• Nenhum resultado encontrado

2.3 O DESENVOLVIMENTO DO SETOR DE SERVIÇOS A PARTIR DE

2.3.1 A Economia do Compartilhamento

O conceito inicial de Economia do Compartilhamento – do inglês sharing

economy – popularizou-se como um movimento social com a bandeira do consumo

sustentável. Ela surge com a ideia de utilizar as novas tecnologias como uma forma de trocas informais de caráter sustentável. Se um motorista está indo sozinho – ou com lugares vagos no carro – para determinado lugar, por que não dar carona para alguém que está indo na mesma direção? Se alguém precisa temporariamente de algum utensílio doméstico, como um aspirador de pó ou um cortador de grama, é possível que alguém desconhecido na vizinhança tenha para emprestar ou disponibilizar por um preço módico. Quando surge a necessidade de trocar um chuveiro ou fazer algum pequeno reparo hidráulico, alguém pelas proximidades pode ter esse conhecimento e estar com tempo livre para ajudar e quem sabe até receber algum retorno financeiro por isso. Segundo Slee:

A Economia do Compartilhamento também promete ser uma alternativa sustentável para o comércio de grande circulação, ajudando-nos a fazer um uso melhor de recursos subutilizados. Por que todo mundo precisa de uma furadeira tomando pó numa prateleira se podemos compartilhar a mesma ferramenta? Podemos comprar menos e diminuir nossa pegada ambiental no planeta. Por que não usar a Uber em vez de comprar um carro? Podemos priorizar o acesso em detrimento da propriedade e nos livrarmos de um consumismo ao qual muitos de nós nos sentimos presos. (SLEE, 2017, p. 23).

Conceitualmente a ideia de compartilhar ao invés de adquirir é uma proposta não apenas de caráter sustentável, mas também uma tentativa de minimizar uma cultura de consumo ilimitada. O desenvolvimento e a utilização de aplicativos para esse tipo de trocas informais foi a base para o surgimento da Economia do Compartilhamento, pois a facilidade e a rapidez de conexão entre os usuários possibilitaram a efetividade dessa prática.

O berço da chamada Economia do Compartilhamento é o Vale do Silício na Califórnia – EUA, onde estão as sedes de empresas como Facebook, Microsoft, Apple e Google. Foi lá que surgiram os primeiros aplicativos utilizados para essa finalidade, embora Airbnb e Uber tenham sido desenvolvidos em São Francisco, também na Califórnia – EUA. Atualmente, o desenvolvimento de aplicativos para esse tipo de atividade vem ganhando espaço em outras nações. O relatório da AppFigures, divulgado pelo site Tudo Celular (2018), aponta os Estados Unidos

como o país que mais desenvolve aplicativos no mundo, com uma fatia do mercado de 33,5% dos apps. Na sequência, o relatório traz China com 15,9% e com percentuais bem menores, Índia – 5,1% e Brasil - 2,7%, ocupando 3º e 4º posição, respectivamente, do total de aplicativos desenvolvidos no mundo em 2018.

Na mesma velocidade com que o setor de tecnologia da informação se desenvolve, o conceito inicial de Economia do Compartilhamento também foi se transformando. Grandes companhias enxergaram nesse modelo de compartilhamento um mercado em potencial para novos negócios, mas mantendo o mantra da Economia do Compartilhamento. O que os trabalhadores dessas companhias perceberam e influenciaram seus dirigentes, foi a possibilidade de ganho na ampliação da escala e abrangência mundial. Ainda segundo Slee:

A paisagem da Economia do Compartilhamento explora que tipo de organizações fazem parte dela, de onde vêm, o que fazem e como foram criadas apresentam pelo menos duas visões: a primeira é ima visão comunitária e cooperativa, com foco em trocas pessoais de pequena escala; a segunda é a ambição disruptiva e planetária de companhias que tem bilhões de dólares para gastar desafiando leis democráticas ao redor do mundo, comprando competidores na busca por ganhar escala, e (no caso da Uber), pesquisando novas tecnologias com o intuito de tornar obsoleta a força dessas leis. (SLEE, 2017, p. 25).

Nessa passagem, Tom Slee (2017) apresenta dois cenários bastante distintos, que, em nossa percepção, não estão colocados em paralelo ou mesmo em disputa. Trata-se, na verdade, de um cenário de transição que se inicia a partir de uma ideia de concepção horizontalizada de conexão de pessoas com pessoas, mas que rapidamente, com o ingresso das grandes companhias nesse setor, coloca essas empresas na coordenação da cadeia dos serviços. Mesmo tendo conexão com muitas outras empresas, elas acabam detendo a esmagadora maioria do mercado.

A companhia Amazon, que inicialmente vendia livros pela internet, em meados de 1994, e hoje é a empresa mais valiosa do mundo, como vimos anteriormente, tornou-se um expoente também da Economia do Compartilhamento. Atualmente a empresa é suporte para inúmeros outros negócios, como é o caso de uma plataforma desenvolvida por seus engenheiros, denominada Mechanical Turk, pertencente à divisão Amazon Web Service. A plataforma disponibiliza uma extensa lista de atividades pontuais que podem ser realizadas pelos usuários nela cadastrados. A lista possui tarefas como revisar um texto, corrigir um questionário,

acessar um site, redigir descrições de produtos, entre muitas outras. Quem realiza satisfatoriamente a atividade proposta, recebe um pagamento pelo serviço prestado, intermediado pela Amazon. Segundo Scholz:

A Amazon se inseriu na economia do compartilhamento por meio de empresas como a Flex, um serviço de entregas baseado na multidão que usa pessoas comuns, e não entregadores treinados, para entregar caixas e pacotes. Ela também lançou o Home Services, que coloca a empresa exatamente no meio quando você precisa de um eletricista ou de um encanador. (SCHOLZ, 2017, p. 41).

As grandes companhias do setor de tecnologia de fato passaram a ocupar a dianteira da chamada Economia do Compartilhamento, subvertendo sua lógica inicial e concentrando cada vez mais os serviços disponibilizados apenas entre as maiores empresas do setor. Somado a uma postura agressiva de mercado, essas companhias investem pesadamente não apenas em pesquisa e desenvolvimento, mas também em marketing. No início de 2019, a Berkshire Hathaway, de Warren Buffet, investiu U$ 3 bilhões na Uber. Em 2016, a Uber havia arrecadado US$ 3,5 bilhões do fundo soberano da Arábia Saudita e em março de 2019, a Revista Forbes11

divulgou matéria sobre negociações entre SoftBank Group e a Toyota para investirem U$ 1 bilhão na companhia.

O sentido etimológico de economia provém do grego ―Oikos‖ que significa Casa e "Nomos", Regra, Norma, Lei, por outras palavras Economia quer dizer "Reger a Casa". Na terminologia de Marx, seria produzir valores de uso para sustentar a comunidade. O conceito de ―economia‖, segundo a Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo12 diz respeito ao ―conjunto de atividades desenvolvidas pelos homens visando à produção, distribuição e consumo de bens e serviços necessários à sobrevivência e à qualidade de vida‖. Na sociedade capitalista, o termo ―economia‖ passou a significar muito mais o estudo das formas de enriquecimento, o que Marx trata como valorização do valor. Se pensarmos em economia em um modo de produção capitalista, agregaremos elementos como: propriedade privada, atividades econômicas por meio do mercado e transações mediadas por dinheiro.

11

Disponível em: https://forbes.uol.com.br/last/2019/03/softbank-e-toyota-negociam-investir-us-1-bi- no-uber/. Acesso em: 20 abr. 2019.

12

Disponível em: https://www.fea.usp.br/economia/graduacao/o-que-e-economia. Acesso em: 20 abr. 2019.

Na economia capitalista, o pressuposto é a acumulação privada, expressão que é o antônimo de ―compartilhar‖. O mercado na economia pré-capitalista e capitalista pressupõe um lugar de troca. Por sua vez, o significado de ―compartilhamento‖ expressa uma partilha ou compartilhar algo com alguém. Portanto, do ponto de vista sintático, a ―Economia do Compartilhamento‖ também apresenta contradições em sua existência.