1 PERSPECTIVAS DA EDIÇÃO
1.2 EDIÇÃO E TECNOLOGIA
Quem viveu nos primeiros 30 anos da televisão no Brasil certamente lembra que um dia as imagens eram transmitidas apenas nas cores branco e preto, a qualidade não era das melhores, as cenas pulavam na tela, não tinham grande definição e o som também deixava a desejar. Mesmo depois que as imagens passaram a ser transmitida a cores, a situação tecnológica pouco evoluiu. A partir dos anos 2.000 essa realidade mudou no país. Tanto é que alguns especialistas dizem que a invenção da TV digital é uma das maiores, se não a maior, evolução tecnológica da televisão desde a sua criação. Suplantou a substituição do filme pelo vídeo, a chegada da cor à imagem e o invento do videoteipe.
Segundo Souza e Piveta (2011) a imagem saída de uma TV Digital foi transmitida, pela primeira vez para a TV aberta, nos Estados Unidos. Em dezembro de 1998 os americanos já podiam comprar o aparelho de TV Digital, ou um conversor chamado set-top boxes (um aparelho que, instalado na televisão, permite a conversão do sinal analógico em sinal digital), e desfrutar as novidades trazidas por esta plataforma comunicacional. Cada país tem a opção de adotar o modelo tecnológico que lhe convier e o Brasil preferiu uma junção da técnica desenvolvida por pesquisadores brasileiros da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e da Universidade Federal da Paraíba com o sistema japonês Integrated Services Digital Broadcasting Terrestrial (ISDB-T). Assim, o sistema adotado no país, desde 2007, é o ISDBTB, também denominado SBTVD - Sistema Brasileiro de Televisão Digital. Para entender essa mudança é preciso compreender o padrão de transmissão que reinou absoluto por várias décadas. Toda a produção televisiva em filme e vídeo utilizou uma mesma tecnologia: o sinal analógico. A denominação analógica diz respeito a uma frequência que viaja no espaço através de uma onda eletromagnética, mas que pode sofrer interferência de outras frequências já que a TV analógica forma a imagem e o som de modo contínuo. Por isso é comum imagens com contornos borrados, fantasmas, chuviscos, ruídos, distorções na cor e até
interferências provocadas por outros equipamentos ou veículos ligados que estejam próximos à TV, problemas eliminados com a televisão digital. Ainda falando sobre questões técnicas, é importante ressaltar a forma de transmissão.
Entre os meios de transmissão disponíveis (terrestre, satélite e cabo) a TVD no Brasil adotou o sistema Terrestre - os sinais digitais são transmitidos no ar por ondas de radiofrequência e necessitam de antenas e receptores apropriados para a sua recepção. Segundo os engenheiros de telecomunicações, esse tipo de transmissão permite aproveitar parte da infraestrutura existente. Bom para as cerca de 500 emissoras geradoras de TV e para as dez mil retransmissoras que não precisarão trocar todos os equipamentos para transmitir o sinal digital. A mobilidade é outra característica da TV digital. A capacidade de poder ver televisão através de um mini-televisor, de receptores USB para micros ou de um celular, por exemplo, não é novidade. No sistema analógico isso também era possível. O diferencial é que agora a imagem tem alta qualidade e não sofre qualquer alteração, mesmo quando o aparelho receptor está em movimento – diferentemente do que ocorria com a imagem analógica. (SOUZA e PIVETA, 2011, p. 4) Dentro de muitas emissoras brasileiras foi preciso driblar crises econômicas para não ser ultrapassada pela tecnologia. Quando o desenvolvimento de uma tecnologia altera o equipamento, na maioria das vezes modifica-se também a forma de trabalho. O aparelho utilizado no sistema de edição em vídeo se constituía de duas máquinas de reprodução de vídeo interligadas que ocupavam uma sala de cerca de dois metros quadrados. A chamada ilha de edição, como apontado anteriormente.
A fita bruta, trazida pelas equipes de reportagem, era colocada em uma máquina. A fita de edição, que recebia o áudio do repórter, os trechos selecionados de entrevistas e as imagens escolhidas, ocupava o outro equipamento. Para executar a tarefa de editar havia sempre dois profissionais: o editor que comandava a edição e o editor de imagens que operava essas duas máquinas. No sistema digital a edição toma outra dimensão física. O espaço de trabalho é bem menor, se concentra
em uma tela de computador. Tudo o que o editor precisa está a um mouse de distância. Em muitas empresas o editor de texto passou também a editar as imagens, fazendo as duas funções.
Souza e Piveta (2011) descrevem algumas das dificuldades enfrentadas na adaptação desse novo sistema de edição: No sistema analógico a imagem contava a sequência da história: o que aconteceu primeiro, o que veio depois, como foi a finalização. Era uma espécie de filme que surgia nas telas das ilhas de edição com um simples comando do play que deixava a fita ‘correr’ e apresentava a ordem gravada das cenas. Nos clipes digitais a primeira impressão é de total fragmentação. O editor pode ver o primeiro clipe, pular para uma das últimas cenas, retroceder ao início, ver uma imagem gravada no meio da produção. Ou seja, a lógica, a sequência do material, pode ser alterada. Ao mesmo tempo, se o editor não deixar a imagem ‘correr’ clipe por clipe na ordem em que foram produzidos, ele não terá a noção do todo, como tinha na edição analógica, linear.
Sobre esse processo Canelas (2010) diz que a edição linear de vídeo exige uma maior planificação por parte do editor, na medida em que é mais difícil fazer modificações na versão editada. O trabalho linear significa seguir uma ordem (uma linha) do princípio ao fim. Por seu lado, a edição não-linear de vídeo tenta romper com essa estrutura ao não seguir uma ordem estabelecida.
Desta forma, o editor de vídeo tem a necessidade de visionar o material audiovisual em bruto para poder definir quais os planos que vai utilizar, bem como a ordem que estes terão no produto final. Este aspecto, o do acesso ao material audiovisual em bruto, é uma das grandes diferenças entre os dois sistemas de edição. Concordando com esse pensamento Cromoco e Lage (2001) dizem que a edição não-linear digital tem como características principais a gravação digital e o acesso imediato a cada ponto desejado – a não-linearidade.
Segundo Pereira Jr (2009) a designação edição não linear
digital significa que o projeto de edição e seus componentes, as
imagens, os planos, os movimentos de câmera, os sons podem ser tratados em qualquer ordem e também reordenados facilmente, da mesma forma que manipulamos as palavras em um processador de textos. Com esse procedimento é possível também ter uma visão global e detalhada da matéria que se está montando na tela do computador. Tecnicamente, segundo Souza e Piveta (2011), mudaram-se também os termos:
Quando a equipe de reportagem termina a produção e traz o material de volta para a redação não entrega uma fita e sim um disco, semelhante a um CD. Este disco não é colocado diretamente em uma máquina para ‘rodar’. Ele é ingestado. Significa dizer que ele é deixado nas mãos de um funcionário do departamento de engenharia da emissora; o responsável por disponibilizar toda a produção contida no disco para os computadores da redação. Esta operação demora alguns minutos – tudo depende da quantidade de imagens e de entrevistas contidas nele. Na sequência o editor tem acesso a toda produção e começa a editar o material. Na redação da fita magnética o processo de edição se resumia à edição linear; cada trecho da reportagem precisava ser editado na ordem sequencial. Uma entrevista, por exemplo, não poderia ser inserida na reportagem já editada a não ser que se fizesse uma cópia desta matéria para outra fita até o ponto em que se desejava colocar a entrevista. Depois da nova fala inserida era necessário copiar, para esta mesma fita, o restante da reportagem editada. Nas redações que já estão digitalizadas ou em processo de digitalização a edição é a nãolinear. Tudo é feito diretamente no computador e dá ao editor a possibilidade de inserir qualquer elemento da reportagem em qualquer ponto da matéria e a qualquer momento, sem que para isso precise fazer cópias desta reportagem ou haja perda de qualidade. (SOUZA e PIVETA, 2011, p. 6 e 7) O sistema digital trouxe ao telejornalismo um dinamismo e uma versatilidade nunca antes experimentados. Como o próprio equipamento é mais ágil, já que os computadores têm processadores rápidos e é grande a capacidade de armazenamento de dados, a edição de uma reportagem também passou a ser mais veloz. Outra vantagem deste sistema é que o editor pode ter o auxílio de outros profissionais. No momento em que a produção da equipe de reportagem é ingestada pela engenharia e disponibilizada nos computadores a redação inteira pode ter acesso ao conteúdo do disco em outros computadores.
O fato de vários jornalistas estarem vendo as imagens ao mesmo tempo em que o editor daquela reportagem está editando o
material também diminuem as possibilidades de passar algum erro de informação. E ainda é preciso levar em consideração que dois editores podem trabalhar no mesmo material simultaneamente; um editando do meio para o fim, o outro editando o começo – situação comum nos dias de muita correria dentro de uma redação em que minutos fazem a diferença entre a reportagem ir ou não ao ar.
Os sistemas digitais, segundo Pereira Jr (2009), possibilitam ao editor além de uma flexibilidade de criação no tratamento e na construção de imagens, e de uma economia de tempo e dinheiro, uma integração de materiais procedentes de diferentes meios e formatos (vídeos, fotos, imagens analógicas digitalizadas, imagens e áudios digitais feitos por telespectadores, etc), uma preparação para a convergência digital e a eliminação quase que total da perda de qualidade das imagens (cópias). Ainda segundo o autor usar tecnologia para construir imagens técnicas é uma prática tradicional na edição de telejornais, o novo é que o processo tecnológico é digital, a imagem ao
ser reduzida a uma combinação de algoritmos aumenta
exponencialmente a capacidade de manipulação e põe fim às limitações
de construção da realidade apresentadas pela tecnologia analógica. Nesse sentido é possível afirmar que constrói um real mais real do que a própria realidade, porém sua referência continua sendo o cotidiano, a realidade.
De acordo com Boni (2009) com as novas características da televisão em alta definição e suas enormes telas a imagem televisiva se aproxima daquela característica de dimensionamento mais sensível na perspectiva da percepção. Ou seja, o público tem capacidade de se sentir mais próximo dos fatos em exibição até porque ficam mais visível e perceptivo as texturas, os efeitos de edição, os erros e imperfeições. Um paradoxo com a tela enorme e a alta definição da imagem que, ao mesmo tempo permite “limpar” a produção das imperfeições mas também as escracha. Do ponto de vista da edição, as montagens e efeitos de corte que antes poderiam passar despercebidos nesta nova condição podem aparecer mais ou não. A compreensão desta nova condição através dessas imagens vai depender do “mergulho” do espectador no universo exibido pelos editores, nas imagens de espetáculo apresentadas diante dos olhos.
No próximo tópico, será apresentado alguns apontamentos sobre a produção de um telejornal numa emissora de televisão com vistas a compreender o lugar da edição neste processo.
1.3 DAS ROTINAS DE UM TELEJORNAL AO LUGAR DA