4. Os desafios actuais para a gestão e conservação da biodiversidade: de cenários globais à Ria
4.4 A Ria de Aveiro
4.4.2 Ecologia e Biodiversidade
A Ria de Aveiro é uma importante e extensa zona húmida. Trata-se de um sistema lagunar complexo, constituído por uma rede principal de canais de maré permanentemente ligados e por uma zona terminal de esteiros com canais estreitos e de baixas profundidades. A ligação ao mar faz-se através de uma barra existente no cordão litoral.
Destaca-se a existência de extensas áreas de sapal, salinas, áreas significativas de caniço e importantes áreas de bocage, associadas a áreas agrícolas, onde se incluem as abrangidas pelo Aproveitamento Hidro-Agrícola do Vouga (INAG, 2004).
Os campos de plantas vasculares submersas, como Zostera marina e Zostera noltii, são especialmente importantes.
Na Ria de Aveiro, as macroalgas dominantes pertencem aos géneros Ulva, Enteromorpha e Fucus. Destacam-se ainda os representantes dos géneros Chara e as espécies que fazem parte integrante do moliço.
Conhecem-se cerca de 50 espécies e cerca de 129 taxa diferentes de macroinvertebrados bentónicos no estuário do Minho e na Ria de Aveiro.
Estão também assinaladas 57 espécies ictícas, sendo que 70% da abundância deste grupo é devida apenas a Atherina boyeri, Atherina presbyter, Liza aurata, Liza ramada, Dicentrarchus labrax e Anguilla anguilla.
Estas áreas apresentam-se como importantes locais de alimentação e reprodução para diversas espécies de aves, sendo que a área alberga regularmente mais de 20.000 aves aquáticas e um total de cerca de 173 espécies, com particular destaque para o elevado número de aves limícolas.
De notar que a ZPE suporta, regularmente, mais do que 1% da população biogeográfica de Alfaiate (Recurvirostra avosetta), de Negrola (Melanitta nigra), de Borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula) e de Borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus), e alberga ainda concentrações significativas de espécies de importância comunitária. Refere-se ainda a importância da Ria de Aveiro para várias espécies de passeriformes migradores (ICN, 2006).
Tabela 10 ESPÉCIES ALVO DE ORIENTAÇÕES DE GESTÃO – Aves do Anexo I da Directiva 79/409/CEE e Migradoras não incluídas no Anexo I. – Fonte: ICN, 2006
Tabelas 11 e 12 Outras Aves do Anexo I da Directiva 79/409/CEE e Migradoras não incluídas no Anexo I.
Segue-se uma descrição dos biótopos presentes na Zona de Protecção Especial da Ria de Aveiro, segundo a classificação dos biótopos CORINE. Também se indicam as respectivas qualidades e fragilidades de cada um deles. No capítulo 7, são usados os biótopos pela denominação genérica, e não a toponímia específica de cada local.
Assim, com base no determinado pelos biótopos CORINE, os biótopos são os seguintes (BORREGO et al, 1994):
- Ria de Aveiro (C12100019)
Características – Laguna costeira de grandes dimensões compreendendo rios e estuários sujeitos a marés, bancos de areia e de vasa, sapais salgados, salinas, praias e dunas de areia, lagoas de água estagnada, salobra e doce, vegetação ribeirinha, matos ibero-atlânticos, pastagens seminaturais húmidas, pinhais e plantações de Pinus pinaster e áreas agrícolas com pastagens artificiais, culturas arvenses (arrozais) e plantações de choupos e outras espécies exóticas.
Qualidades – Zona húmida extraordinariamente importante (uma das três mais importantes zonas húmidas do país), em termos de aves aquáticas. Importantíssimo local de passagem e invernada de Limícolas, Anatídeos e também Larirleos e Sternídeos. Zona de elevada produtividade biológica, que possui formações vegetais de assinalável interesse, destacando-se as comunidades Pralofíticas dos sapais e as pamófitas do cordão arenoso litoral.
Vulnerabilidades – A poluição química (indústria pesada na periferia da Ria), os óleos de drenagem e polderização, bem como as infra-estruturas portuárias e o projectado dique Aveiro-Estarreja constituem as principais ameaças à integridade da área.
- Aguieira/Tijosa (C12100020)
Características – Sapal salgado com algumas lagoas salobras e pastagem sazonal.
Qualidades – Importante local de passagem e invernagem de Limícolas, Anatídeos e outras aves aquáticas (Sternidae e Laridae).
Vulnerabilidades – Existem planos para secar a área, de forma a aumentar a área agrícola.
- Merijil/Marinha do Salgueiro (C12100021)
Características Sapal salgado com lagoas salobras e salgadas.
Qualidades Importante local de passagem e invernagem de Limícolas, Anatídeos e Larídeos.
Vulnerabilidades – Existe um projecto de enxugo da área para aumentar a zona agrícola.
- Largo do Laranjo (C12100022)
Características Lagoa salgada, sapal salgado e troço de rio sujeito a marés. Qualidades Importante local de passagem de aves migratórias aquáticas. Vulnerabilidades Projecto de polderização e construção de um dique.
- Ilha da Pedra (C12100023)
Características – Sapal salgado, lagoas salobras, lagoas doces e um mosaico harmonioso de pastagens com sebes de compartimentação e bases de choupos.
Qualidade Importante local de criação e passagem de aves migratórias aquáticas e passariformes.
Vulnerabilidades – Existe um projecto de enxugo para aumentar a área agrícola.
- Ilha do Parrachil (C12100024)
Características Bancos de vasa e areia, sapal salgado, lagoas salobras, pastagens semi- naturais húmidas e culturas arvenses.
Qualidade – Importante local para passagem de aves migratórias aquáticas. Vulnerabilidades – Existe um projecto de enxugo para aumentar a área agrícola.
- Ilhas do Amoroso, dos Ovos e da Gaivota (C12100025)
Características – Bancos de vasa e areia, sapal salgado, lagoas salobras, juncais e caniçais. Qualidades – Importante local de passagem e criação para aves migratórias aquáticas. Interessante do ponto de vista florístico (comunidades halofíticas e sapal).
Vulnerabilidades – Existem planos de drenagem e enxugo parcial a fim de aumentar a área agrícola.
- Esteiro Grande (C12100026)
Características Sapal salgado, lagoas salobras e doces, juncais e caniçais, plantações de choupos e sebes de compartimentação.
Qualidades Importante local de passagem de aves migratórias e passeriformes e área de alimentação da águia pesqueira e outras rapinas.
Vulnerabilidades Existem planos de drenagem da área para o aumento da superfície agrícola.
- Longa (C12100027)
Características – Sapal salgado, lagoas salobras e doces, juncais e caniçais, plantações de choupos e sebes de compartimentação.
Qualidades – Importante local de passagem de aves migratórias e passeriformes.
Vulnerabilidades – Existem planos de drenagem e enxugo da área para aumento da superfície agrícola.
- Ilha da Pereira (C12100028)
Características – Sapal salgado, lagoas salobras, juncais e caniçais e bosquetes de choupos.
Qualidades – Importante local de criação e passagem de aves migratórias aquáticas passeriformes.
Vulnerabilidades – Existem planos de enxugo da área para o aumento da superfície agrícola.
- Costa Nova (C12100029)
Características Praias e dunas de areia, matos ibro-atlânticos, lagunas com bancos de vasa e areia, sapal salgado, vegetação ribeirinha e áreas agrícolas com culturas arvenses de regadio.
Qualidades Local de grande interesse botânico e geomorfológico, para além de constituir também um importante local de passagem e criação de aves migratórias aquáticas.
Vulnerabilidades As pressões turísticas, no cordão dunar e agrícola, na margem e interior da laguna, constituem as principais ameaças à integridade da área.
- Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto (C12100011)
Características Zona costeira composta por praia, dunas móveis e fixas, matos de camarinha, pinhal (Pinus pinaster) e lagoas de água doce com vegetação.
Qualidades Importante cordão de areia litoral bem conservado, constituindo um habitat propício para a fixação de vegetação característica, e local de passagem e invernada para aves aquáticas migratórias. Era, em 1990, a segunda área numericamente mais importante a nível nacional para a invernagem de Anatídeos, logo a seguir ao estuário do Tejo.
Vulnerabilidades Sendo a totalidade da área de propriedade estatal, as principais ameaças resultam da possibilidade de ocorrência de fogos acidentais, da invasão de acácias e outras espécies exóticas no cordão dunar e do excessivo uso da área por visitantes.