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E SPRAIAMENTO DE TOM ENTRE VERBO E XP ADJACENTE

Capítulo 2 Processos tonais do Shimakonde

2.4. E SPRAIAMENTO DE TOM ENTRE VERBO E XP ADJACENTE

Além das diferenças morfológicas, os tempos verbais conjuntivos se diferem dos disjuntivos descritos nas seções anteriores por não apresentarem o alongamento de penúltima sílaba no radical verbal. O fato de o verbo não apresentar este alongamento é assumido como evidência de que ele forma uma única frase fonológica com o complemento, conforme será mais bem explorado no capítulo 6. Até aqui, analisamos processos tonais que ocorrem apenas dentro do complexo morfológico do verbo, em tempos verbais chamados de disjuntivos. Nestes tempos verbais, vimos que a penúltima sílaba, que sofre o alongamento, é a sílaba limítrofe para os processos tonais descritos, isto é, os processos de transposição, duplicação ou espraiamento tonal não vão além da penúltima sílaba do complexo verbal. A penúltima sílaba também recebe os tons de contorno da língua.

115 Por sua vez, os tempos verbais conjuntivos não apresentam alongamento pós-lexical de penúltima sílaba no radical verbal. Como a penúltima sílaba que recebe alongamento é do item lexical posterior ao verbo, o tom atribuído pelo tempo verbal conjuntivo interage com os tons subjacentes deste item lexical posterior. Retomemos aqui os cinco tempos verbais alternantes conjuntivos e disjuntivos de acordo com Leach (2010, p.158-159) a título de comparação, dispostos na tabela 2 na introdução desta tese (repetida a seguir). Os alongamentos de penúltima sílaba estão negritados:

TABELA 2:TEMPOS VERBAIS CONJUNTIVOS E DISJUNTIVOS NO SHIMAKONDE.

TEMPOS VERBAIS DISJUNTIVOS TEMPOS VERBAIS CONJUNTIVOS

PAS. REC.

va-ndi-táleék-a| ugwaáli.|

N2-PERF-cozinhar-VF N14.shima

“Eles têm cozinhado shima.”

va-talek-e_ úgwááli.|

N2-cozinhar-PERF N14.shima

“Eles têm cozinhado shima.” FUT. va-nda-táleék-a| ugwaáli.|

N2-FUT-cozinhar-VF N14.shima

“Eles cozinharão shima.”

vá-lótá_ kú-tálék-á_ úgwááli.|

N2-ir-VF N15-cozinhar-VF N14.shima

“Eles irão cozinhar shima.” PAS.

REM

.

vá-ndí-taléék-a| ugwaáli.|

N2-PERF-cozinhar-VF N14.shima

“Eles cozinharam shima.”

vá-tálék-é_ úgwááli.|

N2-cozinhar-PERF N14.shima

“Eles cozinharam shima.” PRE.

HAB

.

vá-ndá-taléék-a| ugwaáli.|

N2-PRES-cozinhar-VF N14.shima

“Eles cozinham shima.”

vá-tálék-á_ úgwááli.|

N2-cozinhar-VF N14.shima

“Eles cozinham shima.” PAS.

IMP.

vá-shíndá-taléék-a| ugwaáli.|

N2-IMP-cozinhar-VF N14.shima

“Eles cozinhavam shima.”

vá-shí-tálék-á_ úgwááli.|

N2-cozinhar-VF N14.shima

“Eles cozinhavam shima.”

FONTE: ADAPTADO DE LEACH, 2010, P.158-159.

Em relação ao tempo verbal passado perfeito recente conjuntivo Leach (2010, p. 293) afirma que “nesta construção o tom alto é transposto da sílaba final do radical verbal para a primeira sílaba de qualquer complemento que

116 carrega consigo tom alto. (...) O tom alto transposto então se espraia adiante até o próximo tom alto pelo Princípio Platô”49. Em nota de rodapé, Leach (2010, p.

293, adaptado) utiliza os seguintes exemplos para demonstrar este processo: (23a) a-shum-ile dín-gúlúúve (conf.: dinguluúve)

S3S-comprar-PERF N10-porco

“Ele comprou porcos”

(23b) a-shum-ile shí-túngúulo (conf.: shitungúulo)

S3S-comprar-PERF N7-cebola

“Ele comprou a cebola”

(23c) a-shum-ile lí-maanga (conf.: límaanga)

S3S-comprar-PERF N7-abóbora

“Ele comprou a abóbora”

Nos exemplos (23a-c) todos os tons baixos foram substituídos por tons altos no radical nominal até a mora anterior ao primeiro tom alto do mesmo (compare com as formas subjacentes dos radicais nominais isolados entre parênteses.). Pode se assumir que estes tons altos ocorrem por espraiamento de um tom alto flutuante que vem do complexo verbal50. Em (23a) esta mora é a primeira mora da penúltima sílaba. Este processo faz com que o tom de contorno crescente (µµ́) mude para alto nivelado (µ́µ́) neste contexto. Em (23b), o primeiro tom alto do radical nominal ocorre na primeira mora da penúltima

49 Do original: “In this construction High tone shifts from the final syllable of the verb stem to

the first syllable of any complement that itself carries High Tone. (…) the shifted-High then bridges forward to the next High tone by the Plateau Principle. (LEACH, 2010, p. 293)

50 Todavia, Manus (2017, p. 246-247) aponta que este espraiamento de tom alto entre verbo

conjuntivo e XP adjacente não ocorre se este item for um pronome ou advérbio. Desta forma, este fenômeno também é sensível à natureza gramatical do item lexical pós-verbal.

117 sílaba, formando o tom de contorno decrescente (µ́µ). Desta forma, apenas as moras das sílabas anteriores à penúltima terão o tom baixo modificado para tom alto. Já em (23c) não há mudança tonal no radical nominal, uma vez que o tom alto na primeira sílaba bloqueia o espraiamento de tom. Veja as representações formais a seguir:

(24a) PASSADO PERFEITO RECENTE CONJUNTIVO

(24b) PASSADO PERFEITO RECENTE CONJUNTIVO

(24c) PASSADO PERFEITO RECENTE CONJUNTIVO

Em (24a) o tom alto flutuante é atribuído em todas as moras em tom baixo anteriores a mora em tom alto da penúltima sílaba. Diferentemente do padrão de espraiamento de tom dos tempos disjuntivos o qual ocorre somente até a antepenúltima sílaba do radical verbal, repare que o espraiamento neste tempo verbal conjuntivo pode ocorrer até à penúltima sílaba do item lexical

118 contíguo. Dinguluúve apresenta tom de contorno crescente (µµ́) quando ocorre isolado. Todavia, este substantivo se realiza como díngúlúúve, isto é, com tom de contorno alto nivelado (µ́µ́) quando segue um verbo em forma conjuntiva. O espraiamento vai até a antepenúltima silába em (24b), pois o tom alto se encontra na primeira mora da penúltima sílaba. Já em (24c) o tom alto flutuante não pode ser atribuído à raiz lexical contígua por haver um tom alto na primeira sílaba desta de tal forma que o tom alto flutuante não pode se deslocar até os demais tons baixos do complemento verbal. Os demais tempos conjuntivos se diferem do tempo passado perfeito recente por apresentar tom alto em todas as sílabas complexo morfológico do verbo:

(25a) PASSADO PERFEITO REMOTO CONJUNTIVO

(25b) PASSADO PERFEITO REMOTO CONJUNTIVO

Note que, atendidas as condições ideais, o tom flutuante se espraia para o complemento verbal conforme (25b). Tal paradigma se repete nos demais tempos conjuntivos, conforme tabela 12 abaixo.

119

TABELA 12:DISTRIBUIÇÃO TONAL DE TEMPOS CONJUNTIVOS.

PASSADO PERFEITO RECENTE va-jambud-ile N2-farejar-PERF “Eles farejaram my-uuku N4-bolso bolsos.”

(forma subjacente: myuuku)

lí-maanga

N5-abóbora

abóbora.”

(forma subjacente: límaanga)

shí-túngúulo

N5-cebola

cebola.”

(forma subjacente: shitungúulo)

dín-gúlúúve

N10-porco

porcos.”

(forma subjacente: dinguluúve) PASSADO

PERFEITO REMOTO

vá-jámbúd-ílé

N2-farejar-PERF

“Eles tinham farejado PRESENTE HABITUAL vá-jámbúl-á N2-farejar-VF “Eles farejam PASSADO IMPERFEITO vá-shí-jámbúl-á N2-IMP-farejar-VF “Eles farejavam FUTURO vá-lót-á kú-jámbúl-á N2-ir-VF N15-farejar-VF

“Eles irão farejar

FONTE:ELABORADO PELO AUTOR.

Os demais tempos verbais conjuntivos (presente, futuro e passado imperfeito) têm configuração tonal similar ao tempo passado perfeito remoto, note que todos os tons no complexo verbal se realizam em tom alto. Podemos assumir, tomando como base os processos já vistos, que nestes tempos verbais é atribuído um tom alto ao prefixo de sujeito e este tom alto é prontamente duplicado se houver um prefixo de tempo posterior, além disso, ocorre inserção de tom alto no início do radical verbal que pode se espraiar ao menos até a

120 vogal final do radical, ou avançar para o XP adjacente, de acordo com as condições formalizadas em (25b).

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