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Editoras universitárias: o que e para quem publicar?

A

s editoras universitárias no Brasil e no mundo cumprem papel fundamental no cenário acadê- mico e cultural de sua abrangência. Antes de debater essa premissa, julgo importante pensarmos nos pri- mórdios da universidade enquanto instituição de saber. Desse modo, poderemos refletir melhor sobre a publi- cação de editoras inseridas no contexto universitário.

As universidades tiveram origem no continente europeu da Idade Média, território no qual mudan- ças profundas vinham se constituindo e anunciando rupturas. Cristovam Buarque registra, em A aventura

da universidade, que o surgimento da universidade se

deu no período em que a Europa feudal se direciona- va ao renascimento do conhecimento, à racionalidade científica. Dessa forma, serviu como ferramenta para constituição da nova sociedade, do novo indivíduo, e, consequentemente, das novas relações sociais.

ainda possui um caráter transformador, tendo o pa- pel permanente de, como diz Buarque, produzir co- nhecimento em nível superior, a fim de sustentar a organização social. A universidade, incumbida desse papel, vê-se como grande polo gerador de saberes, cuja implantação visa contribuir no desenvolvimento dos diversos níveis sociais. É necessário, portanto, que essa produção intelectual encontre vias de promoção nas quais possa ultrapassar os limites físicos da insti- tuição e alcançar aqueles para os quais seu conteúdo é de grande relevância.

Atualmente, os conhecimentos gerados a partir das universidades são divulgados, entre outras formas, por meio de editoras universitárias, constituídas mui- tas vezes como órgãos de extensão das instituições. A edição de impressos no ambiente acadêmico justifica- se pela necessidade de documentar e fazer circular a produção intelectual, em exigência à função social da universidade.

A pesquisadora Leilah Santiago Bufrem, em

Editoras universitárias no Brasil, esclarece que a edi-

toração universitária teve início na década de 1960. Algumas dessas editoras surgiram juntamente com as universidades, já outras foram um desdobramento

das chamadas imprensas universitárias. Apenas depois esses órgãos constituíram seus conselhos editoriais e passaram a atuar sob as diretrizes de regimentos pró- prios. Conforme Bufrem, cabe às editoras universitá- rias promover o acesso da sociedade à produção in- telectual gerada na universidade ou mesmo fora dela, a fim de que possa ser vista como contribuição para o desenvolvimento dessa mesma sociedade. A edição de produtos impressos constitui, assim, uma atividade inerente à instituição universitária, pois cumpre a fun- ção de divulgar a produção acadêmica.

Um dos instrumentos de promoção da produ- ção intelectual no Brasil está na reunião das editoras de instituições de ensino superior pela Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU), funda- da em 02 de setembro de 1987. Entre os objetivos da ABEU, estão o de promover o desenvolvimento das editoras associadas e o de contribuir para os processos de produção, comercialização e divulgação do livro universitário. As editoras associadas à ABEU podem, ainda, integrar o Programa Interuniversitário para Distribuição de Livro (PIDL), com o objetivo de di- vulgar e comercializar os livros produzidos pelos seus membros.

Dessa forma, não há como negar a importância das editoras universitárias para a divulgação do co- nhecimento advindo dos pesquisadores de institui- ções de nível superior. Entretanto, particularmente, penso que a produção de uma editora universitária pode se abrir a um público mais amplo. É sabido que as universidades não estão, ou não deveriam estar, alijadas do seu compromisso com o desenvolvimen- to social. Acredito, porém, que esse desenvolvimento não deve estar reduzido à ponta de um conhecimento altamente especializado, dirigido a pares, apresenta- do em comunicações herméticas, muitas vezes até aos próprios colegas. Defendo a participação da universi- dade pública no seio da comunidade. Daí derivam as ações de extensão que buscam levar aquilo que está sendo desenvolvido dentro da instituição para comu- nidades diversas. Isso nada mais é do que o compro- misso com a sociedade que a sustenta por meio de impostos.

Assim, não vejo como as editoras universitárias podem se eximir do mesmo compromisso. Para isso, a sua produção não pode estar somente focada nas tais publicações ininteligíveis ao grande público. Como exemplo, podemos propor obras de vulgarização da

ciência, as quais contemplam leitores não habitua- dos à linguagem acadêmica, mas que mesmo assim alimentam interesse em conhecimentos diversos. Do mesmo modo, livros concebidos para um nível não universitário podem ser uma alternativa para preen- cher lacunas de textos que não se ajustam aos interes- ses de grandes editoras comerciais, mas que seriam importantes para a formação de estudantes de níveis fundamentais e médio. Destaco, nesse ponto, as obras de conteúdo primordialmente local, que definitiva- mente não têm espaço para produção e divulgação.

Além disso, defendo a presença das editoras universitárias no campo artístico-cultural das suas regiões. Justifica essa ação a carência de apoio gover- namental a iniciativas que visem o fomento à expres- são artística de escritores, muitas vezes anônimos por falta de oportunidades de publicação.

Nesse sentido, a Editora da UFRN, em 2014, propôs a realização do Concurso Literário Américo de Oliveira Costa. A ação, que homenageou em seu título o notório ensaísta nascido em Macau-RN, teve como público-alvo os escritores norte-rio-grandenses, bem como aqueles residentes no estado pelos últimos dez anos. Seu objetivo foi a divulgação de talentos literá-

rios do Rio Grande do Norte, bem como o estímulo à leitura e à escrita. De modo a incluir distintas catego- riais e escritores, o concurso contemplou as catego- rias romance, conto e poesia. Os textos inscritos nesse concurso foram analisados por uma Comissão Julga- dora, composta por três pessoas de notória compe- tência na matéria, designada pelo Conselho Editorial da UFRN, para cada uma das categorias do concurso. Após o período de inscrição, pudemos registrar 209 poesias, 74 contos e 7 romances. Ao final do processo seletivo, foram contempladas 34 poesias, 16 contos e um romance, que serão publicados na forma de três livros, um para cada categoria. A lição apreendida ao final do certame foi que há uma grande demanda de escritores, cujas produções não encontram vazão para que possam ser publicizadas e levadas à crítica, esti- mulando, crescentemente, a literatura local.

De volta ao cerne que guiou essa reflexão, pode- mos concluir que as editoras universitárias devem ter o comprometimento com a editoração de livros não apenas para atender à divulgação do conhecimento acadêmico. Mais que isso, a universidade precisa es- tar atenta às necessidades de um público maior. Deve, dessa forma, encurtar o tempo para o impacto de suas

ações no dia a dia do indivíduo comum. Seu caráter transformador pode e deve ser imediato, criando mo- vimentos para um pleno exercício de cidadania. Para isso, sem dúvida, o livro é ferramenta indispensável. Façamos a nossa parte.

Referências

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BUARQUE, Cristovam. A aventura da universidade. São Paulo: Editora da UNESP; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

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