necessi-dades, de cada um, segundo suas capacidades.);
qualidade para todos;
valorização do magistério, formação continuada, no que se refere ao
tamento de necessidades de formação, e com a elaboração de programas.
A educação, sendo uma prática social, não pode restringir-se a ser puramente livresca, teórica, sem compromisso com a realidade local e com o mundo em que vivemos.
Conscientemente, a educação está voltada para a democracia e contribuin-do para a democratização na sociedade; desenvolvencontribuin-do as habilidades neces-sárias para a consecução de projetos e a consciência de cidadania, podendo os alunos propor em soluções para o bem comum, por meio de produtos com utili-dade social para grupos específicos ou para a socieutili-dade como um todo.
A orientação do educando está voltada para que assuma os valores huma-nos, com consciência e responsabilidade para que seja agente de transformação na realidade em que está inserido.
A formação de alunos críticos e reflexivos leva a perspectivas de promover o homem na sua integridade e consciência de que todos os valores humanos encontram-se na sua realização plena.
O grande desafio do cotidiano escolar está em saber orientar no sentido de possibilitar a formação de pessoas dotadas de intensa curiosidade diante do desconhecido, preocupadas em desvendar a realidade e investigá-la, capazes de expressar sua afetividade em seus relacionamentos, possuidoras de uma atitude coerente diante da vida.
Uma nova postura educacional surge. O mundo contemporâneo exige que os homens de seu tempo tenham competências que os tornem capazes de atu-arem, com flexibilidade e criatividade, num universo de informações permanen-temente renovadas. A educação comprometida com o “formar” leva o educando ao pleno exercício de seus direitos e deveres de cidadão.
Educadores e educandos aprimoram suas formas de interagir, pensando sobre as relações de poder entre os homens e suas ideologias. Conhecer, enten-der, criticar, opinar são meios de fazer com que todos participem do processo educativo. O pensar e o agir são centrados numa postura renovadora e contínua, para que os alunos possam enfrentar os desafios de um mundo em constante transformação.
Quem faz a educação com seriedade, com determinação, certamente cons-trói cidadania, pois estamos num tempo em que a cidadania precisa ser enca-rada com coragem e determinação. A educação que ousa oxigenar sinais con-cretos de uma cidadania, pratica e constrói novas possibilidades, novos sonhos, novos mundos.
O pleno exercício da cidadania inclui a prática do ato educativo e requer a par-ticipação ativa e compromissada dos cidadãos, indistintamente, escola e comu-nidade juntas para a construção de uma sociedade humana, justa e solidária.
Assim, a filosofia de uma escola voltada à qualidade em educação se resume em possibilitar uma construção conjunta de novos cidadãos, capacitados, críti-cos, conscientes e responsáveis, despertando em cada educando o valor da vida, o prazer e a busca do conhecimento, o significado e a importância dos valores éticos e morais, com um ensino inspirado nos princípios de liberdade, igualdade, solidariedade e democracia.
Ao nos referirmos à qualidade em educação estamos afirmando nossa posi-ção de que a educaposi-ção só será realmente de qualidade se estiver compromissa-da com a construção cotidiana do referencial teórico que acabamos de colocar, ainda que de forma simplificada, e no propósito constante de busca, realização e avaliação da práxis condizente à teoria. Assim, processos, métodos, estruturas, relações internas e externas têm de necessariamente conspirar favoravelmente à construção da qualidade em educação como processo.
Uma escola de qualidade deve ser objetivo de qualquer gestor, portanto, este deve perseguir os objetivos propostos, refletindo em uma efetividade social e, para tanto, a escola deve ter claro o que quer, estruturar e programar o melhor possível para seus alunos, captando ao máximo os recursos que dispõe (físicos, humanos e financeiros), unindo a energia de todos os envolvidos para ser cum-pridora de seus objetivos (éticos e sociais).
Enfim, a qualidade em educação que defendemos é a de uma educação com-prometida com a transformação social.
A linguagem utilizada para qualidade total está baseada em princípios como:
planejamento da qualidade;
total satisfação dos clientes;
gerência participativa;
desenvolvimento dos Recursos Humanos;
constância de propósitos;
aperfeiçoamento contínuo, gerenciamento de processos;
disseminação das informações;
Essa linguagem fica mais evidente quando alguns teóricos definem escolas de qualidade total, expondo seus princípios e resultados. Um dos autores é o professora Carlos Henrique Carrilho Cruz que relata:
Um paralelo interessante a respeito da evolução do conceito de qualidade aplicado à educação acontece se for fortalecido o entendimento de que qualidade estava sempre ligada à expansão do ensino, à garantia de acesso, à dotação de recursos. A partir dos anos 1980 outras questões começam a tomar lugar como o índice de evasão, de repetência... e atualmente assume uma transposição do conceito do mundo do mercado para o mundo de educação, ou seja, passando pelas determinações da produção material para a produção cultural escolar.
Caracterizando ainda mais as raízes do conceito de qualidade aplicado à Qualidade Total com a visão administrativa capitalista.
Por manter, ainda, essa forte ligação, a educação, neste contexto, passa por mensuração como forma de avaliação; pela interferência na produção cultural do homem, visando acumulação de saber, para inserção em uma sociedade competitiva.
Nesse ponto, fazendo um paralelo com a qualidade em educação, fica evi-dente a diferença entre as duas propostas e a nossa opção, uma vez que a quali-dade em educação está relacionada à qualiquali-dade de vida, à apropriação do saber e à sua intervenção na sociedade de maneira consciente, solidária, participativa e cooperativa.
A socióloga Sylvia Schmelkes define qualidade em educação como a
[...] capacidade de proporcionar aos alunos o domínio de códigos culturais básicos, a capacidade para a participação democrática e cidadã, o desenvolvimento da capacidade de resolver problemas e seguir aprendendo, o desenvolvimento de valores e atitudes compatíveis com uma sociedade que deseja uma vida de qualidade para seus habitantes. (SCHMELKES apud MORAES, 1997, p. 193)
Retomando a qualidade total, se levarmos mais a fundo o conceito podemos dizer que visa à distinção, diferenciação dos demais. De acordo com Araci Hack (1997, p. 36)
[...] produzir o melhor produto com menos custos e maior condição de competitividade. Nesse paradigma, a qualidade de vida está relacionada à possibilidade de consumo de todas as inovações tecnológicas. Trata-se da incorporação da cultura de satisfação.
A qualidade de vida posta em discussão quando agregada à qualidade na educação toma conotação de apropriação de saberes que desenvolverão “o ser
humano”, “o cidadão”, “a cidadania”, sendo assim tendo valor social. Ainda, segun-do Araci Hack (1997, p. 36), “a qualidade de vida entendida como condições e possibilidades de satisfazer necessidades básicas de existência humana”.
O processo de avaliação, por conseguinte, difere sob as duas óticas:
na qualidade em educação, a avaliação possui procedimentos que
vem participação, consciência, entendimento, tendo como instrumentos a conversa, a participação da vida comunitária e até mesmo buscando as-sumir o projeto político da comunidade;
na qualidade total, a avaliação é mensuração, o quanto aprendeu, o
to se destacou, o quanto recebeu de conhecimento.
Não só a qualidade total visa à mudança dos processos para implantação da mesma no contexto educacional como também a qualidade em educação exige que se estabeleça o envolvimento de toda comunidade em busca de uma totali-dade, o estabelecimento de um processo de qualidade pressupõe dinamicitotali-dade, compromisso, e uma visão sistêmica que agrege a todos, porque este processo é baseado na troca, na interação, refletindo seu resultado mais nos próprios pro-cessos e nas relações, afetando todo o sistema.
A respeito dessas mudanças no processo Moraes (1997, p. 195), complementa:
[...] melhorar os processos significa não apenas levar em conta as necessidades dos usuários dos sistemas em cada etapa de sua trajetória mas a busca de novas estratégias de aprendizagem mais adequadas à produção do conhecimento mais atualizado, ampliado, que induz à expansão da cognição humana, à crescente intelectualização do trabalho.
Vivemos em uma época de rápidas e profundas mudanças. Esta é hoje a nossa realidade, por isso há que se ter a clareza e o cuidado suficientes para per-ceber que a qualidade somente poderá ocorrer, interferindo na realidade para sua transformação, se a ação para tal for coletiva e coerente ao projeto também construído coletivamente.
O professor Carlos Henrique Carrilho Cruz coloca “Quanto mais clara for essa opção e coerente for a ação que a realiza, maior qualidade terá a ação educativa e a escola.”
As discussões acerca da busca de qualidade em educação já possuem uma estrada longa, já se falava em qualidade total na empresas com grande ênfase e já começava a ser implantada em algumas instituições de ensino, ainda que su-tilmente. Uma delas foi o Sistema de Ensino Pitágoras, que começou a abrir suas
portas para as mudanças em busca da qualidade dentro das novas concepções de qualidade, ou seja da qualidade total. Evando José Neiva, um dos fundadores do sistema, concedeu uma entrevista à revista Dois Pontos, que fala sobre suas ideias e vivências para implantação do processo de Qualidade Total. Transcreve-mos alguns trechos, para unirTranscreve-mos a teoria a uma situação real:
D. P. – Como se coloca em prática a qualidade total?
Evando – A prática da qualidade total exige a mudança de comportamen-to, aspecto que representa também a maior dificuldade do processo. É preciso desenvolver uma nova consciência, novas crenças e valores para suportar a mu-dança. Em todos os cursos sobre qualidade total em educação que ministramos, e já o fizemos até para rede pública de ensino de 2.º grau de Contagem, temos percebido que, embora a escola demore algum tempo a entrar no processo, o pessoal da área de educação está bastante sensibilizado e motivado a buscar um caminho que realmente signifique a melhoria de ensino. A qualidade total é uma alternativa.
D.P. – Percebe-se que é outra a relação professor-aluno. Como se estabe-lece essa nova postura?
Evando – De fato, é uma relação vista como prestação de serviços: o professor serve ao aluno, que é o cliente, assim como o diretor e os técnicos pedagógicos e educacionais servem ao professor, cliente que é dessas pessoas. Então, se o pro-fessor se reconhece como quem serve ao aluno, seu comportamento em relação a esse aluno será mudado. Ao fazer isso, o professor não vai perder sua posição de educador, não vai se humilhar. Ele vai ter uma postura humilde, não humilhante.
É uma postura nova, que exige que ele colha dos alunos informações sobre o an-damento do curso e, em consequência, atue corretivamente para melhorá-lo. Nós estamos a serviço uns dos outros e só assim é que vamos servir melhor, criar mais satisfação e ficar mais satisfeitos, porque a satisfação é um sentimento recíproco.
Estamos buscando uma relação em que satisfação, orgulho do trabalho, desejo de ultrapassar as expectativas indo além permeiem todos os níveis.
Esta entrevista não pode ser descontextualizada, ela se passou em 1993. De lá para cá algumas posições foram aperfeiçoadas e reestruturadas, mas esta entre-vista foi escolhida porque marca toda uma mudança de postura e entendimen-to a respeientendimen-to da escola enquanentendimen-to prestadora de serviço. Também reforça o que vimos no início deste capítulo, quando falamos sobre as raízes da qualidade total a aspectos administrativos, bem como e fundamentalmente, sobre a qualidade
da educação como um processo, que demanda tempo, estudo, compromisso, gestão participativa etc.
Para projetos educativos que propõem uma educação integral, por fim, é importante ressaltar que, quanto mais abrangente for a resposta educativa, quanto mais dinâmica, quanto mais aspectos da vida ela vivenciar dentro da escola, mais perto está de uma escola de Qualidade Total.
É de qualidade porque vivencia concreta e processualmente os ideais propostos no seu referencial de trabalho definidos participativamente pelo grupo que o põe em prática.
Essa qualidade é total porque abarca as várias dimensões da vida humana, do político ao econômico, do artístico ao cognitivo, do mundo ao transcendente e por que não se sustenta apenas pela vontade de um líder, mas pela opção de um grupo que assumiu coletivamente um ideal de sociedade e pessoa humana e busca concretizá-lo historicamente e processualmente, articulando sua ação educativa com ação de outros grupos sociais que têm a mesma opção de transformação social. (CRUZ, 1994).
Acreditamos ter conseguido estabelecer o paralelo entre a qualidade como processo e a qualidade total pelos referenciais e comentários até aqui expostos, em alguns momentos o que parece se assemelhar, nos princípios, no processo e principalmente em seus resultados, os quais com premissa devem ser espera-dos, são díspares. Entretanto, no intuito de ampliar a nossa visão em relação a que tipo de qualidade almejamos para as nossas escolas, evocamos outro edu-cador/escritor que também traça paralelos, como aqui o fizemos, entre os dois tipos de qualidade.
Primeiramente vamos à busca do entendimento em Libâneo (2004). A quali-dade total, oriunda da concepção neoliberal da economia, largamente difundida como noção de qualidade, inicialmente teve sua proposta e elaboração voltada para a empresa capitalista, todavia expande-se também para a escola e sistemas escolares,
[...] a qualidade total tem como objetivo o treinamento de pessoas para serem competentes no que fazem, dentro de uma gestão eficaz de meios, com mecanismos de controle e avaliação dos resultados, visando a atender a imperativos econômicos e técnicos. (LIBÂNEO, 2004)
Cita algumas medidas em função dessa concepção organizacional, quais sejam:
hipervalorização dos resultados da avaliação;
classificação das escolas em função dos resultados avaliativos,
do estimular a competição;
descentralização administrativa e repasse dos recursos de acordo com os
resultados obtidos na avaliação externa;
parcerias com a iniciativa privada;
repasse das funções do Estado para a comunidade e empresas.
Finaliza expressando “a qualidade total decorre de uma concepção econo-mista, empresarial, pragmática.” (LIBÂNEO, 2004).
Inicia o seu estabelecimento do paralelo entre as duas concepções de quali-dade, pela defesa da qualidade social, portanto, opondo-se à da qualidade total, afirmando:
Educação de qualidade é aquela que promove para todos o domínio de conhecimentos e o desenvolvimento de capacidades cognitivas, operativas e sociais necessários ao atendimento de necessidades individuais e sociais dos alunos, à inserção no mundo do trabalho, à constituição da cidadania, tendo em vista a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. (LIBÂNEO, 2004)
Consideramos importante, ainda, apresentar as características de uma educação escolar de qualidade social, destacadas por Libâneo, aqui apenas mencionadas:
sólida formação que possibilita desenvolvimento cognitivo, operativo e
social;
processos de formação para a cidadania;
elevação do nível escolar para todas as crianças;
integração entre a cultura escolar e outras culturas;
formação de qualidades morais, de acordo com ideais humanistas;
condições físicas, materiais e financeiras necessárias a um bom
mento;
cotidiano escolar contemplado com novas tecnologias da comunicação e
da informação.
Antagônicas para o autor as concepções de qualidade discutidas, deixando a clareza da intencionalidade apenas capitalista, ou seja, aprende a aprender para responder, em serviço – na empresa – aos interesses políticos e sociais voltados ao capital, que forçosamente excludentes, em detrimento do desenvolvimento humano enquanto sua realização para a construção e participação na socieda-de, podendo intervir nesta, com competência, para a melhoria de sua vida e do seu entorno.