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4. O CONJUNTO ARQUITETÔNICO DE BENS CULTURAIS IMÓVEIS DA

4.2. Levantamento preliminar do conjunto arquitetônico

4.2.2. Edificações laborais da CAPH

Na atualidade, é crescente o número de pesquisas acadêmicas e ações para identificação e

salvaguarda de edificações industriais. Tais edificações são comuns em núcleos urbanos e

também rurais, em todo Brasil e no mundo. Suas características arquitetônicas, motivações e

disposição no ambiente dizem respeito aos diversos processos de industrialização das cidades

e sua organização estrutural, ao ser compreendido como um bem cultural. Mais uma vez, o

cotidiano laboral e as práticas de socialização nesses ambientes, nos dizem bastante a respeito

da cultura dos complexos industriais e suas influências sobre a própria vida de seus atores e à

modelagem da paisagem, da cultura social.

A CAPH, pode ser compreendida, metaforicamente, como o coração da colônia. Sua

importância e influência, se deu de tal forma a criar uma política territorial própria, que, a

princípio, tinha como objetivo, a construção de uma nova comunidade agrícola com impregnada

por uma ideologia católica, praticada por princípios do cooperativismo, como vimos em vários

momentos nesse estudo. Nesse sentido, pode ser compreendida por seus aspectos culturais

inerentes às relações laborais e sociais que este modelo de empresa tratou em implantar.

Diante disso, pode-se questionar como a distribuição e organização das edificações

laborais da CAPH, induziram a própria formação espacial da colônia e seus outros arranjos;

uma vez que eram os associados, os colonos holandeses que, antes da saída de Heijmeijer, em

1952, tomavam as decisões em quórum, naquilo que seria a primeira investida, em construir de

forma planejada, uma comunidade agrícola de holandeses católicos no Brasil no pós-guerra. As

edificações planejadas e efetivadas pela Cooperativa, no primeiro momento, eram destinadas,

principalmente, às moradias provisórias (Bairros da Cegonha e do Córrego) e definitivas da

sede (Casas dos administradores holandeses), aos armazéns, para estocagem de alimentos,

produtos, ferramentas, máquinas agrícolas etc., e as áreas de plantio comunitário.

Os principais conjuntos de edificações laborais da CAPH foram divididas em dois

grupos. O primeiro deles, trata dos armazéns da CAPH, construídos entre 1949 e 1950. O

segundo grupo trata das edificações do complexo industrial da Cooperativa, como veremos em

seguida.

4.2.2.1. Armazéns da CAPH

Na strassendorf da colônia (rua principal, atual Rota dos Imigrantes) foram erguidos, em pouco

tempo (1950-1951), cerca de 10 armazéns paralelos em alvenaria com telhados em duas águas.

Figura 73 - Armazéns em construção na formação da rua principal da colônia.

Fonte: Acervo do Museu Histórico de Holambra. Figura 74 - Armazéns da CAPH na década de 1950.

Fonte: Acervo do Museu Histórico de Holambra.

Em um desses armazéns, funcionava um pequeno comércio de equipamentos, alimentos,

ferramentas, entre outros produtos, que eram vendidos aos associados por meio da Cooperativa.

Ela realizava o estoque dos materiais e produtos e os associados podiam comprá-los. O valor

gasto por cada família ou indivíduo era contabilizado pela CAPH e os descontos realizados

diretamente na folha de pagamento da produção do associado. Funcionava como uma espécie

de armazém comercial de abastecimento interno à cooperativa, um modelo bastante aproveitado

pelos agricultores, uma vez que a Cooperativa financiava a compra de materiais e máquinas

para uso dos agricultores.

As imagens a seguir, exemplificam a parte do conjunto de armazéns que se mostra com

algumas características ainda aparentes, como as coberturas com as telhas francesas e o formato

do telhado como as imagens acima vistas (figura 75).

Figura 75 - Antigos armazéns na Avenida Rota dos Imigrantes, centro de Holambra, em 2020.

Fonte: João Luiz van Ham Mello.

Como se pode perceber, na atualidade, tais armazéns, ainda presentes na paisagem, são

destinados ao uso comercial. Neles foram instalados diferentes comércios locais como loja de

ferramentas, posto de gasolina, supermercado, bar e oficinas mecânicas, isto sobretudo, a partir

dos anos de 1990, quando a Cooperativa vendeu parte deles para terceiros. Atualmente, a

maioria que ainda está de pé, está bastante descaracterizada devido às mudanças no uso e

ocupação. Parte deles apresenta as coberturas do telhado em telha francesa e estruturas em

alvenaria, porém, apresentam perda das aberturas originais.

Figura 76 - Localização dos armazéns na Avenida Rota dos Imigrantes, centro de Holambra.

4.2.2.2. Edificações do complexo industrial da CAPH

Além dos armazéns, o conjunto agroindustrial da CAPH especificou-se, ao longo dos

anos, sobretudo, a partir das décadas de 1960, com produção de ração para animais, no

abatimento de aves e no ensacamento de laranjas. Como vimos, em 1972, a Cooperativa se

divide em setores específicos. O local da produção e beneficiamento desses produtos

estende-se ao longo dos armazéns na Rota dos Imigrantes, conformando, atualmente, a Cooperativa

Pecuária Holambra, da marca “Holambra Alimentos”. Entre as décadas de 1960 e 1970, neste

espaço, as principais edificações são: a (1) fábrica de rações, de 1973, que ganhou silos e

armazéns de estocagem (2); o escritório central (3), o packing-house de citrus (4) e o abatedouro

de aves (5), como demonstra a figura 77.

Figura 77 - Localização dos principais elementos do complexo agroindustrial da atual Cooperativa Pecuária Holambra.

Fonte: Elaborado pelo autor com Google Earth Pro.

Percebe-se na imagem uma grande área ocupada, no centro da cidade, pelo complexo

agroindustrial. Na realidade, a cidade cresceu entorno desta área, que concentrou e concentra

grande parte dos postos de trabalho e práticas laborais na ex-colônia e na cidade atual.

Atualmente, pode-se dizer que somente a fábrica de ração e o escritório central, são as

edificações, deste grupo, que melhor preservam as características construtivas originais, apesar

da fábrica de ração haver sido ampliada. Por outro lado, o primeiro abatedouro de aves,

construído em 1967, pelos sócios da Cooperativa Paulo Jacobsen, João Wagemaker e Hennie

tem Buuren, já foi completamente modernizado e ampliado. Da mesma forma, foi modificado,

drasticamente, o packing-house de citrus.

Figura 78 - Comparação de fotografias da fábrica de ração da antiga CAPH nos anos 1960 e em 2020.

Fonte: Acervo do Museu Histórico de Holambra e João Luiz van Ham Mello, respectivamente. Figura 79 - Comparação de fotografias do escritório central da antiga CAPH nos anos 1960 e em 2020.

Figura 80 - Comparação de fotografias do packing-house da antiga CAPH, nos anos 1960 e em 2020.

Fonte: Acervo do Museu Histórico de Holambra e Carolini Aldemani van Ham, respectivamente.

Figura 81 - Abatedouro de aves da CAPH, construído em 1967.

Fonte: Acervo do Museu Histórico de Holambra.

Na imagem acima (figura 80), do packing-house, observa-se a substituição de uma

estrutura prévia, possivelmente, dos anos 1950, de armazenagem e embalagem de citrus, para

uma estrutura outra, industrial moderna, cuja tranformação pode haver ocorrido nos anos de

1970. De forma geral, pode-se afirmar que esses conjuntos de edificações são aqueles que mais

apresentaram modificações, ao longo das décadas, devido às necessidades de ampliação das

condições de produção da Cooperativa, em decorrência de seu crescimento restrito àquele

espaço.

É de suma importância notar que, a atual área do complexo agroindustrial da

Cooperativa Pecuária Holambra incorpora, em sua zona industrial, a região da sede da antiga

Fazenda Ribeirão, local de primeira ocupação da comunidade de holandeses, onde também

residiam as famílias de brasileiros. Sobretudo com a emancipação da colônia, a Cooperativa

passou a abandonar a área da sede da Fazenda Ribeirão e suas instalações.

A sede da Fazenda Ribeirão, o casarão da época cafeeira na região, então foi destruído

pela Cooperativa no final dos anos 1990, ao demarcar sua nova zona industrial. Neste entorno,

encontram-se também, até 2019 e 2020, duas edificações remanescentes da história material da

colonização holandesa, o edifício da Escola São Paulo e a Igreja Velha.

Figura 82 - Localização da antiga sede da Fazenda Ribeirão dentro da atual área industrial da Cooperativa Pecuária Holambra.

Fonte: Elaborado pelo autor com uso do Google Eath Pro.

Nas figuras abaixo, destaca-se a área central da antiga da Fazenda Ribeirão dentro da área

industrial. As imagens abaixo elucidam a condição da área em 2003 e 2020.

Figura 83: Comparativo da área industrial da Cooperativa Pecuária Holambra em 2003 e 20020, respectivamente.

(2003)

(2020)

Fonte: Elaborado pelo autor com Google Earth Pro.

Como veremos mais detalhadamente nos subcapítulos seguintes, 4.2.4.1 “Igreja Velha”

e 4.2.5.1 “Primeiro edifício da Escola São Paulo”, com o tempo, a Cooperativa foi responsável

pelo abandono e aniquilamento das principais edificações do período 1950-1970, religiosa e

educacional da colônia.