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Edifica, realiza e enriquece a Igreja

3.7. Consequências

3.7.2. Edifica, realiza e enriquece a Igreja

O mistério da Igreja é expresso com a descrição bíblica de Corpo de Cristo (1Cor 12, 27). Porém, S. Paulo afirma: «completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja» (Cl 1, 24). O Apóstolo Paulo “com esta afirmação” apresenta- nos um tesouro de inigualável riqueza para a compreensão do valor do sofrimento humano. Neste sentido, fica claro que o sofrimento humano não é estéril, não é um grito que se dissipa no vento do deserto, não é uma barbaridade cega e incompreensível, pois, segundo a interpretação de João Paulo II, «o sofrimento é a participação direta no sacrifício redentor de Cristo e como tal tem uma função preciosa na vida da Igreja»402.

Nesta perspetiva, a Igreja, como fermento do mundo, tem necessidade da riqueza descomunal que é o sofrimento para a sua purificação e desenvolvimento, pois «os que participam dos sofrimentos de Cristo conservam nos próprios sofrimentos uma especialíssima parcela do infinito tesouro da redenção do mundo e podem partilhar tal tesouro com os outros»403. Deste modo, enriquece e fortalece a comunhão da Igreja, quando o Homem sofre em e por Cristo e a Ele o oferece, convertendo-se não só para a própria pessoa, mas também para todo o Corpo Místico numa oportunidade privilegiada de expiação, de purificação, de propiciação e de elevação espiritual404.

De facto, aqueles que sofrem são, no dizer de João Paulo II, «o tesouro escondido da Igreja, não só porque dais motivo a muitas pessoas para exercerem uma caridade genuína e salutar, mas sobretudo porque os vossos sofrimentos podem tornar-se uma reserva fecunda de vida e de eficácia apostólica para o bem de todos»405. Todavia, se o sofrimento realiza a Igreja com o seu exemplo e a enriquece com o seu valor, também aqueles que sofrem edificam a Igreja com o seu sofrimento, tal como João Paulo II alertou os doentes: «sois preciosos

402

JOÃO PAULO II, in H. Gracia SEAGE, A. Benito MELERO, Juan Pablo II a los enfermos, 119.

403

Salvifici doloris, 27.

404

Cf. JOÃO PAULO II, in H. Gracia SEAGE, A. Benito MELERO, Juan Pablo II a los enfermos, 120.

405

JOÃO PAULO II, Audiência Geral 12 de setembro de 1979 - Na primeira narrativa da criação

encontra-se a definição objetiva do homem, in https://w2.vatican.va/content/john-paul- ii/pt/audiences/1979/documents/hf_jp-ii_aud_19791212.html (20.05.2016).

137 colaboradores da Igreja, porque, como Ele a torna fecunda com o seu sacrifício, também vós obtereis, com os vossos sofrimentos, a sua misericórdia e dons particulares de assistência e de proteção»406.

Assim sendo, o sofrimento, ao edificar a Igreja, pode tornar-se numa experiência de libertação, em que o Homem penetra no mistério do sofrimento de Jesus Cristo, cabeça da Igreja, que o chama a cooperar na redenção do mundo pelo seu sofrimento. Ao penetrar no mistério do sofrimento de Jesus Cristo, o Homem, que constrói a Igreja, alcança, com a liberdade desobstruída, a independência do martirizante porquê do seu ser frágil, contingente e sofredor.

406

JOÃO PAULO II,Audiência Geral 7 de novembro de 1979 - A unidade original do homem e da mulher na humanidade, in https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/1979/documents/hf_jp- ii_aud_19791107.html (13.06.2016).

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CAPÍTULOIV

PARA UMA PASTORAL DA SAÚDE

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IV. PARA UMA PASTORAL DA SAÚDE

Depois de apresentarmos o sofrimento de forma lata, quer do ponto de vista antropológico, onde aferimos que o sofrimento é uma realidade intrínseca à condição humana, quer do ponto de vista bíblico/teológico, em que apresentamos o sofrimento como um manancial de competências redentoras à luz da fé em Jesus Cristo, deter-nos-emos por breves instantes numa das grandes descobertas que vem sendo feita na Igreja no que se refere ao mundo da saúde. É uma questão que preenche, hodiernamente, um dos lugares nucleares das inquietações da nossa sociedade, com cuidados que requerem sempre da parte dos cidadãos um grau de atenção redobrada com aqueles que se encontram em situações de maior sofrimento.

Na verdade, esta presença e ação da Igreja no mundo da saúde prendem-se com um comportamento pastoral que radica na missão de Cristo Bom Pastor, que tem especial apreço pelos seus doentes. «A Igreja, que nasce do ministério da redenção na cruz de Cristo, tem o dever de procurar o encontro com o Homem, de modo particular no caminho do sofrimento»407. Neste sentido, a Pastoral da Saúde, como em todos os outros meios onde a Igreja é chamada a estar e a servir, exige uma séria reflexão teológica – algo que apresentamos até aqui –, pois não bastam as determinações jurídicas, nem tão pouco a práxis, fruto da experiência, por mais importantes que sejam. Deste modo, enquanto não compreendermos à luz da Revelação e da Fé uma determinada realidade concreta da vida de cada Homem, não poderemos agir pastoralmente como cristãos, sob pena de não termos a plena consciência da forma como atuamos e até com o risco de agir em oposição ao desígnio de Deus, da Sua Palavra e do Seu Espírito. «Uma reta atividade pastoral é inseparável da sã doutrina ensinada pelo magistério eclesiástico (…) e a natural ligação entre a reflexão

407

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teológica e o modo de nos abeirarmos dos enfermos e os tratarmos estabelece-se pela ideia inarredável da vida, que paira incessantemente por cima de tudo»408.

Na verdade, bem sabemos que a realidade da saúde, pela qual o Homem luta com todas as suas forças, é uma das mais relevantes e das mais árduas de serem abordadas pastoralmente, pelo que se torna compreensível que, embora ao longo dos tempos a Igreja se tenha preocupado com o campo da saúde, foi no final do século XX que o magistério eclesiástico, sempre o mesmo, mas de forma dinâmica, ou seja, por um conhecimento gradualmente aprofundado do depósito da Fé e uma favorável e congruente adaptação de linguagem e de método às novas situações, enfrentou com seriedade e profundidade a problemática da pastoral no campo da saúde.

É assim que, tendo presente a importância da reflexão teológica, o Papa João Paulo II, no decorrer do seu pontificado, expõe uma nova abordagem da dor, do sofrimento e da doença, tendo presente os avanços da medicina e as questões ligadas com a ética, publicando a 11 de fevereiro de 1984 a Carta Apostólica Salvifici Doloris, onde faz a redescoberta do sofrimento como um itinerário de salvação e apresenta a assistência aos doentes como sucessão da obra de Cristo Bom Pastor. Um ano mais tarde, a 11 de fevereiro de 1985, pela Carta Apostólica Dolentium Hominum, em forma de Moto Próprio, institui a Pontifícia Comissão para a Pastoral da Saúde. Em 1987, cria o Instituto Teológico Camillianum para a formação dos agentes da pastoral da saúde, sacerdotes, religiosos e leigos e em 1992 institui o Dia Mundial do Doente.

Neste sentido, em Portugal, a Conferência Episcopal Portuguesa, respondendo às necessidades da comunidade humana e às exigências pastorais do nosso tempo, cria a 18 de abril de 1985 a Comissão Nacional da Pastoral da Saúde, sendo que

«em Portugal a pastoral da saúde é uma urgência. A evolução constante da técnica na medicina, a crise profunda dos valores éticos, os desafios da investigação, a valorização dos cuidados de assistência através do multiplicar de hospitais e, sobretudo, de centros de

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143 saúde, tudo isto obriga a Igreja a repensar o tipo de presença que tem junto dos enfermos e dos profissionais que a estes se dedicam»409.

Foi com este intuito que decidimos incluir esta reflexão no nosso trabalho que, depois de uma fundamentação teológica que se impõe como condição primordial para que a ação da Igreja e dos cristãos seja manifestação e realização da vontade de Deus no mundo e nos Homens, fomos ao encontro, quer de algumas pessoas com o estado de saúde mais débil e suas famílias, quer dos Assistentes Espirituais e Religiosos dos hospitais, bem como de alguns médicos e enfermeiros da Arquidiocese de Braga com o objetivo de percebermos até que ponto os doentes enfrentam o seu sofrimento de forma redentora, como as famílias encaram o sofrimento dos seus familiares e quais as dificuldades que os Assistentes Espirituais e Religiosos, os médicos e os enfermeiros encontram ao lidar com o ser humano ferido pela doença.