1. CAPÍTULO – I EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL – UMA
1.8. Educação Agrícola: a Preocupação com o Mercado
As origens da Educação Agrícola no Brasil, conforme foi possível observar remontam a dois momentos históricos distintos, mas singulares do ponto de vista da complementaridade, o período da dominação colonial e das atividades econômicas aqui desenvolvidas, e da época que antecede o nascimento da indústria no país e consequentemente da organização sócio- espacial no e do território brasileiro.
Em ambos os momentos, o país percebia uma característica bastante típica e peculiar de um território colonizado, uma vez que se constituía em um simples exportador de matérias- primas e/ou produtos primários.
Segundo Soares (2003) no que tange ao setor agrícola o que se verificou no Brasil colonial, em especial no período áureo da cana-de-açucar, com relação à aprendizagem é que a mesma era assistemática, onde tanto os escravos quanto os homens livres eram treinados
dentro do próprio ambiente de trabalho, sem a presença de padrões, regulamentações e sem atribuição de tarefas próprias para aprendizes. A referida autora ainda chama a tenção para o fato de que
Nem com a expulsão dos jesuítas, em 1759, o ideário educacional sofreu alterações substantivas, embora o Marquês de Pombal, responsável pela expulsão e pelas reformas educacionais que colocaram o ensino sob a responsabilidade do Estado e modificaram sua estrutura, pretendesse adaptar a Colônia ao objetivo pretendido para Portugal - transformá-lo numa metrópole capitalista. O modelo continuou a ser o mesmo, isto é a cópia do que se oferecia na metrópole e aos que quisessem continuar seus estudos em cursos superiores continuava a ser exigida a ida à Europa, isto é, à civilização. (SOARES, 2003, p. 24).
Oficialmente, a Educação Agrícola foi amparada pela lei que estabelece a consolidação do ensino técnico-profissional no país; a Lei nº 9.613, de 20 de agosto de 1946 – Lei Orgânica do Ensino Agrícola, produto da reforma Capanema. Por outro lado, é válido salientar que este modelo de educação sempre esteve voltado a atender as necessidades e interesses do mercado, sobretudo, o externo; além de ao mesmo tempo, buscar a satisfação das elites/oligarquias rurais do Brasil, preocupadas em promover a manutenção de seus privilégios, logo, da estrutura social reinante. Nestes termos, a educação e o ensino no Brasil, historicamente foram, percebendo, desta maneira uma formação específica de acordo com as regras e normas ditadas pelo capitalismo ruralista e pequeno-burguês dominante e nascente no meio urbano do país, daí então à lógica da preparação para o mercado de trabalho.
Soares (2003) ao estudar a problemática do ensino técnico no Brasil, e mais em particular do ensino agrotécnico, observa que a questão que se coloca no centro das discussões, é mesmo a questão da preparação para o trabalho, onde a profissionalização é colocada unicamente enquanto preparação para o mercado.
Nota-se então, neste contexto, que a educação agrícola ao longo da história, foi e é profundamente marcada por um compromisso não-social, quando pensada em relação aos trabalhadores (as) do campo e de seus filhos, logo, da manutenção e reprodução das desigualdades e contradições sociais, econômicas e culturais existentes no espaço do mundo agrário brasileiro; soma-se a isso o objeto, o sujeito e o conteúdo deste modelo de educação.
Com efeito, como salienta Sobral (2008) a diretriz curricular para o curso técnico em agropecuária atendeu e ainda continua a atender o padrão tecnológico da agricultura comercial, seguindo decidida e fundamentalmente a lógica da racionalidade econômica.
De acordo com Oliveira
A economia, e mais concretamente o modelo da economia de mercado, tornou-se hoje o princípio explicativo maioritário da realidade. As relações dos homens com os recursos físicos, com os outros seres vivos, as relações dos homens/mulheres entre si, e até a sua valorização individual, são aferidas pela produção de bens que é obtida. [...] Daí que a educação artística, emotiva e orgânica do indivíduo seja sempre considerada como menos importante pelos sistemas ‘educativos’ institucionalizados; daí também que os maiores excluídos deste sistema sejam sempre: os pobres, os artesões, os presos, os reformados, as populações rurais, as mulheres, os povos do Terceiro e Quarto Mundo, etc. É este conjunto de milhares de seres humanos, para já não falar dos outros seres vivos, que diariamente é sacrificado para a manutenção da lógica economicista que detém o poder do nosso planeta. (OLIVEIRA, 2007, p. 272-273).
O ensino técnico agrícola adota uma concepção de educação pensada para os sujeitos do campo e não produzida pelos sujeitos do campo. A Educação Agrícola nestes termos não valoriza os saberes, nem a cultura popular, a vitalidade humana que existe no meio rural, pelo contrário faz uso de uma desvalorização e de uma desconstrução dos valores culturais, inculcando na mente dos sujeitos uma ideologia “que faz voltar à política estreita e sectária em que o respeito pelos outros é queimado na fogueira da competição entre os fragmentos”. (HARVEY, 1993, p.316).
O Decreto Lei 5.154/2004, produzido no seio da luta contra o poder das forças conservadoras, parece que diferentemente das proposições buscadas pelo ensino agrícola até bem pouco tempo atrás, lança-se a um novo desafio: o de construir uma outra identidade ao ensino técnico agrícola profissional, quando traz em seu bojo novos pressupostos teórico- metodológicos, apontando para a importância do ensino médio no processo de busca de romper com o subdesenvolvimento econômico e cultural, a partir da construção de uma nova base científico-técnica articulada ao conhecimento histórico social dos sujeitos e/ou indivíduos, e, que assim permitam aos jovens a compreensão dos fundamentos e aparatos técnicos, sociais, culturais e políticos do atual sistema produtivo.
Contudo, considerando as observações feitas pelo professor Frigotto em companhia das professoras/pesquisadoras Ramos e Ciavatta, que destacam o decreto como um ganho político, fruto de um conjunto de disputas internas no seio da sociedade, das escolas e dos estados como um todo, compreendo a luta Por Uma Educação do Campo como permanente e constante, portanto, ou os educadores que não se identificam com status quo se inserem e acordam para as estratégias dos setores conservadoristas do meio educacional, diante das contradições presentes no decreto, ou perderão a viagem, pois não verão o bonde da história passar.