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2 A CESTA TEÓRICA

2.3 A Economia Plural e as novas possibilidades da Economia Solidária

2.3.4 Economia plural e formação do ethos social

As feiras agroecológicas de Recife representam uma economia plural, pois elas foram organizadas em sua maioria pelo associativismo e pela cooperação entre os empreendimentos solidários e familiares. Instituições de assessoria e assistência técnica, órgãos governamentais e universidades também apoiaram a organização desses espaços. Mas além desses laços solidários envolvidos, as feiras também articulam a esfera mercantil, pois são o principal meio de escoamento de seus produtos e fonte de renda de mais de 150 famílias, sendo que 2/3 comercializam apenas em feiras, as demais têm nos seus próprios sítios, feiras livres, mercados institucionais, atravessadores outras formas de vender seus produtos (ARAÚJO; LIMA; MACAMBIRA, 2015).

O elo dessas relações está num ethos de solidariedade, pois na primeira relação a intenção é a oferta de produtos mais saudáveis e de menor impacto ambiental, oriundos de uma família de empreendimento rural solidário. Os consumidores sentem que não estão pagando por um produto numa relação impessoal, mas que contribuem para essa prática ecológica e solidária de produzir.

Na segunda relação, o ethos solidário pode ser observado na formação de configuração de um espaço de intencionalidade intersubjetiva, pois a feira, como dito antes, é um local de encontro, com uma esfera de prática de uma outra forma de economia, que não utilitária.

A última relação apontada no início dessa subseção ressalta a importância dos componentes da economia solidária, como associativismo e cooperativismo, pois os produtores têm objetivos e interesses comuns e benefício mútuo. Também podemos observar que há um intercâmbio de saberes e ajuda mútua. A autogestão é outro componente observado, pois muitos são os que exercitam as definições de estratégias de gestão no trabalho, produção e comercialização em seus territórios e nas feiras. As relações unidas por um ethos de solidariedade possibilitam alcançar mudanças significativas tanto na obtenção de uma renda maior quanto um trabalho mais humano.

Nosso estudo busca compreender em parte os fatos sociais, mas não busca supor ou propor uma generalização plena. Para Elias (1994a), as redes de indivíduos inspiram importantes modelos que permitam compreender a complexidade da sociedade.

O exemplo da feira e dos atores e produtos que a compõem é um primeiro passo para compreender, num plano microssocial, a complexidade da vida social na qual se manifestam outros tipos de relações que são contraditórias, tensas e conflituosas. A feira é um fluxo contínuo, com mudanças mais rápidas ou mais lentas. Contudo, é difícil percebê-las, pois o que une as pessoas não são os produtos agroecológicos em si.

Feirantes e consumidores no processo de realização da feira, não realizaram um planejamento das interações e trocas simbólicas. Cada um exerce funções para atender outros, ou seja, “um indivíduo para outros indivíduos” (ELIAS, 1994a, p. 23). Logo, esse exemplo da feira e dos seus atores nos mostra que primeiro devemos visualizar as diferentes relações que as partes têm com o todo, pois pensando o todo podemos conhecer as partes individuais.

Quando estas convivem dentro de um mesmo grupo, as pessoas adquirem formações históricas individuais distintas, cada um criando a partir de sua posição na sociedade, uma relação de redes únicas (ELIAS, 1994a). Quando consideramos essa questão para compreender o grau dessas relações em sociedades mais simples e mais complexas, verificamos na primeira que o indivíduo tem menores possibilidades de funções e situações no seu desenvolvimento social, mas numa sociedade maior, essa individualidade aumenta. Isto fica evidente no nosso universo de pesquisa quando observamos comparativamente as condições de vida dos produtores no seu ecossistema doméstico e sua inserção no sistema urbano mais amplo e complexo.

Refletindo sobre o objeto do nosso estudo, percebemos que os agricultores familiares, até meados dos anos 1990, estavam incrustrados em suas propriedades e vivendo da subsistência e da renda da venda de seus produtos em feiras livres na região onde residem e também da venda para atravessadores. De fato, essa é uma realidade que ainda encontramos, pois os produtores familiares agroecológicos são uma parcela pequena frente àqueles que produzem com técnicas convencionais.

Essa situação mostra que já há uma diferença de individualização entre esses dois perfis de agricultores, pois aqueles que estão em feiras agroecológicas, principalmente em regiões metropolitanas – ou seja, fora da sua região de vida e trabalho –, têm maiores possibilidades de individualização, pois sua percepção e interação sobre o mundo se ampliam.

Logo, a forma individual que indivíduo-agricultor assume ao se desenvolver dependerá da estrutura da sociedade em que ele vive. Os produtores agroecológicos ampliaram seu mundo de vida na sociedade, aliando o rural com uma experiência urbana. Ainda que não identifiquemos visivelmente em algumas feiras aspectos de solidariedade, cooperação e dádiva, podemos afirmar que há uma mudança significativa nos valores, nas regras e nos códigos de conduta que apontam para a valorização de proximidade.

O caminho entre o espaço rural e o espaço urbano para o agricultor familiar de base agroecológica implica mais do que os quilômetros de distância e o transporte usados para levar suas mercadorias, galeias e barracas. O exercício de entender o ethos das feiras e dos agricultores-feirantes instiga a necessidade de refletir sobre processos e percepções particulares que cada ator tem sobre esse lugar e sobre como circulam os bens materiais e simbólicos em favor de uma economia solidária. Parte da construção dessas observações e percepções que colocamos aqui é resultado de anos acompanhando as feiras e os produtores em projetos de pesquisa e extensão21.

O habitus dos feirantes é confrontado com uma diversidade de disposições que os leva a se confrontar e se entrelaçar com outro modo de vida, o do consumidor, que também se beneficia das sociabilidades criadas nas feiras. Essa relação entre sociedade e indivíduo não é dicotômica, mas interdependente.

Por fim, entendemos que a organização dessas feiras necessitou dessa hibridização entre economia mercantil (oferta e demanda de produtos, preços e moeda) e um sistema de reciprocidade e solidariedade de acordo com uma lógica da dádiva (POLANYI, 2000; CAILLÉ,

21 Desde a graduação, em Economia na UFPE, o autor desta tese participou da elaboração e execução de projetos

de extensão e pesquisa pelo Núcleo de Economia Solidária (NECSO) sobre agricultura familiar e feiras agroecológicas.

1998). E essas características estão presentes tanto na relação entre produtores-consumidores, quanto consumidores-consumidores e produtores-produtores.