Capítulo 3 Intervenções e apropriações nos anos 1990 e 2000
3.3 Edifício Conde de Sarzedas, a valorização induzida
Situado na rua Conde de Sarzedas, n. 100, o edifício Conde de Sarzedas, também chamado de GADE 9 de Julho, graças à ocupação pe- los desembargadores do direito privado, foi concluído em dezembro de 2006,193 projeto de Ruy Ohtake para a Fundação Carlos Chagas, execu-
tado pela construtora Blokos,194 assim como havia sido o Empire Center
(GADE 23 de Maio). Como foi recuperado aqui, as casas vizinhas ao palacete, que o IGEPAC e depois o DPH viram possibilidade de proteção institucional, foram demolidos entre 2002 e 2003.195 Neste trabalho, o edi-
fício é entendido como agente e representante das iniciativas de valoriza- ção econômica do centro em curso nos anos 1990 e 2000. As análises que seguem − sobre sua forma, a transferência do potencial construtivo (TPC) e sua relação com o palacete − associam-se a essa interpretação.
O urbanismo chamado estratégico, ligado à gestão empresarial das cidades que vem ganhando espaço na era do capital financeiro, tem entre seus pressupostos a natureza pontual de certas intervenções, realizadas e compreendidas como “indutores” da transformação. No caso do patri- mônio cultural, sua reabilitação, entendida como a adequação ao uso para o consumo cultural pelas classes médias, seria uma forma de “contribuir para a criação de uma nova paisagem turística” e, no fundo, de uma nova paisagem social, renovando os usuários e os símbolos associados àquele bem.196 Certos edifícios contemporâneos, especialmente aqueles que apre-
sentam determinadas características projetuais excepcionais, também são incentivados na medida em que se alocam neles expectativas indutoras. Na interpretação do arquiteto Pedro Arantes, estudioso do capital na produ-
193 Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras. Formulário de certificado de conclusão. Doc. n. 2006-55721-00, ligado ao PA-SMUL 2006-0.240.349-5 194 SMHDU. Formulário de alvará de aprovação e execução de reforma. Doc. n. 2003-
09657-00, ligado ao PA-SMUL 2002-0048050-9.
195 Requerimento de certificado de demolição (n. 504400525-1-2). Rqte.: Rubens Murillo Marques. End.: r. Conde de Sarzedas, 62, 70/76/82 e 88. Ligado ao PA-SMUL 2003- 0248896-7.
ção urbana, o interesse nesse tipo de construção, alimentado pelo capital público e por fundos privados, desenvolve-se em função do potencial de atratividade de ganhos especulativos residente na forma da arquitetura, ao que chama de renda da forma.197 “A sofisticação técnica ostensiva, a dife-
renciação das superfícies e a exuberância formal passaram a ser requisitos para constituir imagens arquitetônicas exclusivas, capazes de valorizar os investimentos e, consequentemente, as cidades que os disputam”.198
As arquiteturas de que fala o trabalho de Arantes são aquelas de for- mas geometricamente complexas, materiais extraordinários e tecnológicos, calculadas e construídas por meio de softwares de ponta (paradoxalmente em associação com o mais precário trabalho no canteiro de obras), que custam pelo menos centenas de milhões de dólares. E o efeito atrativo que descreve aproxima-se do “efeito Bilbao” de que fala Hal Foster,199 em refe-
rência ao emblemático projeto de 1997 elaborado por Frank Gehry, o mu- seu Guggenheim Bilbao. O museu, como é sabido, transformou a cidade espanhola em um gigante turístico e de fato conformou seu papel no jogo das disputas pelo capital internacional. As arquiteturas trabalhadas por Arantes remetem, portanto, à obra de arquitetos de renome internacional, que compõem o chamado star system − Jean Nouvel e Rem Koolhaas, por exemplo − e que dão pedigree às construções, maximizando seu potencial em termos da renda da forma. A escala, evidentemente, é distinta quando se trata do edifício Conde de Sarzedas, de Ruy Ohtake, mas parece ser possível traçar com segurança aproximações que evidenciam a união do aspecto formal inovador ao ensejo de valorização do território.
As fachadas são de central importância na interpretação de Arantes, para quem existe uma prevalência das superfícies em relação às estrutu- ras,200 pois aquelas têm maior impacto na concepção do edifício como
imagem, enquanto essas ficam em segundo plano, devendo ser adequadas ao exterior. Essas superfícies seriam privilegiadamente aquelas que repre-
197 ARANTES, Pedro Fiori. Forma, valor e renda na arquitetura contemporânea. ARS (São Paulo), São Paulo, v. 8, n. 16, 2010, p. 86.
198 Ibid., loc. cit.
199 FOSTER, Hal. Design and crime. Londres, Verso, 2002, p. 42. apud ARANTES, op. cit., 2010, p. 95.
sentam a desintegração material ou a aparente impossibilidade de execu- ção ou sustentação, e tenderiam a representações abstratas. “Os edifícios querem desgarrar-se do solo e do trabalho que lhes origina, como balões – daí a constante disposição dos arquitetos mais premiados em levar a arquitetura ao seu grau zero de existência, a pura forma”.201
No GADE 9 de Julho, assim como em outras obras do arquiteto em São Paulo, entre as quais se pode citar o Instituto Tomie Ohtake em Pinheiros e o Hotel Unique no Itaim Bibi, a dimensão imagética e escul- tórica é primordial e determinante dos demais aspectos, como corrobora a reportagem da revista AU sobre o edifício: “para Dulcimar [Matos, en- genheira responsável], um dos elementos que exigiu alto grau de com- plexidade de cálculo foi exatamente a concepção estrutural da laje curva, calculada pela teoria dos elementos finitos por um software que ajudou a modelar a estrutura”.202
A visualidade marcante e inusitada do edifício, de mais de 100 me- tros de altura e recoberto por uma superfície azul espelhada,203 é devedora
do entendimento que o star system, grosso modo, faz sobre o que é uma lin- guagem própria da arquitetura contemporânea. Pode, inclusive, ser enten- dida na chave da desmaterialização de que fala Arantes, na medida em que mimetiza o céu que o rodeia, remetendo à ideia de camuflagem e grau zero da forma, ao mesmo tempo em que fica plenamente evidente, reluzente e destacada. Falando sobre a praça da Sé após a demolição do Palacete Santa Helena (entre outros edifícios que também desapareceram), Ohtake usa um termo que, interpretado no sentido que a reportagem induz, equi- vale ao tipo de construção pelo qual o arquiteto é reconhecido: “acredito que uma construção-símbolo no local, algo provocativo, seria importante para revitalizá-lo”.204 Ainda sobre a requalificação do centro, completa: “é um
processo que não pode ser feito apenas por meio de restauro. Tem de ha- ver construção de prédios contemporâneos”.205 Ficaria, assim, imbricada à
requalificação do centro uma linguagem contemporânea nos termos aqui
201 Ibid., p. 99.
202 SAYEGH, op. cit., 2006, p. 40. 203 Ibid., p. 36.
204 DURAN, op. cit., 2016, p. C7. 205 Ibid., loc. cit.
discutidos. E confirmando que existem expectativas de que esse tipo de edificação seja transformador por meio de processos indutores da trans- formação dos usuários e frequentadores do território, “Ohtake acredita que a região passará por uma mudança de perfil, após a inauguração do pré- dio de sua autoria e da obra do TJ [Tribunal de Justiça]”.206
O partido arquitetônico desse volume excepcional também está relacionado com a implantação do palacete Conde de Sarzedas. A coe- xistência dos dois foi negociada, em mais de um sentido. Primeiro, nego- ciação no processo de tombamento, entre manutenção e demolição do edifício eclético e do restante do conjunto, em função de um projeto novo. Além disso, também há uma negociação simbólica das formas e volumes presentes, que estabelecem uma relação de contraste. Em São Paulo, exis- tem outros exemplos de edifícios contemporâneos de grande porte no mesmo terreno de edificações muito menores, mais antigas e tombadas, como o edifício Parque Cultural Paulista e a Casa das Rosas, na avenida Paulista; o edifício Pátio Victor Malzoni e a casa bandeirista do Itaim Bibi, na avenida Brigadeiro Faria Lima; a residência Dino Bueno e o edifício Porto Seguro, no Campos Elíseos – e isso segue ainda hoje, como no exemplo do palacete Vicente de Azevedo e o Edifício PJM, na esquina da rua padre João Manuel com a alameda Santos ou o palacete que sediou o Instituto de Física Teórica da Universidade de São Paulo e o edifício Pra- ça Pamplona, na rua de mesmo nome.207 Particularmente o exemplo do
Itaim Bibi lembra a situação estudada no TFG: a variação nas versões de implantação do edifício novo no entorno da casa bandeirista (mais antiga que o palacete) revelam um processo de negociação intensivo, e a solução final pretende enquadrar a casa e realçá-la por meio do reflexo do bem no próprio edifício novo, mas, pelo contraste inconciliável entre os dois, sub- juga-a. Neste caso também o edifício tombado foi recomposto de modo a se aproximar da condição inaugural (imagem 3.26).208 Não por acaso, note-
se, os casos apresentados são em zonas de grande interesse imobiliário na cidade, onde as tensões intrínsecas à preservação são mais visíveis. Entre
206 Ibid., loc. cit.
207 Cf. KOTSCHO, Ricardo. Aos 90, casarão do Instituto de Física em SP vira café. Folha de São Paulo. São Paulo, 22 jun. 2019 [online, sem página].
208 MAYUMI, Lia. Resgatar das ruínas: a casa bandeirante do Itaim Bibi. Revista Restauro, n. 0, 2016 [sem página].
os mencionados, apenas o do Campos Elíseos (imagem 3.27) tem uma re- lação de proximidade dos volumes comparável ao da rua Conde de Sarze- das (imagem 3.28), que acirra o confronto visual entre o edifício tombado e o novo. Nenhum dos exemplos conta com uma geometria tão ousada quanto aquela proposta para a Liberdade.
A interpretação dos efeitos dessa proximidade não é consensual. Também existem abordagens que entendem o contraste como algo frutí- fero para a relação entre os edifícios. Essa interpretação encontra consi- derável ressonância nas publicações cibernéticas particulares (como blogs) que serão analisadas adiante, na seção dedicada ao museu que se estabelece no palacete, demonstrando que a apreensão do problema não é unívoca. A reportagem publicada na revista AU sobre o palacete e o edifício Conde de Sarzedas chama-se “Um diálogo mais que possível”, e usa termos como unicidade e equilíbrio para descrever a relação do conjunto.
Foi pelo nascimento da harmonia dessa conversa que o
arquiteto Ruy Ohtake optou em elevar um prédio de aço, concreto e vidro às alturas necessárias, mas não sem antes impor à sua fachada principal um abraço generoso com a
arquitetura eclética do passado. ‘É o diálogo indispensá- vel entre a obra tombada e a obra nova, ambas vivas no momento presente’, explica Ohtake”.209
Estendendo a ideia da negociação, é possível lançar uma hipótese que não foi possível confirmar. O recuo do edifício novo em relação ao li- mite do lote na rua Conde de Sarzedas, de 15m,210 é consonante com a res-
trição imposta para o lote na delimitação da área envoltória. Como foi vis- to, a proposta de área envoltória não logrou ser aprovada pelo Conpresp, mas o GADE 9 de Julho parece manter o recuo aventado pela minuta, o que indicaria um acordo entre as partes. No sentido contrário da negocia- ção, a minuta não estabelecia limite de gabarito para novas construções no lote do palacete, o que pode ter sido uma acomodação das expectativas do projeto corporativo. Cabe lembrar que sem as restrições asseguradas por uma legislação de área envoltória, não há amparo legal que garanta este recuo para edifícios que venham a substituir ou acrescentar-se ao GADE
209 SAYEGH, op. cit., 2006, p. 36.
210 A partir da análise dos documentos iconográficos disponíveis em SAYEGH, op. cit., 2006, p. 38.
9 de Julho no futuro, o que ameaçaria a visibilidade que foi minimamen- te proporcionada, observando-o a partir da praça João Mendes (imagem 3.29).211 Em todo o caso, qualquer projeto no lote do palacete deveria ser
aprovado pelo Conpresp.
A dinâmica interação entre o tombamento e a construção se apro- funda. No começo do processo de tombamento, o edifício que seria construído no lugar do palacete pela Fundação Carlos Chagas guardava muitas semelhanças com o vizinho, o Empire Center, pelo que é possível observar na perspectiva que ilustra a situação proposta em 2001, como foi visto. Em outubro de 2002, uma montagem publicada no jornal apre- senta uma proposta mais próxima ao que existe hoje: fachada curva, espelhada, circundando o palacete.212 Parece óbvio que a diferença entre as
duas versões esteja pautada no dado essencial que representa um outro edifício no terreno. Mas o tombamento também provocou mudanças de outra natureza no desenho da torre corporativa: a possibilidade de um acréscimo de área, acima do previsto pelo zoneamento, por meio da ferramenta da transferência do potencial construtivo previsto na lei da Operação Urbana Centro (OUC).
A comissão da OUC, na sua 45º reunião ordinária realizada em 27/11/2002, ou seja, antes mesmo da resolução de tombamento ser pu- blicada no Diário Oficial,213 aprovou a solicitação da Fundação Carlos
Chagas de remembrar três lotes − o do palacete, o do GADE 23 de Maio e aquele que separava os dois, este último fruto da junção dos lotes onde ficavam as casinhas demolidas214 − e transferir o potencial construtivo re-
lativo ao palacete para uma nova construção no lote resultante.215
211 Lembrando que os lotes lindeiros foram remembrados com o lote do palacete para se construir o edifício GADE 9 de Julho, cuja projeção avança sobre áreas que, antes do tombamento, seriam área envoltória.
212 FUNDAÇÃO [...], op. cit., 2002, p. C1. Optou-se por não reproduzir a imagem, pois é muito pequena e de baixa resolução.
213 O que indica a celeridade do processo, não sua irregularidade.
214 Pelo que foi possível compreender do confronto entre os documentos pesquisados no portal De Olho na Obra e na publicação do processo no Diário Oficial.
215 SÃO PAULO (cidade). Empresa Municipal de Urbanização (Emurb). Diário Oficial do Município. São Paulo, ano 47, n. 239, 17 dez. 2002, p. 39.
Imagem 3.26 Edifício Pátio Malzoni com a casa bandeirista do Itaim Bibi, recons- truída, sob o vão. É possível ver seu reflexo no edifício contemporâneo. Fonte: BOTTI Rubin Arquitetos: Edifício Pátio Victor Malzoni, São Paulo. Revista Projeto,
01 maio 2012. [online, sem página]. Disponível em: <https://revistaprojeto.com. br/acervo/botti-rubin-arquitetos-edificio-patio-victor-malzoni-sao-paulo/>.
Imagem 3.27 Edifício da Porto Seguro e as casas da família de Dino Bueno res- tauradas no processo da construção, 1991. Autor da foto: Nelson Kon. Fonte: BASTOS, Maria Alice Junqueira. Campos Elíseos e a Porto Seguro, 2018 [online].
Disponível em: <https://www.oespacopublico.com.br/2018/08/13/campos-e- liseos-e-a-porto-seguro/>.
Imagem 3.28 Detalhe da proximidade entre o palacete Conde de Sarzedas e o edifício corporativo homônimo, 2019. Foto do autor.
Imagem 3.29 Vista do palacete e dos edifícios de Ruy Ohtake (GADEs 9 de Ju- lho, ao redor do palacete, e 23 de Maio, vizinho) a partir da praça João Mendes. 2019. Foto do autor.
O lote remembrado perfazia 4.835,4m² e o zoneamento determi- nava para ele um coeficiente de aproveitamento igual a 4, o que significa que poderiam ser edificados até 19.341,6m². Considerando que já havia 10.386,88m² construídos − entende-se, o palacete e o GADE 23 de Maio, inferindo que no outro lote as edificações estavam completamente demo- lidas, já que a publicação no Diário Oficial não especifica as pré-existên- cias −, o edifício novo poderia ter até 8.954,72m² de áreas computáveis. De acordo com o artigo 7º da OUC, como foi visto na introdução deste capítulo, o imóvel tombado, cedente, poderia transferir o equivalente a 12 vezes a área do terreno, subtraída área edificada do bem protegido. Tendo o lote do palacete (sozinho, antes do remembramento) 1.638m² e a construção 629m², foram calculados como passíveis de transferência 19.027m² para o novo lote, o que significaria que o edifício novo poderia ter 27.981,72m² de áreas computáveis. Mas a SEMPLA (Secretaria Muni- cipal de Planejamento)/CNLU (Comissão Normativa da Legislação Urba- nística) determinou que o coeficiente de aproveitamento máximo para os três lotes no seu conjunto seria igual a 6, o que limitou área máxima com- putável para o edifício novo a 18.625,52 m², ou seja, 9.670,80m² seriam adquiridos como exceção por meio da transferência de potencial constru- tivo − representando um aumento de mais de 100% sobre a possibilidade estabelecida pelo zoneamento.216 A contrapartida financeira envolvida na
TPC geralmente é paga pelo imóvel receptor ao imóvel cedente. Como nesse caso os dois eram a Fundação Carlos Chagas, ficou estipulado que os R$ 1.834.284,80 (um milhão, oitocentos e trinta e quatro mil, duzentos e oitenta e quatro reais e oitenta centavos) que custearam a transação fos- sem destinados “ao custeio total das intervenções propostas para o [pala- cete, imóvel cedente], inclusive taxas de BDI [Benefícios e Despesas Indi- retas] e leis sociais incidentes, e ao pagamento da taxa de administração da EMURB igual a 4% do valor total das obras executadas com os recursos captados através da Lei 12349/97”.217 O pagamento do restauro com os
recursos da TPC representa um dos principais argumentos que sustentam que o instrumento da transferência tem retorno positivo ao bem tombado, pois seria uma das formas de assegurar ou auxiliar sua preservação.218
216 Ibid., loc. cit. 217 Ibid., loc. cit.
218 Sombini lembra que “as transferências de potencial construtivo são negociações realizadas entre particulares e o poder público recebe somente 4% da transação”,
Importa salientar que a área computável corresponde apenas aos 21 pavimentos-tipo de 881m² e ao mezanino do térreo de 124,52m². A Fundação, no mesmo processo, pleiteou ainda a construção de mais 2.643m² como áreas isentas de cômputo previstas no artigo 3º da lei da OUC: seria um pavimento destinado ao uso como auditório, outro como salão de festas e o terceiro como centro de convenções, com 881m² cada um.219 A exclusão desse tipo de uso do cálculo da área construída repre-
senta um grande estímulo a sua implantação no perímetro da operação urbana, ao que se somam “cinemas; teatros e anfiteatros; salas de espe- táculos; [...] museus; creches; Educação e Cultura em geral”,220 em pleno
acordo com o que foi descrito na introdução do capítulo como típico das intervenções de renovação urbana.
Fenômeno muito semelhante a este do palacete ocorreu na quadra em frente. Em setembro de 2005, uma proposta para o novo edifício do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo foi apresentada para a avaliação pelo Conpresp, como explica Mônica Junqueira de Camargo num artigo dedicado ao tema.221 O projeto é do escritório Botti Rubin, o
mesmo que projetou o conjunto aqui mencionado na avenida Brigadeiro Faria Lima, com a casa bandeirista.222 Na proposta para o centro, o ter-
reno era aquele onde existiu a vila Sarzedas, cuja demolição não encontra consenso na bibliografia pesquisada, exigindo um estudo mais aprofun- dado. A título de indicação, ela parece ter ocorrido entre das décadas de
portanto “não foram gerados recursos significativos para a aplicação no centro”, sendo que o retorno para a cidade é principalmente a restauração do imóvel cedente, quando assim é estipulado por termo de compromisso. SOMBINI, op. cit., 2010, p. 11. 219 SÃO PAULO (cidade), op. cit., 2002, p. 39. A soma das áreas computáveis e não
computáveis publicadas junto à aprovação do pedido da Fundação Carlos Chagas é 21.268,52m². A publicação menciona quatro subsolos, a cobertura e a casa de má- quinas, mas não dá suas áreas, que provavelmente também não seriam computadas, porém em função de incentivos de outros marcos regulatórios, como zoneamento e código de obras. Possivelmente tais usos não computáveis explicam os 29.237,24 m² de área a construir descritos em um alvará de aprovação no portal De Olho na Obra, da prefeitura. Cf. SMHDU. Formulário de alvará de aprovação e execução de refor- ma. Doc. n. 2003-09657-00, ligado ao PA-SMUL 2002-0048050-9.
220 SÃO PAULO (cidade), op.cit., 1997. 221 CAMARGO, op. cit., 2007.
1970 e 1990,223 sendo que há um decreto de 1975 desapropriando com
caráter de urgência uma área configurada pelas ruas Conde de Sarzedas e Conselheiro Furtado e pela praça João Mendes.224 O decreto publicado
não acompanha um mapa, que existe apenas no processo ao qual ele remete (não consultado), mas por descrever os terrenos como “necessá- rios à construção do Fórum Criminal e instalações de dependências da Secretaria do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo”,225 acredita-se
ser relativo à demolição em questão. A ausência da rua da Tabatinguera na descrição do perímetro reforça a teoria, já que a vila terminava nos fundos dos imóveis voltados para esta rua, que não a compunham. Em 1983, outro decreto desapropria, para os mesmos fins, o edifício situado à rua Conde de Sarzedas, na confluência com a rua de acesso à vila.226
O projeto de Botti Rubin consistia em duas torres revestidas com peles de vidro e um átrio grandioso entre eles, voltado para a praça João Mendes (imagem 3.30). Pelo que foi possível verificar, essa proposta foi uma exceção ao zoneamento encaminhada pelo Tribunal de Justiça no âm- bito da Operação Urbana Centro.227 Ponderando sobre os fundamentos
daquele partido arquitetônico, de um edifício que concentra tanto poten-
223 Luís Canton diz que a demolição aconteceu em 1977, mas depois usa as datas 1980 e 1985. Paula Carlos de Souza estabelece a demolição entre 1995 e 2010. O Acervo