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CAPÍTULO I DA CRISE PLANETÁRIA ÀS VICISSITUDES DO LOCAL

1.3. Ecodesenvolvimento e desenvolvimento sustentável

Já se passaram mais de 30 anos desde as primeiras discussões sobre a relação entre meio ambiente e desenvolvimento, durante as reuniões preparatórias para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente Humano, realizada na cidade de Estocolmo em 1972. Essas discussões refletiam uma tomada de consciência dos riscos envolvidos na degradação crescente das bases biofísicas de sobrevivência da humanidade, em decorrência da dinâmica produtivista de apropriação da natureza e da consolidação da ideologia do crescimento econômico ilimitado.

Ao término dessa Conferência foram estabelecidos vários princípios norteadores de uma nova atitude face à finitude do patrimônio natural, dando início assim ao debate sobre alternativas

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de desenvolvimento. O termo ecodesenvolvimentoemergiu neste contexto (Sachs, 1993). No entanto, quase duas décadas mais tarde, durante os preparativos para a Cúpula da Terra, a disseminação do conceito de desenvolvimento sustentável acabou gerando uma controvérsia conceitual e ideológica que perdura até hoje (WCED, 1987).

Diversos estudos foram realizados desde Estocolmo, não somente para aprofundar o conhecimento sobre o funcionamento da biosfera, mas também sobre outras formas de gerenciamento do meio ambiente, incluindo-se nisso o fenômeno do fortalecimento progressivo da sociedade civil como um terceiro sistema de poder – voltado para a construção da governança ao lado do Estado e do setor econômico (Sachs, op. cit).

Nesse período, a percepção da crise ambiental planetária e a produção de conhecimento teórico e prático sobre o tema cresceram vertiginosamente, como nunca antes em toda a história da humanidade. Muitas ações voltadas à conservação ambiental foram realizadas, e diversos tratados e convenções foram assinados. Hoje em dia, dificilmente alguém em sã consciência concebe a idéia de ser anti-ambientalista. No entanto, apesar deste aparente consenso, há muito a ser feito e, sobretudo, a ser cumprido nesta área. Continuamos a lidar com a degradação socioambiental como se ela fosse apenas uma crise passageira, que pode ser tratada de maneira fragmentada e superficial, sem questionar seus condicionantes estruturais e ideológicos.

Por sua vez, no texto do Relatório Brundtland (WCED, 1987), o conceito de desenvolvimento

sustentável é definido como um processo de mudança no qual a exploração dos recursos, a orientação dos investimentos, os rumos do desenvolvimento tecnológico e a mudança

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institucional estão de acordo com as necessidades atuais e futuras. É interessante observar

que este conceito acabou sendo introduzido no debate político para servir, sobretudo, como um instrumento de negociações na esfera diplomática. O objetivo era criar uma perspectiva de aparente consenso e evitar a agudização de conflitos, seja no âmbito geopolítico, ou no âmbito de cada Estado-Nação. Mesmo que, em princípio, ele reflita a preocupação com as dinâmicas de apropriação dos recursos naturais de uso comum, de desenvolvimento tecnológico e de mudança social, deixa dúvidas sobre quem definiria os parâmetros valorativos e políticos capazes de nortear na prática esse processo e sobre qual seria a visão de mundo subjacente (Almeida, 1997).

Ou seja, esta nova conceituação não especifica adequadamente os critérios de sustentabilidade e sua aplicação, até o momento, tem gerado estratégias meramente “cosméticas” de enfrentamento da complexidade embutida no agravamento da crise socioambiental contemporânea. Em nome de uma suposta racionalidade ambiental, continuam prevalecendo como eixos norteadores das trajetórias de desenvolvimento a eficiência econômica medida em termos micro-empresariais, os índices agregados de crescimento material, o produtivismo vinculado à acumulação de capital e a inovação tecnológica insensível à reflexão sobre riscos socioambientais de longo prazo.

As diferenças estruturais entre as nações do Hemisfério Norte e do Hemisfério Sul são abismais. Os níveis de consumo dos países industrializados, além de serem insustentáveis no longo prazo, jamais poderiam ser estendidos a todo o planeta (Sachs, 1986). Por outro lado, os termos de troca e os custos que o protecionismo dos países industrializados impõe aos produtos dos países em desenvolvimento, somados ao repasse pelos serviços da dívida

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externa, ocasionam um distanciamento cada vez maior entre as nações, tornando os países do Hemisfério Sul reféns destas desigualdades.

Nessas condições, e embora reconhecendo a ligação entre meio ambiente e desenvolvimento, não é de se estranhar que os Estados-Nação tenham pontos de vista distintos em relação ao tema. Por esta razão os diálogos são diferentes. Enquanto o Hemisfério Norte insiste no problema dos riscos ambientais globais e na necessidade de uma responsabilidade compartilhada, o Sul prioriza a pauta do desenvolvimento. Denuncia a persistência de uma relação de troca desigual justificada em termos de contenção de riscos socioambientais. Desde este ponto de vista, os países pobres não podem aceitar compartilhar igualitariamente este ônus. Eles não serão capazes e nem terão interesse em unir esforços com os países desenvolvidos se não houver maior justiça econômica e social para os primeiros (Sachs, op.cit:).

Por outro lado, em contraste com os riscos de distorção da crítica à ideologia materialista- consumista embutidos na apropriação “perversa” do ideário do desenvolvimento sustentável, a proposta de ecodesenvolvimento exprime uma “idéia-força” capaz de direcionar, de forma criativa, “iniciativas de dinamização econômica sensíveis ao fenômeno da degradação do meio ambiente e da marginalização social, cultural e política” (Vieira, 1995:54-55).

A concepção de ecodesenvolvimento foi pensada inicialmente como uma estratégia de enfrentamento dos desafios suscitados pela situação característica das zonas rurais dos países em desenvolvimento. Com viés essencialmente antitecnocrático, preconizava uma gestão ao mesmo tempo integrada e participativa dos ecossistemas locais – de baixo para cima –

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incluindo-se nisso a valorização do saber local e da criatividade endógena das comunidades locais, integrando assim a promoção do crescimento socioeconômico e a preservação do uso ecologicamente sustentado dos recursos naturais e das paisagens.

Essa versão inicial do conceito foi reelaborada por Ignacy Sachs (1974) e estendida à realidade das áreas urbanas. Nesta nova versão, a noção de ecodesenvolvimento designa, num primeiro momento, um estilo de desenvolvimento que se centra na busca da satisfação das necessidades fundamentais e na promoção da autonomia (ou self-reliance) das populações envolvidas no processo, opondo-se à diretriz mimético-dependente tradicionalmente incorporada pelos países do Hemisfério Sul. Neste contexto, a integração da questão socioambiental não é vista como uma restrição dos espaços de manobra no campo do planejamento do desenvolvimento, mas como um potencial de recursos disponíveis em cada contexto ecológico e social, que deve ser identificado e valorizado por meio de pesquisas inter e transdisciplinares realizadas em conjunto com as populações locais. Num segundo momento, o termo ecodesenvolvimento também designa “um enfoque participativo de planejamento e gestão de estratégias plurais de intervenção, adaptadas a contextos socioambientais específicos” (Vieira, op. cit:54-55).

O enfoque assim caracterizado pressupõe a instituição de um novo sistema de planejamento e gestão – descentralizado, participativo e pensado como um espaço de aprendizagem social permanente, num horizonte de co-gestão responsável dos recursos naturais e culturais (Vieira, 2003). Neste sentido, ele subordina a economia às finalidades humanas e à necessidade de conservar a resiliência dos ecossistemas num horizonte de longo prazo, contrastando assim com a unidimensionalidade dos modelos dominantes no cenário de globalização neoliberal.

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Desta maneira, ganham destaque as estratégias de desenvolvimento construídas por atores locais e que procuram valorizar as especificidades de uma dada região. A noção de desenvolvimento territorial passa a ocupar a agenda das instituições especializadas em promover o desenvolvimento e, também, de grupos de pesquisa.

1.4. Desenvolvimento Territorial e Desenvolvimento Territorial