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2.2 Sistemas sociais e ecossistemas

2.2.2 Ecossistemas

A abordagem dos ecossistemas é uma metáfora que tem sido utilizada na literatura em teoria organizacional com aplicabilidade prática desde meados da década de 90 por Moore (1993) e, a partir disso, a utilização do termo tem se amplificado. Especialmente nos últimos anos, é aplicada nas mais diversas áreas e âmbitos científicos (TEECE, 2007; ADNER; KAPOOR, 2010; THOMAS; AUTIO, 2012; AUTIO, THOMAS, 2014; AUDY; PIQUÉ, 2016; ADNER, 2017; AUDY, 2017; BODIN, 2017), sempre que o estudo envolver uma interação entre atores, estrutura e ambiente.

No Quadro 1 são identificados alguns dos principais conceitos encontrados na literatura a partir das publicações de maior relevância sobre a temática desde o surgimento do termo.

Quadro 1 – Lista dos principais conceitos em torno dos ecossistemas

Autor (es) e Ano Definição

MOORE (1993)

Em ecossistemas, as empresas coevoluem capacidades em torno de uma inovação, trabalham cooperativamente e competitivamente para apoiar novos produtos, satisfazer as necessidades dos clientes e, eventualmente, incorporar a próxima rodada de inovações. Os ecossistemas de negócios se desenvolvem em quatro estágios distintos: nascimento, expansão, liderança e autor renovação, se não, morte.

IANSITI; LEVIEN (2004)

O desempenho das empresas deriva de algo que é muito maior do que as próprias empresas: o sucesso de seus respectivos ecossistemas de negócios. Essas redes de fornecedores, distribuidores, empresas terceirizadas, fabricantes de produtos ou serviços relacionados, provedores de tecnologia e uma série de outras organizações afetam e são afetados pela criação e entrega de ofertas próprias de uma empresa. A maioria das empresas hoje habita ecossistemas que se estendem além dos limites de suas próprias indústrias.

ADNER (2006)

Os ecossistemas de inovação são acordos colaborativos através dos quais as empresas combinam suas ofertas individuais em uma solução coerente voltada para o cliente.

LI (2009)

O termo ecossistema de negócios é um conceito emergente e que cada vez mais compõe as estratégia de negócios de uma empresa. Um ecossistema também pode fornecer uma orientação emergente para criar novidade nas operações de negócios.

PIERCE (2009)

Nos ecossistemas de negócios, as mudanças tecnológicas, estratégicas e de produtos que ocorrem em uma empresa, têm implicações generalizadas para o desempenho e a sobrevivência, tanto da empresa, como do ecossistema, isto quer dizer que as ações das empresas centrais no ecossistema de negócios podem ter efeitos generalizados e severos sobre os complementadores. Segundo Pierce (2009), os ecossistemas normalmente giram em torno de empresas centrais que definem uma arquitetura tecnológica, mas também podem ser baseadas em características de marca, geografia ou produto. Fornecedores, clientes e complementadores preenchem nichos de mercado. As mudanças podem ser exógenas, de fontes reguladoras, tecnológicas ou outras. Portanto, a empresa, o cluster e até mesmo o mercado e o ecossistema são cocriados através da ação empreendedora.

ADNER; KAPOOR (2010)

Os ecossistemas tem o intuito de tornar as interdependências mais explícitas, a fim de compreender a coordenação entre os parceiros nas redes de intercâmbio que se caracterizam pela cooperação e competição simultâneas.

KAPOOR; LEE (2013)

As empresas estão inseridas em um ecossistema de negócios de atividades interdependentes realizadas por seus clientes, complementadores e fornecedores. Essas interdependências fundamentam a capacidade das empresas de se apropriarem de retornos de investimentos em novas tecnologias.

WALRAVE et al. (2018)

Um ecossistema de inovação é uma rede de atores interdependentes que combinam recursos e /ou capacidades especializadas e complementares na busca de cocriar e entregar uma proposta de valor abrangente aos usuários finais e, apropriar-se dos ganhos recebidos do processo.

Fonte: Elaboração própria com base em Moore (1993), Iansiti e Levien (2004), Adner (2006), Li (2009), Pierce (2009), Adner e Kapoor (2010), Kapoor e Lee (2013) e Walrave et al. (2018).

O termo “ecossistema” foi cunhado por Moore (1993), e desde então, distintos conceitos vêm acompanhado desse termo. Iansiti e Levien (2004) abordaram a temática acompanhada do termo “negócios”, tratando-os como “ecossistemas de negócios”, ou, “business ecosystem”, e se constitui o termo mais abordado na literatura (IKENAMI, 2016). Posteriormente, Adner (2006) agregou aos ecossistemas o termo “inovação”, como “ecossistemas de inovação” ou “Innovation ecosystem”, ele foi o pinheiro do conceito, o qual possui notoriedade até hoje diante dos demais conceitos (IKENAMI, 2016). A palavra “negócios” ainda está entre os termos mais conciliados aos ecossistemas, mas devido à sua generalidade é um termo que está ficando no passado, dando espaço para as novas referências de ecossistemas, como “innovation”. Os ecossistemas de inovação – “ecosystem of innovation” - seriam uma evolução do que antes era somente um ecossistema de negócios.

O prefixo “eco” faz referência aos aspectos ecológicos, especificamente, à interdependência entre os distintos atores e para a coevolução que os une em conjunto ao longo do tempo (MOORE, 1993). De fato, a analogia do ambiente empresarial aos organismos vivos é válida, uma vez que existe o intercâmbio entre o sistema empresarial e o ambiente quem está inserido, referindo-se a um sistema aberto, o que define linhas lógicas de funcionamento nessa aproximação. E, o termo “sistema”, pela perspectiva da ciência dos sistemas, referindo-se à um conjunto específico de componentes (atores, organizações, entidades) que são interdependentes (RITALA; ALMPANOPOULOU, 2017).

Moore (1993) apresentou a metáfora de ecossistemas extraída de estudos anteriores sobre sistemas biológicos e sociais. Essa metáfora foi utilizada para fazer um paralelo com a biologia e com os ecossistemas naturais, assemelhando o ambiente organizacional ao ambiente biológico. Ao fazer esse paralelo, se propõe correlacioná-lo aos ambientes compostos por intensa sinergia e interação, que em constante transformação, busca a adaptação e a evolução. Segundo o autor, as organizações deveriam ser consideradas não como unidades únicas, mas como parte de um ecossistema de negócios que envolvem outras organizações. Esses ambientes são tipificados pela heterogeneidade que possuem, pela articulação conjunta e flexibilidade, constituindo organismos em contínuo crescimento e desenvolvimento, gerando processos de inovações sistêmicas em larga escala (THOMAS; AUTIO, 2012; AUDY; PIQUÉ, 2016; AUDY, 2017), caracterizando estruturas socioeconômicas complexas (SPIGEL, 2017).

Iansiti e Levien (2004) definiram os ecossistemas de negócios como “redes frouxas” de fornecedores, distribuidores, empresas terceirizadas, fabricantes de produtos ou serviços relacionados, provedores de tecnologia e uma série de outras organizações que afetam e são afetadas pela criação e entrega de ofertas da própria organização. Como uma espécie individual

em um ecossistema biológico, cada membro de um ecossistema de negócios compartilha o destino da rede como um todo, independentemente da força aparente desse membro, sob essa perspectiva, as empresas adotam estratégias que não promovam apenas seus próprios interesses, mas também promovam a saúde geral do seu ecossistema. Conforme os autores, a dinâmica do ecossistemas é criada pelas plataformas, isto é, serviços, ferramentas ou tecnologias que outros membros do ecossistema podem usar para aprimorar seu próprio desempenho.

Adner (2006) ao aprofundar a discussão aos ecossistemas de inovação, definiu-os como os acordos colaborativos através dos quais as empresas combinam suas ofertas individuais em uma solução coerente voltada para o cliente. Segundo o autor, os benefícios desses sistemas, discutidos sob rótulos como liderança de plataforma, estratégias fundamentais, inovação aberta, redes de valor e organizações interconectadas são reais e bem divulgados. A ascensão em torno dos ecossistemas é resultado do crescente interesse e preocupação com a interdependência entre organizações e atividades, juntamente com as concepções de plataformas, coopetição, mercados multilaterais e redes, a noção de ecossistemas aumentou a conscientização e concentrou a atenção em novos modelos e capturas de valor.

Portanto, os ecossistemas de inovação compreendem a estrutura de alinhamento de um conjunto multilateral de parceiros que precisam interagir para que uma proposição de valor focal se materialize (ADNER, 2006), eles referem-se a um agrupamento de organizações heterogêneas que coevoluem capacidades na cocriação de valor (MOORE, 1993; ADNER; KAPOOR, 2010; AUTIO; THOMAS, 2014).