1.4 Os valores e a Educação Ambiental
1.4.3 Educação Ambiental e o trabalho com valores
Neste momento, a partir das conceituações acerca da necessidade humana e ética na construção de valores, trazemos sua ligação ao contexto sobre o qual iremos propor nossas seguintes discussões: a questão ambiental. Apontada por Grün (1996) como parte de uma profunda crise de valores, faz-se necessário, segundo o autor, o estudo, questionamento e redimensionamento das relações que estabelecemos entre seres humanos e destes com a natureza, pois este considera que “nossa civilização é insustentável se mantido(s) o(s)
prática educacional na EA vem se constituindo como uma forma de, antes de tudo, atentar e refletir quanto os “valores que regem o agir humano e sua relação com a natureza” e o
“processo de afirmação e legitimação desses valores” (GRÜN, 1996, p.22).
Portanto, afirmamos que o conteúdo valorativo está subentendido no interior da crise ambiental, que requer mais que a conservação do ambiente: requer o redimensionamento do lugar do homem na natureza (GRÜN, 2003). Grün (1996) afirma ainda que boa parte destes
valores “muitas vezes não estão em um nível mais imediato da consciência, mas se encontram
profundamente reprimidos ou recalcados através de um longo processo histórico” (GRÜN, 1996, p.22).
O processo histórico que o autor se refere liga-se a todo o processo de desenvolvimento alcançado pelo homem moderno, até o apogeu da tecnociência, o qual tem a primazia da razão e a dissociação entre sujeito e objeto, homem e natureza, a qual se torna um objeto a ser silenciado, desvendado e dominado. Neste sentido, Grün (1996) afirma que a EA, mais do que criar novos valores, deveria se preocupar em resgatar alguns valores já existentes,
“mas que foram recalcados ou reprimidos pela tradição dominante do racionalismo cartesiano” (GRÜN, 1996. p.22).
Dado este fato, consideramos a afirmação de Scott e Oulton (1998) sobre a dimensão de valores ser uma dimensão-chave nas propostas de EA e que permanece reafirmado nas mesmas ao longo dos anos. Os autores também salientam a importância desta dimensão estar presente na formação de professores. Assim, Bonotto (2003), voltando-se para a dimensão valorativa da EA, discute a necessidade do trabalho educacional com essa dimensão, propondo caminhos para que esta ocorra. O trabalho educativo nesse sentido, além de identificar as concepções e valores nas visões de mundo presentes atualmente, deve apontar para o trabalho com novos valores “que possam subsidiar uma nova prática por parte da
sociedade” (BONOTTO, 2003, p.9).
A autora propõe o trabalho com o conteúdo valorativo na EA, através de valores
ambientalmente desejáveis (BONOTTO, 2008a), partindo da reflexão de Araújo (2000) sobre
os valores de nossa sociedade aqui e agora, sendo alicerçados nos princípios e valores referidos na Declaração Universal dos Diretos Humanos. Elaborada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948, ela é fruto de um esforço da comunidade internacional em
estabelecer “parâmetros que possam balizar as ações das diferentes culturas com relação ao
que se considera como razoável quanto ao respeito aos direitos fundamentais dos seres
Vivemos hoje numa cultura que almeja a democracia, ou seja, uma ordem social pautada em valores como a justiça, a igualdade, a equidade e a participação coletiva na vida pública e política de todos os membros da sociedade, e esses são os valores basais da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Dessa maneira, os princípios presentes na referida declaração podem ser um guia de referência para a elaboração de projetos que objetivem a educação para a cidadania e para a construção de personalidades autônomas (ARAÚJO, 2000, p.102).
Assim, elencar valores comuns a uma sociedade democrática é importante para fugir do relativismo total, que leva ao individualismo exacerbado, mas também a um universalismo abstrato e autoritário. É necessário, portanto, que a construção seja contextualizada e desejada em cada relação social, e que se possam respeitar as diferenças, passando pela “incorporação de princípios e valores situados na confluência democrática entre direitos e liberdades individuais e os deveres para com a comunidade em que se vive” (BONOTTO, 2008a, p.297). Segundo a autora, os valores ambientalmente desejáveis constituem-se em mais uma base possível de trabalho relativo aos valores desejáveis a nossa sociedade (BONOTTO, 2008a, p.298).
Para esta construção, a autora se baseia nos princípios do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, documento elaborado no Fórum das ONGs, que se reuniu paralelamente às reuniões oficiais da ECO-92. Segundo Manzochi (1994, p.309), “estes valores se referem a duas esferas: uma, a da relação dos seres humanos entre si; a outra, a da relação dos seres humanos com os outros seres com os quais
compartilham o planeta”. Assim, de acordo com Bonotto (2008a, p. 299), o documento aponta
para práticas, ideias e princípios a serem assumidos como valores, considerando a:
- Valorização da vida: não somente a dos seres humanos, mas a de todos os seres vivos. Essa posição acarreta como consequência o respeito e valorização da biodiversidade e a necessidade de a sociedade rever sua posição em relação aos demais habitantes com os quais compartilha o planeta.
- Valorização da diversidade cultural: ao se valorizar a comunidade dos seres vivos de maneira ampla, incluem-se as sociedades humanas em seus aspectos não somente natural, mas também cultural. Isso se opõe a atitudes de desconsideração de outras culturas que não a nossa.
- Valorização de diferentes formas de conhecimento: ao valorizarmos diferentes culturas, também nos abrimos para as diferentes formas de conhecimento ou saberes, por elas
estabelecidos. Isso se contrapõe à hegemonia do conhecimento científico, então considerado superior e suficiente para apreender – e dominar – o mundo.
- Valorização de uma sociedade sustentável: busca-se um modelo de sociedade baseado na sustentabilidade equitativa e qualidade de vida para todos, no lugar da superprodução e superconsumo para alguns e consequente pobreza para a maioria, o que implica o reajuste dos modelos atuais da economia da tecnologia.
- Valorização de uma vida participativa: para a construção de uma sociedade justa, equilibrada, nos aspectos social e ambiental, despontam valores como responsabilidade, solidariedade, cooperação e diálogo, possibilitando a todos a participação, em um processo democrático e autônomo, nessa construção.
Bonotto (2008a) afirma que tais valores possibilitam orientar e sustentar práticas educativas em EA, e, para o desenvolvimento destas práticas, é necessário que sejam consideradas também as diferentes dimensões da natureza humana. Concordando também com Araújo (2000), que reconhece a necessidade de atuação nas diferentes dimensões do ser
humano para a construção da personalidade moral: “a sociocultural, a afetiva, a cognitiva e a
bio-fisiológica” (ARAÚJO, 2000, p.97), sem perder de vista a articulação entre elas e a dimensão da totalidade da personalidade.
Nesta perspectiva, refletimos sobre a relação entre a dimensão cognitiva e a dimensão afetiva, enfatizando a última. Estas dimensões deveriam caminhar juntas e articuladas, procurando superar uma das profundas dicotomias presentes na crise da modernidade – a da razão/emoção. Essa dicotomia levou, em um processo histórico marcado pelo cientificismo, a um total privilégio da razão, em contraponto a um profundo esquecimento da dimensão afetiva do ser humano, considerada como subjetiva e incalculável; manteve-se esta longe da objetividade e neutralidade pretendidas pelo conhecimento científico e tecnológico, até mesmo do conhecimento das relações humanas. Entretanto, a crítica à razão dominante perante um status de crise vigente, discutida hoje por filósofos, nos traz uma recontextualização da dimensão afetiva/emotiva em nossa realidade e na do ser humano.
Com isso, consideramos a afirmação de Goergen (2005, p.1006), de que temos privilegiado em nossa sociedade o conceito de educação voltado somente para o aspecto intelectual, “para aquisição de conhecimentos e informações para a interpretação do mundo e o preparo profissional”. O trabalho com a dimensão afetiva deve ser resgatado e reconsiderado em todos os espaços, escolares e não escolares. Assim, a consideração da dimensão afetiva é explicitada nas palavras de Nucci (2003, p.162), que expressa a ligação
entre moralidade e emoção: “En los sistemas vivos inteligentes no hay cognición sin afecto”.
O autor também salienta que “nuestros sentimientos no sólo acompañarían a nuestros pensamientos sino que también desempeñan una función dirigiendo nuestras decisiones”
(NUCCI, 2003, p.163). A relevância desta ligação muitas vezes é descartada, ou na medida do possível contabilizada, e desse modo a moralidade acaba tornando-se somente racional e integrante da via cognitiva.
Assim compreendido, concluímos juntamente com Nucci (2003) a necessidade do reconhecimento de que o desenvolvimento da dimensão afetiva nos sujeitos ocorre concomitantemente ao desenvolvimento cognitivo, não nos mesmos moldes deste, mas através das experiências e do ambiente afetivo em que vivem, na convivência frutífera com os próprios sentimentos e emoções.
Desse modo, considerando o quadro acima exposto, apresentamos a proposta de Bonotto (2003, p.58-59; 2008a, p.304) que, partindo da perspectiva apontada por Araújo (2000) e também da teoria de educação em valores de Puig (1998), elabora um modelo para o trabalho com valores tanto na educação quanto na EA, envolvendo três dimensões (Figura 2), que devem sempre estar articuladas, objetivando, de forma equilibrada, trabalhá-las intencionalmente. São elas:
- COGNIÇÃO: reflexão e apresentação de ideias, concepções, sentimentos e valores presentes no indivíduo e relativos a um foco de interesse (um dado assunto ou objeto, valores a ele associados ou, mesmo, um valor em si), permitindo a elaboração de compreensões, análises e juízos de valor a seu respeito;
- AFETIVIDADE: trabalho de sensibilização e envolvimento, identificação e expressão dos sentimentos; de apreciação estética com relação ao valor apresentado;
- AÇÃO: vivência e concretização de situações reais de envolvimento com o tema e valor apresentado/desejado, buscando a complexidade das experiências a serem tanto apreciadas como refletidas. A construção de um valor, em última instância, se revelará no plano da ação, como hábitos ou atitudes coerentes com o valor construído.
Payá Sánchez (2008) também reconhece que os valores envolvem diferentes aspectos que devem ser considerados conjuntamente:
Los valores son un instrumento de conocimiento, pero, sin embargo, no pueden quedar reducidos meramente a su función intelectual o cognitiva. Los valores desempeñan también una función afectiva, quizá la más característica, y una función volitiva o guía del comportamiento de la persona (PAYÁ SÁNCHEZ, 2008, p.1, grifos da autora).
Além disso, Buxarrais (2006) afirma que para a construção da personalidade moral é necessário o atendimento simultâneo das vias afetiva, cognitiva e volitiva. Assim, a perspectiva apontada por essas autoras corrobora com nosso referencial aqui assumido.
Consideramos, portanto, juntamente com Bonotto, que a construção de um valor deve procurar percorrer a via cognitiva, quando o mesmo é interpretado intelectualmente; a via afetiva, quando é apreendido emocionalmente através dos sentimentos, despertado pela sensibilização ou pela apreciação estética, e, por fim, quando há a oportunidade de ser vivido na prática, através da ação, mediada pelo nível volitivo, quando o valor é experienciado como uma oportunidade de realização de outras e novas formas de vida.
Desse modo, compreendemos que a proposta de educação em valores, sintetizada por Bonotto (2003), se insere nas práticas em EA como proposta real de trabalho, visto que, retomando a proposição das três dimensões que devem também ser igualmente consideradas nas práticas de EA, elaborada por Carvalho (2006), a autora insere sua proposta naquela
Figura 2: Modelo proposto por Bonotto (2003) para o trabalho com valores, em Bonotto e Carvalho (2012, p.45).
elaborada por este autor, esclarecendo a relação do trabalho com valores e as demais dimensões apontadas por ele para o trabalho com a EA (BONOTTO e CARVALHO, 2012, p.51). Esta inserção é visualizada na Figura 3. Ponderamos que a ligação entre estas diferentes dimensões distinguidas pelos autores naturalmente se realizam, e podem nos propiciar um maior aprofundamento no trabalho com a EA e seu conteúdo valorativo.
O modelo de educação em valores, construído por Bonotto (2003) e em concordância com outros autores (PAYÁ SÁNCHEZ, 2006; BUXARRAIS, 2008), reflete a busca pela união e articulação de posições muitas vezes consideradas contrárias e/ou intransponíveis para o homem moderno, e traz um retorno às discussões que iniciaram este capítulo, porquanto une a razão e a emoção como componentes importantes para a construção de valores. Une também o desenvolvimento cognitivo ao envolvimento afetivo, sem, contudo, deixar de lado a ação, a realização e vivência dos valores como forma de incorporação na vida pessoal e quiçá coletiva da sociedade.
A partir dessas ideias, e buscando contribuir com nosso quadro teórico de construção de valores, procuramos articulá-lo a uma perspectiva bakhtiniana. Assim, vislumbramos a possibilidade de construção e incorporação de valores novos ou aqueles a serem resgatados
Figura 3: Inserção da proposta de Bonotto (2008) na proposta de Carvalho (2006) (BONOTTO e CARVALHO, 2012, p.51).
frente aos anseios da sociedade a partir da proposta afirmada nas bases da vivência de uma
ideologia do cotidiano (BAKHTIN, 2006). Através do diálogo e da intencionalidade da
palavra-ação e, em meio aos inúmeros discursos da sociedade, podemos viver e fazer valer este discurso do dia-a-dia. Evidenciamos neste a possibilidade de que, em meio aos novos discursos, de palavra em palavra, de ação em ação, possa ser transformada a ideologia oficial baseada em um discurso único, possibilitando uma reorientação segundo uma nova prática social, na qual possamos retomar a dialética e buscar reverter o quadro de crise hoje instaurado.
Por isso, consideramos que a perspectiva trazida por Bakhtin, segundo a ideologia do cotidiano, pode contribuir em nosso quadro teórico de construção de valores, pois vislumbramos juntamente com o autor que a criação, o novo, o inacabado e a transformação, conceitos também caros em sua teoria, correspondem ao processo – sempre em construção, da sociedade e de seus valores.
Essa perspectiva vem ao encontro do conceito de Puig (2004) de práticas morais, as quais, segundo o autor, reproduzem a realidade, mas também a reinventam, à medida que apresentam aspectos do que é instituído, mas também, ao mesmo tempo, constituem o instituinte. Semelhante enfoque é trazido nos conceitos de Bakhtin ao discutir a ideologia do cotidiano (BAKHTIN 2006), que também se refere à criação do novo e ao inacabamento do homem e de seus discursos (BAKHTIN 2010). Estes conceitos trazem a possibilidade de criação do novo, mudanças e transformação em meio ao que é reproduzido, já instituído e estável, tal como a ideologia oficial, entre discursos e padrões de vida já estabelecidos.
Também ao tratar do diálogo, que Bakhtin (2010) apresenta a partir da manutenção da alteridade entre dois centros de valor, do eu e o outro, encontramos similaridades com nosso referencial trazido neste capítulo, o qual assume que a construção de valores visa o desenvolvimento da autonomia dos sujeitos (PUIG, 1998a). Ao visar o enfrentamento de situações controvertidas com diálogos que privilegiem a reciprocidade e a dialogicidade entre o eu e o outro, através da identificação de razões que possam subsidiar valores que satisfaçam a ambos, entendemos que o referencial adotado aproxima-se da promoção da alteridade na perspectiva bakhtiniana. Ainda neste sentido, relacionamos que os valores aqui trazidos como ambientalmente desejáveis (BONOTTO, 2008) poderiam subsidiar esta prática, que instauraria tanto a criação do novo, através de uma ideologia do cotidiano, quanto a manutenção dos centros de valor do eu e do outro, a partir do momento em que ressignificamos nossa relação com a natureza e com os outros seres humanos trabalhando com estes valores. Assim sendo, destacamos que essas relações nos possibilitam vislumbrar o
processo de construção de valores afirmado pelos autores trazidos neste capítulo, através do horizonte teórico bakhtiniano.
Assim, a partir do momento em que assumimos neste trabalho o diálogo como ponto de partida e chegada para a formação humana e de seus valores, adentramos em referenciais que admitem essa possibilidade, nos aproximando de Bakhtin e Vygotsky, que compreendem as relações humanas sempre mediadas pelo outro através do diálogo, seja visando à possibilidade de transformação do instituído ou para a aprendizagem.
Com isso, a relação entre os apontamentos destes referenciais traz acentuada relação com a EA e o trabalho com valores, e então, no intuito de aprofundar nossas reflexões nos apontamentos de Bakhtin e apoiando-nos também nas asserções de Vygotsky, apresentamos no próximo capítulo suas importantes contribuições a respeito do diálogo e as interações para a formação humana.
2 O DIÁLOGO NA CONSTRUÇÃO DE SABERES E VALORES: A PERSPECTIVA