5. FANZINE PUNK NO BRASIL
5.1. FACTOR ZERO
5.1.3. Edição 3 – Número Dois e o fim do Factor Zero
A terceira e última edição é publicada com um intervalo menor do que a diferença entre os dois primeiros lançamentos, também em 1981 (CINTRA, 2014). Definida pelo editor como “quase temática”, o Factor Zero número 2 questionou o fato das mulheres serem minorias tanto nas bandas quanto nas plateias punks em São Paulo44.
A temática está presente a partir da capa, uma colagem com fotos e ilustrações do que Cintra chamou em seu blog de “punketes”. Assim como aconteceu na edição anterior, a capa não traz nenhuma informação sobre o conteúdo da edição. A capa, também como aconteceu nas duas edições anteriores, não apresenta nenhuma informação editorial.
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Disponível em http://factor-zero.blogspot.com.br/2009/10/factor-zero-numero-2.html. Acesso em 30/10/2014.
Seguindo o rumo da segunda edição também, o editorial da último Factor Zero trazia uma visão crítica do editor sobre os caminhos que o movimento Punk paulista estava tomando. Mais uma vez, Cintra fala sobre a anarquia sendo confundida com violência e faz um registro de dentro do movimento do momento que a pacificidade, relatada por Ricardo Alexandre no capítulo dedicado ao Punk nacional em seu livro “Dias de Luta”, dava lugar a brigas entre gangues rivais que frequentavam os festivais.
Em seguida, Cintra introduz a banda “GoGo’s” formada por quatro californianas. O texto segue o mesmo formato das apresentações das outras bandas, é apresentada a formação, breve histórico e informações da discografia. Da mesma forma, nessa sequência, são incluídas na revista as bandas Theatre of Hate (ING), Plasmatics (EUA), Chron Gen (ING), Olho Seco (BRA/SP), Echo & Bunnymen (EUA), Desequilíbrio (BRA/SP), Adolescents (EUA) e Guerrilha-Urbana (BRA/SP).
Figura 5 - Capa e editorial da edição número 2 do Factor Zero Fonte: factor-zero.blogspot.com.br
No artigo sobre o Theatre of Hate pode-se destacar o trecho no qual o editor, sem aviso prévio, interrompe o texto sobre a banda para escrever sobre a última transmissão do programa de rádio de Kid Vinil:
Interrompendo o assunto, acabo de escutar uma má notícia; Kid Vinil já era, estou ouvindo o programa que é o último, é f*. Depois de uma má notícia dessa, eu começo a acreditar que para o Punk subir aqui no Br [sic] vai ser f* (CINTRA, 1981b, pág. 4)
Ele interrompe e retorna ao assunto como e não tivesse oportunidade de discorrer sobre a última transmissão com calma. Cintra chega a fazer um comentário sobre a programação que estava ouvindo interrompendo pela segunda vez o texto,
insinuando uma conversa direta com o leitor, como se ele tentasse transmitir o sentimento do momento que ele comentava sobre os ingleses. Essa passagem é mais um dos muitos exemplos do amadorismo característico e a urgência que ditou o tom de quase toda a produção de fanzines durante o movimento Punk.
O grupo Olho Seco ganha destaque nessa edição por ser a única banda a ter duas páginas inteiras dedicadas a sua história. O espaço dedicado corresponde a proximidade do editor com os músicos e conhecimento profundo de sua história. A banda Olho Seco era formada por integrantes de outras bandas com certo sucesso na cena e com reuniões nos mesmos locais frequentados por Cintra, como a loja de discos que apoia a revista.
No entanto, a grande novidade da terceira edição do Factor Zero ficou reservada para um texto final da edição, em tom de manifesto, que não esteve presente nas duas anteriores. Em mais um discurso sobre o “ser Punk” e sua posição na sociedade. Na visão de Cintra, o Punk é o antissocial, ou seja, contra os padrões estipulados pela sociedade e não no tom de “uma pessoa que não conversa com ninguém” (CINTRA, 1981b, p. 14).
A "sociedade" não aceita o Punk e muitas pessoas têm até medo dos Punks, isto é uma prova de incapacidade, é uma prova de que o mundo não evoluiu porra nenhuma, mas os Punks não podem parar. A nossa luta não é para entráramos nos "padrões sociais ["], mas para mostrar que nem tudo que [é] bom para ele é bom para nós. (Ibidem)
A Factor Zero deixa de ser publicada após a terceira edição. Em seu blog, Cintra explica comenta que deu início a quarta revista, mas não chegou a finalizá-la45. O surgimento de novas fanzines, a falta de capital para investimento e a competição com outros interesses do editor contribuíram para que a revista chegasse ao fim. Assim como no caso da Sniffin’ Glue, Cintra relata ter entendido que já havia cumprido sua missão ao dar oportunidade de outros fanzines surgirem a partir de seu trabalho:
Quando eu vi que a partir do Factor Zero haviam surgido vários outros fanzines (mais bem feitos e engajados) achei que a missão do Factor Zero estava cumprida. Eu era um Punk que não queria ficar preso a nenhum compromisso. (CINTRA, 201446).
Apesar de uma vida breve, o Factor Zero presenciou momentos importantes da cena Punk de São Paulo, incluindo o registro do intercâmbio musical com outros países e que, no caso desse movimento, o Brasil não estava tão atrás do que acontecia em cidades como Nova Iorque e Londres. A revista é importante também ao armazenar o
45 Disponível em http://factor-zero.blogspot.com.br/2009/10/factor-zero-numero-2.html. Acessado em: 30/10/2014
pensamento dos jovens, em contra ponto ao que era publicado nos jornais quando o movimento ganhou força.
Amparados nessa parcela da produção de Cintra, que teve também participação em uma banda da época, pode-se dar partida em estudos sobre os desdobramentos desses primeiros momentos punks no Brasil até culminar na cultura skinhead, talvez sue vertente mais conhecida por que observa a cena de fora.
Como muitos fanzines, o Factor Zero conheceu também um formato digital em 2008. O blog, que leva o mesmo nome do fanzine, buscou continuar o trabalho feito por sua versão de papel na divulgação de bandas punks. Vinte e oito anos depois da publicação da primeira edição, Cintra busca divulgar bandas que foram pouco exploradas pela mídia nessas duas décadas e que representam o movimento tanto quanto os Ramones e o Sex Pistols. Seu propósito é registrado na descrição de sua página na web:
Esta é a versão século XXI do Factor Zero, o primeiro fanzine punk publicado no Brasil. O propósito deste blog é divulgar uma face do Punk Rock pouco conhecida. Respeito muito The Clash, Ramones e Sex Pistols, mas o punk era muito mais (muito mesmo) que estas bandas. O Factor Zero versão eletrônica vai divulgar e contar a história de um Punk Rock que mais influenciou e lançou sementes do que colheu frutos, como foi o próprio fanzine.47
Em seus posts, Cintra demonstra que o apoio dos leitores, tal qual aconteceu quando publicava a revista em papel, foi fundamental para continuar escrevendo e divulgando suas ideias e interesses. E, também como aconteceu com a publicação dos anos 1980, a versão digital não apresenta regularidade nas postagens, com intervalos de mais de um ano entre duas entradas no blog. Apesar de ainda estar disponível para consulta, o blog não é atualizado desde outubro de 2011.