Língua Portuguesa. Coletânea de con- tos Livre Pensador, em 2004, editora Scortecci; livro individual de contos A Morte de João Mocinha, em 2004, edi- tora Papel Virtual; coletânea textos sobre MPB Cantigários, 2008, editora Gue- manisse; coletânea de contos Literatum e Poeticum, 2009, editora Guemanisse; artigos acadêmicos publicados pela Ufes e jornal A Gazeta, em 2009 e 2011, respectivamente; contos publicados no Caderno Pensar - A Gazeta - em 2012.
Timorato
Timorato
Como dois e dois são quatro, aquele momento de perda chegaria, inevitavelmente. Nenhuma esperança que contradissesse a ruína era nutrida (exceto no jogo ficcional que gostava de fa- zer com ela e consigo mesmo, mentirinhas estéticas), pois a expe- riência ensinara: relação amorosa esquartejada aos poucos, sem os necessários esclarecimentos mútuos, antes até fluida e depois estancada não como quem resolve fechar uma ferida que lateja e lateja, e sim como quem decepa a cabeça do outro para aliviar sua própria enxaqueca, toda relação assim suspensa é anacoluto, conduz não ao silêncio e à paz pretendidos: antes à tragédia. Talvez não imediata, talvez nem tanto Eurípedes, mas sempre tragédia.
Abandonou-se. De repente perdido numa floresta, após o desabamento.
– Há um engano, não foi bem assim. A verdade, por mais desdita que seja, precisa ser expressa sem sombras, em minúcias. O sol nosso de cada dia foi fazendo água aos poucos, houve todo o tempo do mundo para se construir uma nova manhã a dois. Mais que isso: ele se levou para as brenhas de si mesmo, antes, a vida era uma planície. Nem tantas flores, muitas vezes esburacada, vá lá, mas ainda assim planície.
Não mais fez caso de si. Desceu. Vertiginosamente. E des- ceria ainda mais e aos poucos, tencionava-se. Quando do divórcio, perdeu os pés, o solo, ah... tão amena aquela realidade cosmética, doméstica, domesticada, os atores conhecendo suas falas e marca- ções no palco... Além do mais, tinha uma certeza vaga: ainda resi- dia em algum grotão de sua alma o afeto por ela, motivo pelo qual precisava fazer-se visível novamente àqueles olhos tão severos. Sur- preendentemente cartesiano e metódico quando saía de seu mun- do abstrato, não queria parecer ostensivo em suas atitudes e pro-
184 II Prêmio Ufes de Literatura vocar a piedade dos familiares mais próximos, as previsibilíssimas palavras de apoio e superação, porque você não se pode entregar, porque é preciso mostrar a ela que você é mais forte, pode contar com o nosso apoio, nós o amamos irrestritos, e outras bobagens próprias de quem desconhece um coração trespassado de razões sem assinaturas. Ou de um orgulho ressentido? Pretensamente bem quisto por muitos, também precisaria ser misericordioso e evitar, tanto quanto possível, a dor sincera que sua fuga de si, supunha, causaria aos mais amigos e à parentela mais pegajosa quando seu corpo, coitadinho dele, fosse encontrado na estrada da floresta.
Portanto, desceria ao inferno paulatinamente. Mas não usan- do as escadas mais óbvias (os álcoois, a adrenalina das altas veloci- dades em noturnas rodovias, os narcóticos), pois isso já fazia mes- mo quando mais ou menos feliz naquele matrimônio assim-assim, que aliás já desmoronara, apenas ele não se dera conta disso. Não?! Fingia cegueira, confortáveis ouvidos de mercador.
Ria de si mesmo, afagando-se o ego e chegando sempre à mesma conclusão: como estava redondo o plano!... Primeiro, precisaria comportar-se outro, incompetente o tanto que chegas- se para perder seu ótimo emprego de crítico teatral (no sentido farsesco da palavra, pois os colegas de texto apenas encenavam respeitá-lo pelas opiniões) e fazer isso chegar aos ouvidos dela; segundo, sofreria de caso pensado uma dor verdadeira, advinda da imaginação: ela retornando, rabinho entre as pernas macias, amor, me perdoe, nunca mais vou me preocupar com a minha felicidade egoísta, lágrimas na voz. Entretanto, pressentia sem querer admitir: tais imagens nunca desceriam das nuvens; aqueles cabelos em cachoeira e aquele sorriso de sol não resplandeceriam outra vez. Afora noutro céu. Como toda a dor, inclusive a verídica, gravita em torno de uma dimensão estética, talvez fizesse poemas apócrifos e epístolas sem remetente para ela nas madrugadas. E palavras tão talentosas, que chegaria ao ponto de se perguntar: será mesmo que ela existiu em carne e osso em minha vida? Não terá sido efígie, uma daquelas ninfas?
– Por favor. Sempre existi inteira, nenhum subterfúgio, nítida, solar. Às vezes, lunar, é verdade, mas o que podia fazer se ele desaparecia, virava sombra e sátiro dentro de seus sonhos insensatos, e mesmo quando retornava ainda estava fora da realidade? Criatura frágil, inadaptado, de porcelana mesmo. Era
um quebrar-se constantemente e não se conseguir recompor. Ora, a vida não admite isso, fraturas e estilhaços que não cicatrizam!
Ignorou os correios eletrônicos. Neles, não havia o neces- sário apelo romântico, e escreveu, resultado de vários rascunhos, extensa carta destinada a ela, tão carregada nas tintas da drama- ticidade quanto um céu armando temporal: palavras-ventania, imagens-trovão, eram lembranças editadas: citava essa e aquela passagem feliz do casal, alterando premissas, subtraindo diálogos, as ironias mordazes e a reversão de culpa (suas armas melhores naquele jogo de xadrez) nem eram mencionadas.
A última etapa: gigantesca delícia, o canto da boca alargan- do-se e os olhos virando criança como quem antevê o passarinho cair no alçapão, o parágrafo indicando o local onde seria possí- vel encontrar seu cadáver largado no chão, numa estradinha. No matagal, raticida misturado à bebida, escrevera. Na verdade, meu amor, pensei em cicuta, mas desisti: filosófico em demasia; cortar os pulsos, mas não quero virar dramalhão no horário nobre. No bolso da calça, meu anjo, deixarei resumidas essas palavras que escrevo doravante para você, afinal todo suicida que se preze dá explicações por escrito.
Plenamente cônscio do tanto que julgava conhecer a alma timorata da mulher, escolheu um dia colorido para seguir rumo a uma matinha ordinária próxima à sua casa, onde seria encontrado sem muitas buscas; onde construiria um cenário oportuno: roupa suja, pois os abatidos são largados; pela metade, uma garrafa en- clausurando um vinho ao qual odiava tanto que nem mesmo se o conteúdo da carta fosse verdadeiro beberia; pensou mesmo numa taça, porém temeu o ridículo; declarações escritas de amor mútuo de quando eram namorados, habilmente misturadas a partes do ve- neno, como se formassem iscas. Algumas ligações telefônicas estra- tégicas, e pronto: ela chegaria em poucas horas. Bastava deitar-se e fingir-se morto, toda a volúpia da espera. Viria descabelada, a alma repleta e rasgada de culpas que nunca teve. Revanche, meu amor.
Errou o cálculo, último erro de sua vida: ao receber a carta, no mesmo dia das ligações, ela foi mais ágil na movimentação das pedras no tabuleiro: suicidou-se sem escrever palavra, sua grande jogada. Xeque-mate. Ele desceu ao abismo, perdeu-se para sempre.