2.1 Comunicação e Educação
2.1.2 Ecossistemas comunicativos
Para Soares (2011, p. 15), Educomunicação é um conceito que “[...] designa um campo de ação emergente na interface entre os tradicionais campos da educação e da comunicação [...]”, sendo definida também por Schaun (2002, p. 79) como “[...] espaço interdiscursivo e mediático da comunicação como produção e veiculação da cultura [...]”.
Assim, é possível delinear a estruturação de um espaço de circulação e de troca de informação e significação, de forma dialógica e democrática, identificando-se com o que Soares (2011, p. 43) denomina de “ecossistemas comunicativos”, ou seja, um espaço interdisciplinar, de troca de ideias e de construção de conhecimento e sentido, numa aproximação/relação mais dialógica e de acolhimento para com os jovens e, nesse mesmo sentido, menos posicionada para o enfrentamento e a autoridade.
Nesse contexto, segundo Soares, (2011), “[...] ecossistemas comunicativos são sistemas abertos e criativos” que promovem a interação entre os grupos sociais, localizados em espaços educativos e estimulados por uma relação dialógica (FREIRE, 2002), que, potencializados pela troca de experiências e inter-relações, contribuem para o desenvolvimento de situações de troca de conhecimento/informação ampliando a capacidade de interpretação dos fenômenos sociais e políticos contemporâneos.
Vale destacar que tais espaços educativos encontram em autores como Martín-Barbero (apud SOARES, 2011, p. 44), que “[...] empregam o conceito de ecossistema comunicativo para designar a nova atmosfera gerada pela presença das tecnologias às quais cada um de nós e a própria educação estaríamos compulsoriamente conectados [...]”, um olhar que mais se aproxima de uma certa relação de interdependência com os – cada vez mais complexos – aparatos tecno-midiáticos, reduzindo a amplitude do conceito de ecossistema comunicativo explicitado por Soares (2011), que o considera como mais isento de uma “certa” cumplicidade com as tecnologias da comunicação e informação:
[...] entende-se que a relação dialógica não é dada pela tecnologia adotada, mais ou menos amigável, mas essencialmente pela opção por um tipo de convívio humano. Trata-se de uma decisão ético-político-pedagógica, que necessita, naturalmente, ser cincundada pela definição de tecnologias de auxílio. (SOARES, 2011, p. 45).
Soares acrescenta ainda que:
[...] todas as formas de relacionamento com regras determinadas e rigorosamente seguidas acabam por conformar um tipo definido de ecossistema comunicativo. A
educomunicação, como uma maneira própria de relacionamento, faz sua opção pela construção de modalidades abertas e criativas de relacionamento, contribuindo, dessa maneira, para que as normas que regem o convívio passem a reconhecer a legitimidade do diálogo como metodologia de ensino, aprendizagem e convivência. (SOARES, 2011, p. 46).
Conforma-se, assim, a percepção pela qual esses ambientes se desenvolvem sem que haja necessariamente conexão com as novas tecnologias – intensamente presentes nas relações das pessoas na sociedade atual –, as quais se constituem de forma a harmonizar-se em espaços onde existam as condições que favoreçam a constituição/construção dialógica do conhecimento e a disposição à democracia. Soares argumenta que:
[...] como no meio geofísico-biológico – também no meio social existem sistemas áridos e fechados de intersecções, tanto quanto sistemas ricos e intensos de expressão vital. No caso, pessoas em relação, na família, numa escola, num centro de cultura, ou mesmo no espaço cibernético, se deparam como modelos de ecossistemas, convivendo a partir de regras que se estabelecem conformando determinada cultura comunicativa. (SOARES, 2011, p. 44-45).
Desse modo, entende-se que focar nas novas tecnologias como condição necessária para a existência dos ecossistemas comunicativos é reduzir a amplitude do olhar para um tipo de dependência tecnológica, que a afasta do seu potencial de emancipação, sobretudo com relação às camadas mais empobrecidas, excluídas e colocadas à margem do panorama atual dos medias, obstruindo as prováveis possibilidades de inclusão, e ao empoderamento da informação que permita o discernimento e a compreensão mínima necessária para a produção/construção de um contraponto, com vistas a equilibrar o embate político e social sobre as questões que se referem à educação/informação, entre outras.
Para Citelli:
O problema é de outra ordem e não diz respeito à fantasia evolucionista que, ao apregoar a inevitabilidade (sempre afirmativa) do crescimento tecnológico e da “força” dos meios de comunicação, termina construindo uma grossa camada de fumaça desejosa de obnubilar, quando não de apagar, o festival de mazelas que marca nosso tempo: no chão duro do mundo periférico o que ainda recende com luz e força é a dor e a humilhação dos excluídos. (CITELLI, 2002, p. 138).
Tal fato expõe a realidade em que vivem as muitas populações empobrecidas e que servem ao propósito do capital internacional e da globalização, impossibilitadas, assim, de desempenhar um papel mínimo de protagonismo diante da intensa pressão exercida pelos novos modos de produção/comunicação e de consumo de produtos e serviços simbólicos,
colocando-as cada vez mais à margem das discussões/construções dos contextos políticos e sociais de suas próprias realidades locais, bem como do mundo.
Nesse sentido, Schaun (2002, p. 83) reafirma que: “Retomar o processo educativo como espaço público privilegiado da atualidade é pensar politicamente, é interagir de forma multidisciplinar e multimidiática, buscando nos diversos territórios a superação de dificuldades, o talento e o diferencial cultural das comunidades”.
A Educomunicação como locus interdiscursivo (SCHAUN, 2002) apresenta-se, então, como local de convergência cultural/social transformadora onde trafegam dialogicamente, em sintonia, novos significados e sentidos, novas perspectivas de entendimentos dos fenômenos políticos e sociais, produzindo, segundo Schaun:
[...] cadeias semióticas que se apresentam transversalmente como imagens e formas de atuar com e para a comunicação no contexto da educação e da cultura, que podemos denominar de fluxos comunicacionais, que vão ecoar diante das singularidades de grupos, comunidades e indivíduos, propiciando o surgimento das articulações comunicativas peculiares. (SCHAUN, 2002, p. 22).
Isso indica, nesse contexto, a existência/surgimento de condições que favorecem o desenvolvimento de novas estruturas comunicacionais, em que se possam discutir questões de interesse sejam no âmbito da família, da comunidade ou dos ambientes escolares.
Desse modo, Soares (2011, p. 46) acrescenta ainda que: “O conceito de ecossistema comunicativo paira, portanto, como uma meta conceitual e prática, iluminando as ações que vão sendo planejadas e revistas, envolvendo todo o cotidiano escolar”.