Capítulo 2 – Revisão da literatura
2.9. Educação Ambiental
2.9.1. Educação Ambiental e a interdisciplinaridade
Qualquer que seja o problema abordado, se se procura uma solução no contexto do meio ambiente, essa análise é muito complexa. Esta complexidade provém de muitos factores (económicos, jurídicos, sociais, políticos, geográficos, históricos, biológicos, químicos, físicos) que convém reunir para compreender:
a) como funciona a actividade do ser humano e as suas relações com o meio ambiente;
b) quais são os pontos fundamentais que se devem abordar para modificar os resultados prejudiciais de tal actividade;
c) que tipo de intervenção é desejável e possível, quem deve levá-la a cabo, mediante que processos, ...
d) que consequências são previsíveis a curto, médio e longo prazo, e em que âmbito. À complexidade dos aspectos abordados juntam-se as inter-relações múltiplas entre uns e outros que se produzem no tempo e no espaço e que é necessário identificar, hierarquizar e articular. Convém ter em conta as correlações entre os fenómenos e as situações que uma abordagem monodisciplinar tenderia a fragmentar.
Mas também, a pluridisciplinaridade não resolve o problema, uma vez que proporciona uma justaposição de análises e de soluções sem que o conjunto obtido seja coerente e factível. É a utilização de um instrumento comum, criado por todos, que pode superar os inconvenientes trazidos por uma análise pluridisciplinar, fazendo com que a contribuição das diferentes disciplinas seja operativa.
O objectivo comum é alcançar um nível de compreensão o mais completo possível dos sistemas em que se desenvolve a actividade humana para delimitar os seus efeitos sobre o meio ambiente. Deve pois, construir-se um instrumento comum de análise que, segundo J. M. Abillon (Felice, 1994) pode constituir-se por três etapas que permitem:
a) determinar os elementos do sistema e as leis que regem as interacções que os unem, quantitativa ou qualitativamente;
b) descrever a evolução desse sistema e predizer as consequências das mudanças introduzidas no mesmo devido à sua evolução;
c) escolher, uma vez estabelecido o objectivo e tendo em conta a situação política e económica, as melhores soluções e as menos prejudiciais para o meio ambiente.
Este método assegura a passagem da pluridisciplinaridade à interdisciplinaridade. A transdisciplinaridade raramente se usa, uma vez que exige dos investigadores grande disponibilidade de tempo, um conhecimento amplo dos conceitos e teorias de outras disciplinas além de um bom conhecimento da sua própria disciplina e uma grande dose de humildade.
A investigação interdisciplinar neste contexto permite elaborar novos conhecimentos para encontrar os meios de resolver determinados problemas. Mas, a EA permite também que os professores atinjam os seus objectivos na prática da interdisciplinaridade.
Qualquer que seja o nível de intervenção na formação e a intensidade de EA, tem de se procurar a compreensão dos mecanismos de funcionamento de um sistema que traduza as relações entre a acção humana e o meio ambiente pelo que se torna imprescindível observar e descrever processos conhecidos. Até porque este objectivo é em si mesmo um elemento de formação que é necessário adquirir para conseguir as mudanças desejadas nas atitudes e comportamentos e, sobretudo, no mecanismo de pensamento.
A interdisciplinaridade na EA necessita da intervenção de todas as disciplinas embora os seus papéis possam ser bem diferentes, pelo menos ao nível quantitativo. É necessária uma articulação entre as diferentes disciplinas e, sobretudo, de as adequar às necessidades de aprendizagem dos alunos. As necessidades do discente são prioritárias, trata-se de modificar as suas atitudes para as tornar mais positivas em relação ao ambiente. Em todos os estudos sobre este tema, os contributos de cada disciplina convergem para captar as diferentes facetas do fenómeno.
Para participar plenamente na EA, os professores devem assumir outra forma de intervenção, proporcionando a aprendizagem através de métodos activos. São os alunos que têm de adquirir os métodos e os conceitos heurísticos para controlar o ambiente e o seu desenvolvimento.
Deste modo, é indispensável criar situações pedagógicas que não se refiram a uma disciplina específica. No actual contexto educativo são os docentes das diferentes disciplinas que devem delinear os objectivos interdisciplinares necessários para salvaguardar o ambiente. A consideração destes objectivos interdisciplinares modifica a pedagogia das disciplinas, em particular desenvolvendo diferentes actividades de carácter social ou autónomas que permitam desenvolver comportamentos e métodos correspondentes aos objectivos gerais. Em função dos objectivos inerentes ao projecto interdisciplinar, as diferentes disciplinas unem esforços para estudar o mesmo fenómeno mediante abordagens diferentes e complementares, até porque é necessário conjugar diferentes aspectos do conhecimento para explicar a realidade.
A interdisciplinaridade é uma necessidade instrumental. Facilita a aprendizagem directa ou indirectamente assim como ajuda a formar a personalidade base. Esta permite tratar actividades e problemas complexos que não podem depender, dada a sua concepção, de um currículo disciplinar “racionalmente” construído. Os pontos de interesse suscitados pelo ambiente, tais como a contaminação, o ruído, a urbanização de terrenos, são inacessíveis a uma exploração disciplinar restrita, são necessários conhecimentos disciplinares que os alunos não têm. É de salientar que, regra geral, os temas e actividades que apaixonam os alunos são sempre temas ou actividades complexas que não fazem parte do currículo normal. Efectivamente, os programas estão muito longe de interessar à maioria dos alunos, dominados por um universo cultural diferente do escolar e influenciados pelos meios de comunicação (Felice, 1994). Uma abordagem interdisciplinar pode facilitar a aquisição de conhecimentos úteis e ir de encontro às preocupações e motivações dos discentes. Deste modo torna-se fundamental, conceber programas que não se baseiem numa sucessão de temas.
A EA tal como foi definida na Conferência de Tbilisi (1977), não pode ser uma série de lições cuja sucessão e continuidade estão programadas de antemão. Quando o professor quer ajudar os alunos a resolver os problemas que os rodeiam não pode seguir um
programa linear, mas a análise crítica e a síntese destacando as diferentes inter-relações. A aquisição de um método, a construção de um conceito e sobretudo a modificação das atitudes, não se podem conseguir directamente mediante a resolução de exercícios pré- -estabelecidos.
A EA deverá ser crítica para favorecer a análise e a consideração dos factores que intervêm numa determinada situação. Do mesmo modo, deverá estimular a criatividade para facilitar a descoberta de novos métodos de análise ou de combinações que permitam a adopção de novas soluções. A criatividade deverá submeter-se a uma análise crítica para não terminar numa utopia.
Além disso, sendo as condições ambientais resultado de opções sociais, económicas e tecnológicas mais do que de factores físicos, a EA deverá estabelecer um novo sistema de valores. Todas as decisões relacionadas com o desenvolvimento da sociedade e o bem- -estar dos indivíduos se baseiam em considerações, geralmente implícitas, sobre o que é útil, bom ou bonito. O indivíduo educado deve ser capaz de levantar questões tais como: “Quem tomou esta decisão?”, “Baseado em que critérios?”, “Com que objectivos?”, “Avaliou as consequências?”. Enfim, deve conhecer as opções tomadas e saber em função de que valores o fizeram. Os valores e as opções são os princípios organizativos da acção.
2.10. ANÁLISE VERTICAL E HORIZONTAL DAS ORIENTAÇÕES CURRICULARES