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O trabalho editorial no Brasil por muito tempo se manteve sob o que Chartier (2001b) classificou como ―segundo modelo de editor‖, ou seja, o papel do editor estava mais diretamente ligado ao do publisher, sendo a mesma pessoa o impressor e o livreiro. De maioria estrangeira, os editores que aqui se instalaram também tinham as livrarias como ponto de encontro intelectual, onde assuntos de variadas áreas eram discutidos.

Ao buscar as raízes do trabalho de impressão no Brasil, não podemos desconsiderar a Impressão Régia, primeira editora brasileira, instalada aqui em 1808, após a vinda do príncipe regente D. João. Foi por meio de sua instalação e consolidação, ao longo de dois séculos, que a produção nacional de livros tornou-se ―ampla, diversificada e complexa‖ (BRAGANÇA, 2010, p. 9).

A Impressão Régia manteve, até 1822, sua função burocrática, mas ampliou rapidamente seu papel. Visto no contexto em que a Impressão Régia funcionou, seu desempenho foi excepcional e abriu caminho para o desenvolvimento cultural brasileiro, pois proporcionou o surgimento de um número crescente de editores no século XIX (BRAGANÇA, 2010, p. 9).

Além de ser a responsável por toda a publicação de legislação e papéis diplomáticos, a Impressão Régia passou a imprimir ―obras de Belas-Letras, de Medicina, de Economia, de Direito, de História e de Teologia, além de periódicos e de livros didáticos‖

(ABREU, 2010, p. 44)15. Atualmente, figura com o nome de Imprensa Nacional, recebido depois da Independência do Brasil.

O monopólio da Impressão Régia no Rio de Janeiro permaneceu até o ano de 1822; a partir disso, novos editores surgiram, e as possibilidades de impressão se multiplicaram. Para Bittencourt (2004, p. 482),

após o término do monopólio da Impressão Régia em 1822, teve início a transferência dos encargos editoriais para o setor privado. A Tipografia Nacional continuou publicando obras didáticas em número restrito e editores de origem estrangeira passaram a se ocupar da produção nacional, mas sempre vinculados aos países europeus principalmente. As marcas editoriais francesas, em especial, foram se consolidando em razão de nossa dependência das técnicas de produção e das políticas de importação.

A editora dos irmãos Laemmert, dos sócios Eduard Laemmert e Bossange, segundo Bittencourt (1993, p. 82), ―foi praticamente a substituta da Impressão Régia‖ e figurou, até 1885, como uma das três editoras de destaque na produção de LD.

Para Hallewel (1985, p. 144), Garnier apostou, na mesma época e de forma bem acentuada, na publicação de didáticos, assumindo até mesmo o risco de ter seus negócios levados à falência. Outra editora das três que se destacaram no período foi a Francisco Alves; esta veio a se transformar na ―mais importante empresa de obras didáticas entre 1880 e 1920‖ (BITTENCOURT, 2004, p. 482).

De acordo com Guizzo (1986, p. 36), apenas a partir dos anos 1960 do século XX, os publishers (editores-patrão) passaram a contratar profissionais que seriam responsáveis pela programação editorial e produção gráfica, traduções e versões de obras. Estes eram normalmente assalariados ou colaboradores freelancers, a maioria com formação em Ciências Humanas.

Francisco Alves, Joaquim Saraiva e Monteiro Lobato também são importantes nomes quando se enfoca o trabalho editorial didático brasileiro. Francisco Alves iniciou seus trabalhos no ramo de livros acadêmicos e didáticos, em 1882, e, depois de comprar a parte do tio na sociedade, focou sua produção nos LD, o que fez dele referência no ramo,

15 Para Abreu (2010, p. 44), apesar de inúmeros esforços de pesquisadores, não há identificação segura do acervo produzido pela Impressão Régia.

tanto pela quantidade de materiais editados como pelo sucesso em vendas, principalmente para o estado de São Paulo. Joaquim Saraiva iniciou seus trabalhos com a publicação de obras da área de Direito, que se tornaram referência para o curso de Direito da Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo. Monteiro Lobato foi pioneiro na impressão de obras no Brasil e, por isso, de acordo com o pesquisador Ênio Silveira (2003), é considerado ―o pai da indústria do livro brasileiro‖. Antes dele, os editores imprimiam suas obras fora do país (por exemplo, os franceses Garnier e Laemert) (COSTA, 2009, p. 71).

José Olympio é outro nome de destaque no ramo editorial. Seu foco era a publicação de literatura; autores como Graciliano Ramos, Ciro dos Anjos e Guimarães Rosa constavam de seu catálogo. Merece destaque o fato de ele ser um dos únicos editores que pagavam os direitos autorais adiantados ao escritor, prática não comum para a época. Além de focar seus trabalhos na produção de nomes da literatura, traduzia, entre outros, autores como Balzac e Dostoievski. Seguindo os passos de Francisco Alves e Monteiro Lobato, também entrou no ramo de produção de material didático, contando com figuras como Portinari como ilustrador para suas capas (COSTA, 2009, p.71-74).

Em artigo sobre o trabalho de autores e editores no período de 1810-1910, Bittencourt (2004), ao abordar o fato de que na pesquisa sobre a história do livro não é muito usual temas que destaquem o trabalho dos autores, afirma ainda que, quando a análise envolve LD, é necessário incluir no percurso não apenas a questão do ofício de editor, mas a consideração de que este trabalha em um mercado que confere retornos financeiros consideráveis para editores e autores, o que envolve condições mais complexas e tensas das relações.

A autora ressalta, também em sua análise da produção no período supracitado, o fato de a produção do LD estar totalmente submetida aos programas curriculares governamentais, e a dependência das autorizações do poder educacional e das formas de comercialização e circulação do livro refletir-se na caracterização dos autores, que responderiam a tais exigências. Não somente os autores eram selecionados mediante as exigências governamentais, mas também as obras eram produzidas levando-se em conta tais exigências. Inicialmente, o livro tinha como principal interlocutor o professor; em outro momento passou a ser considerado o livro do aluno e, nesse processo, os referenciais

pedagógicos e o público escolar exigiram cuidados com a linguagem. Em razão disso, o perfil do autor do LD transformou-se, assim como sua autonomia, e acentuaram-se as relações entre editor e autor, uma vez que este deveria responder a aquele, que visava os lucros com as vendas em larga escala (BITTENCOURT, 2004, p. 475).

A necessidade de produção de LD já havia, pois, sido colocada, e os editores tinham consciência de que a tarefa se mostrava inovadora, pois, entre outros, o grande desafio era deixar de produzir apenas textos narrativos para elaborar textos que ―pudessem mesclar narrativas e ‗atividades‘ de ensino e aprendizagem‖ (BITTENCOURT, 2004, p. 484). Nesse âmbito, percebem-se também mudanças na figura do editor, principal interessado em atender às novas configurações e em controlar a produção de tal forma a ter sua obra escolhida para uso nas escolas.

Nesse contexto, já se podem perceber alguns agentes e parâmetros que fortemente estão envolvidos na construção do LD: autor, editor, Estado e as especificidades do texto didático, que se tornam responsáveis pelas complexas teias de interferências no produto. Entretanto, para Bittencourt (2004, p. 490), os editores sempre estiveram atentos às especificidades, pois o interesse comercial nunca saiu do horizonte de ―seu ideal de promotor da cultura letrada‖.

Assim, analisar o movimento das editoras em se adaptar à realidade escolar com fim de manter e fazer crescer seu negócio leva-nos a refletir sobre como, de certa forma, elas passaram a ter responsabilidade pelo fazer pedagógico, mediante a orquestração dos saberes que consideram importantes (dentre os indicados pelos programas) a serem transpostos para o livro, os quais se configurariam também como necessários à formação dos recursos humanos para o Governo.

1.3 O PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDÁTICO E A PRODUÇÃO