Capítulo 1: Arando os campos da pesquisa
1.1 Uma Educação do e no Campo
1.1.2 Educação do Campo para quem?
A pergunta acima é o ponto de partida para uma compreensão mais vasta dos múltiplos contextos que a Educação do Campo busca problematizar. Quem, afinal, são os camponeses e as camponesas? Quem são os sujeitos da Educação do Campo?
Assim, nos parece bastante pertinente discutir, brevemente, alguns contextos históricos relevantes da organização social, econômica e política do campo brasileiro e o modo como foram discutidos dentro da academia em prol da Educação do Campo. Com isso, esperamos situar o debate e propor uma abordagem teórica sobre o campo.
Segundo Batista (2011), a base para a luta pela Educação dos camponeses e camponesas nasce da compreensão da questão agrária brasileira. Segundo a autora, “[...] as formas de distribuição das terras, a organização da produção, as relações sociais de produção, a finalidade da produção agropecuária, a comercialização dos produtos agrícolas, as políticas públicas entre outros aspectos que configuram o capitalismo na sua face rural” (2011, p.55) são aspectos indissociáveis da vida no campo e imprescindíveis na elaboração e construção de um currículo escolar capaz de abranger a sua realidade.
Como bem nos lembra Batista (2011), vale destacar que o território brasileiro, desde o processo de colonização em 1500, se organizou a partir de uma estrutura fundiária, onde a terra foi expropriada dos nativos que a habitavam e apropriada pela Coroa Portuguesa, sendo desta forma, dividida em grandes áreas e distribuídas entre colonos que possuíssem capital para explorar a terra e cultivar produtos para exportação. A situação praticamente não mudou até a Abolição, ou seja, os portugueses, sem dúvida, instauraram no Brasil uma civilização de raízes rurais (HOLANDA, 1997).
A partir de então, construiu-se, em contextos rurais, uma clivagem central que organiza o campo e o coloca como um dos seus eixos explicativos, até hoje. De uma maneira categórica, o mundo foi dividido entre aqueles que detêm a posse da terra e uma grande maioria cujo acesso à terra foi historicamente negado. Dessa maneira a desigualdade estrutural fundiária instaurada pelos portugueses culminou em relações sociais de produção, de exploração, de dominação que foram atualizadas e transformadas ao longo do tempo (HOLANDA, 1997). Assim, a posse de um lote e toda simbologia que dela decorre — o contato com a terra, a agricultura, a vida simples, etc. – são constantemente acionados pelos
camponeses e camponesas para explicar a situação presente, narrar grande parte de suas vidas e situar-se politicamente.
Nessa formação social, os diversos povos que construíram a nação brasileira desde índios, africanos desterrados e escravizados, mestiços que se tornaram pequenos posseiros vão compor uma grande massa de camponeses, que ao longo desse processo civilizatório liderado pelos senhores de engenho que acumulavam poderes políticos, econômicos, culturais, ideológicos, foram sujeitos das lutas travadas resultantes dos conflitos que esse modelo de sociedade imposto causou [...] (BATISTA, 2011, p.54).
Batista constrói conceitualmente uma diferença entre populações do campo e populações trabalhadoras do campo, já que este último grupo englobaria aqueles que realmente sofrem as discriminações e negações históricas advindas de um sistema latifundiário e excludente no campo. A autora, desse modo, chama à atenção para os aspectos contraditórios da vida do campo, ressaltando as diferenças e desigualdades econômicas entre os seus habitantes e a necessidade de diferentes formas de educação para essas populações, visando a construir currículos libertários para a grande massa pobre. Embora essa visão ofereça a vantagem de analisar o mundo rural dentro do seu aspecto econômico mais global (como exemplifica a tabela 1, com os dados compilados18 do Censo Agropecuário de 2006), ela subsume também uma enorme variedade de vivências e percepções do campo e sobre ele.
18 Os dados são do Censo Agropecuário 2006; foram compilados e colocados na tabela 1 deste texto. No Censo Agropecuário 2006 realizado pelo IBGE, não há menção ao agronegócio e nem à agricultura camponesa; ele menciona “grandes propriedades” , apresenta seu tamanho e traz dados da agricultura familiar, também apresentando o tamanho médio dessas propriedades. Utilizar os termos “agronegócio” e “agricultura camponesa” vem de um posicionamento político nosso a partir das leituras dos dados do censo. Também é possível observar esses valores da mesma forma que fizemos, no site do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA):
<http://mpabrasiles.wordpress.com/2010/02/18/censo-agropecuario-confirma-agricultura-camponesa-e-a- principal-produtora-de-alimentos-do-pais/> (último acesso em 22/04/2014). Esse mesmo tratamento de dados foi realizado por Gerson Teixeira do MST em 2009 e está disponível em <http://www.mst.org.br/node/8335> (último acesso em 22/04/2014).
Tabela 1: Agronegócio x Agricultura camponesa
Agronegócio Agricultura camponesa
86% do crédito 14% do crédito 76% das terras 24% das terras 62% da produção global 38% da produção global 30% da produção de comida 70% da produção de comida 26% da mão de obra ocupada 74% da mão de obra ocupada Fonte: Censo Agropecuário 2006 (dados compilados)
Se a Educação do Campo passa pela tomada de consciência da população camponesa, como essa situação foi percebida e analisada pela academia? E como a percepção da pobreza se dá nos saberes contidos no cotidiano do campo? Ainda que, ao partir desses números — e em cima de uma abordagem estritamente econômica – as questões históricas levantadas anteriormente se reafirmem, as apropriações e os conhecimentos advindos do campo não podem ser derivados somente dela. Segundo Almeida (2007), o universo camponês no Brasil pode ser mais bem analisado como:
[...] um mapa de famílias culturais associadas a grandes rotas de ocupação: manchas sertanejas, amazônicas e gaúchas, além de outras que resultam da imigração europeia, do Oriente próximo e do extremo Oriente. Essas manchas culturais são orientadas inicialmente por bacias hidrográficas: o Amazonas, o São Francisco, o Tietê, o Parnaíba, o Prata. Mas não se delimitam a essa matriz, pois tanto há uma diáspora cultural nordestina, como zonas de gradientes culturais, a exemplo do eixo que vai da pré-Amazônia maranhense ao sertão de Minas, passando pelas chapadas do planalto central goiano. Essas manchas revelaram sistemas cognitivos camponeses, sistemas jurídicos de herança e propriedade da terra, práticas de parentesco, religiões, manejo da natureza, técnicas de fabricação. (ALMEIDA, 2007, p.158).
A noção de campesinato como classe ou como sistema econômico, como defendido por Batista, é derivada dos estudos russos de Vladimir Chaynov (1966, 1985) e Karl Polanyi (1944). De acordo com os autores, o campesinato em sua abordagem econômica deveria ser analisado através de uma noção de um campesinato-classe e da sua potencialidade como sujeito de movimentos revolucionários — influenciados pela Guerra do Vietnã e pela Revolução Cubana — e como periferia da classe trabalhadora em um sistema mundial em expansão.
Desse modo, as décadas de 60 e 70 foram vividas com discussões sobre o desenvolvimento e o lugar dos camponeses e camponesas nesse processo. No Brasil, o camponês estava no meio desse debate na medida em que habitava regiões de fronteiras, que deveriam ser desbravadas para o desenvolvimento econômico do país.
O debate, iniciado entre leninistas e populistas russos, ganhou contornos internacionais e consequências locais na América Latina. Caio Prado Jr. (1966) afirmava que o campesinato tinha uma função essencial para a acumulação capitalista, fornecendo mão de obra barata e um mercado consumidor a ser expandido. No entanto, para ele, esse modelo — que teria funcionado na transição europeia do feudalismo para o capitalismo — era anacrônico demais para ser implementado no Brasil. Para Celso Furtado (1986), seria necessário fazer uma reforma agrária para articular o campesinato ao processo de acumulação e concretizar sua potencialidade como mercado: a solução do problema camponês seria a condição para o próprio desenvolvimento capitalista no Brasil. Para Francisco de Oliveira (1981), o camponês já ajudava a acumulação primitiva ao produzir bens abaixo do custo e fornecer mão de obra barata.
Desse modo, as sociedades camponesas tornaram-se um imenso foco de debates sobre a possibilidade da constituição do próprio Estado Nacional e sua viabilidade enquanto projeto. Em uma perspectiva geográfica, os camponeses e camponesas ou limitavam o desenvolvimento capitalista ao ocupar terras sem produzir de acordo com as necessidades do sistema ou, para outros como Otávio Velho (1972), amenizavam as tensões do sistema econômico ao limitar minimamente a concentração de terras.
Os estudos da economia rural camponesa, que haviam se limitado a discussões mais gerais de caráter nacional ou internacional, ganharam novos ares com a recusa de diferentes estudiosos em ver a organização rural como métodos ineficientes ou defasados de produção.19 O enfoque em diferentes modos de produção e na lógica doméstica da organização econômica - como representantes de instituições não mercantis de organização da produção, capazes de, pela ótica local, tratar a economia camponesa - levou a pensar seus sistemas também pela esfera da reciprocidade e redistribuição.20 Assim, em algumas análises, as tecnologias tradicionais são reavaliadas positivamente quando comparadas a tecnologias da revolução verde. Desse modo, o desenvolvimento inexorável por meio da
19 Palmeira (1969), Almeida (1995) e Sahlins (1972).
modernização tecnológica deixa de ser o único foco analítico possível, e a equiparação dos modos tradicionais e camponeses ao mesmo patamar das técnicas do agronegócio abre espaço para a análise dos modos de produção camponeses pelo seu próprio modo de pensar, suas cosmologias, sistemas de organização, rituais e festividades, e não mais como um devir incompleto de um sistema capitalista ou um meio caminho para o socialismo, mas sim como um sistema social que deve ser compreendido em seus próprios termos21.
Desta forma, dentro de uma perspectiva economicista, embora necessária, a partir de diferentes modos de produção, de relacionamento com o mundo, as técnicas e saberes foram reduzidos a debates sobre a potencialidade revolucionária do campesinato ou o seu entrave ao desenvolvimento das forças produtivas. Pensamos, então, que a Educação do Campo, para que se realize plenamente, tem de estar em contato com esses modos de pensar e viver o mundo, que, durante muito tempo, foram colocados de lado em prol dos debates sociológicos sobre a situação política do campesinato.
Ainda que os movimentos sociais saídos dessa condição de pauperização econômica tenham iniciado a discussão da Educação do Campo, é importante tomar certos cuidados para não tomarmos os movimentos sociais como um todo homogêneo, resistindo à tentação de tomá-los como uma comunidade. A ideia de comunidade que veio a ser expressa por tais movimentos pode ser vista como um “conceito intersticial” (BHABHA, 2007), isto é, os mesmos não constituem comunidades no sentido sociológico estrito. Essas comunidades criadas por tais movimentos sociais tendem a criar um espaço interno e limitado de relações que se pretendem igualitárias. No entanto, fora de tais movimentos, os indivíduos podem possuir hábitos, valores, crenças e profissões diversas. As comunidades, tais como são
21“(...) camponeses e sociedades agrárias — assim como seus atributos, tais como a agricultura de queimada, a rotação de campos, arado e charrua, a enxada e o machado; a crença na lua e nos santos –, tudo isso se localizava no interior de um grande romance do mundo contemporâneo. Nesse romance, ou nessa história especulativa, o mundo social é classificado em primitivos, camponeses e modernos, e esses personagens eram encadeados em uma ação cuja lógica era inelutável, agonística e antagônica. Nessa ação, o papel dos camponeses era intermediário: geograficamente situados na fronteira entre as paisagens primevas e as aglomerações industriais, temporalmente situados na passagem da barbárie dos coletores-caçadores para a ordem estatal; sociologicamente constituídos como um mosaico de relações de parentesco e de vizinhança; epistemologicamente encerrados em visões de mundo fechadas e arcaizantes; economicamente a meio caminho entre dádiva e mercado. Havia gêneros épicos, dramáticos e romanescos para tratar dessa transição; modos individuais e modos coletivos de trajetórias aventurosas ou melancólicas ‘do campo à cidade’. A grande narrativa acabou. Como uma máquina que se gasta, ela falhou primeiro e depois morreu, seu calor dissipado pelo atrito e perdido para o ar.” (ALMEIDA, 2007, p. 169)
criadas por movimentos sociais diversos, constituem um esforço de constituição de um espaço no qual se possa vivenciar, de maneira muito restrita, um sentimento de igualdade.
Desse modo, se, de um lado, concordamos com Batista (2011) — que a luta pela Educação do Campo advém da conscientização da situação econômica e social dos camponeses e camponesas —, por outro, é inegável que a apropriação desse debate pela academia acabou por esconder algumas formas de vivência rural. E, ademais, devemos ter em mente que os valores individuais e familiares são de suma importância para a compreensão dos conhecimentos e da situação dos camponeses e camponesas, dos movimentos sociais e do tipo de Educação que possa estar integrada com os anseios dessa população. Assim propomos que uma análise da Educação do Campo deva necessariamente estar vinculada com os valores morais de sua população e com suas vivências pessoais. A metodologia que buscamos aplicar neste trabalho traz as narrativas trabalhadas na forma de mônadas dos sujeitos praticantes do cotidiano de um acampamento rural, e, como veremos adiante, estas se mostram estratégicas para reconstituir as trajetórias e valores dos sujeitos da Educação do Campo.