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Capítulo 6 – Modelos de Formação

6.1. Educação e Formação: em busca da complementaridade

Analisemos, em primeiro lugar, a educação, que faz parte da nossa vida e condiciona-a profundamente.

Desde que nascemos que a sociedade nos ajuda no nosso processo de desenvolvimento. A educação é uma relação entre os seres humanos, um intercâmbio, uma cooperação com vista a aproximar o homem da perfeição.

Para Ribeiro Dias, a educação “parece envolver sempre a ideia de um processo de desenvolvimento, de algum modo natural e espontâneo e que se deseja global e harmónico, estruturado e hierarquizado, das capacidades do homem” (1993:4). Trata-se, afinal, de uma acção dinâmica entre dois sujeitos, um que educa e influencia e outro que é educado e influenciado. Podemos, assim, falar do processo educativo como um processo de comunicação interpessoal, que é estudado segundo perspectivas tão diversas como a psicológica, a tecnológica, a económica e a filosófica.

A esta ideia de processo pode juntar-se uma outra que é a de sistema, remetendo-nos esta perspectiva para o sistema educativo que, segundo a Lei de Bases do Sistema Educativo, é “o conjunto de meios pelo qual se concretiza o direito à educação, que se exprime pela garantia de uma permanente acção formativa orientada para favorecer o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade” (Lei nº 46/86, art. 1º). A escola aparece-nos no sistema educativo como o palco de acções educativas regulamentadas legalmente16.

Ribeiro Dias opera distinções claras entre conceitos que se encontram próximos, como os de educação, ensino, aprendizagem, estudo e formação. Assim, ensino “corresponde a uma transmissão de conhecimentos” (1993:4), a aprendizagem é “um processo de assimilação, organização e estruturação pessoal de conhecimentos” (idem:5) e o estudo vem completar a aprendizagem pela sua intencionalidade e sistematização conseguidas com o esforço e o trabalho. A pedagogia actual tenta aprofundar a relação entre estes três conceitos, conduzindo à busca do conhecimento.

16 Não devemos, contudo, esquecer outras instituições que, ligadas à escola e em interacção com ela, se encontram igualmente empenhadas na educação. Referimo-nos à família, aos meios de comunicação social, às associações recreativas e culturais, etc. De facto, a educação parece tender a desenvolver-se fora, quando não mesmo à margem, da escola.

Por último, a formação diz respeito à definição do “perfil de competências do indivíduo para realizar determinadas tarefas, ou, num sentido global, simplesmente, o mister do homem” (ibidem).

De acordo com Wexley e Latham, o propósito geral da formação “tem a ver com aquisição de conhecimento e de competências (...). Qualquer esforço de formação e desenvolvimento pode ter em vista um ou mais dos seguintes objectivos:

1 aumentar nos indivíduos níveis de auto-consciência;

2 aumentar competências individuais numa ou mais áreas de perícia; 3 aumentar nos indivíduos a motivação para desempenharem bem as suas

funções.” (1991:4)

Estes autores dizem-nos também que “formação e desenvolvimento são esforços planeados pelas organizações, com vista a facilitar a aprendizagem, por parte dos seus trabalhadores, de competências relacionadas com as suas funções” (idem:3).

Parece haver duas ideias transversais a todas estas definições. A primeira é a de que a formação é um processo sistemático planeado e controlado e não uma mera aprendizagem ao acaso a partir da experiência. A segunda assenta no facto de a formação visar alterar conceitos, competências e atitudes nos indivíduos e grupos.

A segunda definição da autoria de Wexley e Latham faz, contudo, referência a um aspecto que, em nosso entender, é decisivo para autonomizar a formação profissional das demais actividades de desenvolvimento - o aspecto organizacional. A formação deve procurar desenvolver o desempenho num trabalho presente ou futuro e, com isso, melhorar a eficácia da parte ou do todo da organização em que o indivíduo ou o grupo trabalha (Bramley, 1991).

As duas definições de formação que se seguem ajudarão a perceber o que defendemos. Uma primeira é da responsabilidade do Glossário de Formação do Departamento de Emprego inglês e entende a formação como:

“The systematic development of the attitude/knowledge/skill/behaviour pattern required by an individual to perform adequately a given task or job.” (citado por Bramley, 1991:xiv)

Esta definição, embora destaque a ideia de um processo sistemático de melhoria do desempenho da função, exclui grupos e equipas e ignora aspectos importantes do contexto organizacional.

Uma outra definição, da autoria de Hinrichs, vê a formação como:

“Any organizational initiated procedures which are intended to foster learning among organizational members in a direction contributing to organizational effectiveness.” (ibidem)

Com ou sem dimensão organizacional associada à educação/formação, tem havido, recentemente, um ressurgir da ideia da aprendizagem informal e da sua incontornável importância. Autores como Esclapez (2008) e Rosenberg (2007), ainda que por razões e com base em perspectivas diferentes, parecem dar razão ao actual movimento europeu de reconhecimento, validação e certificação de competências adquiridas ao longo da vida. De facto, há um consenso generalizado em torno da ideia de que a vida proporciona-nos aprendizagens que, apesar de não serem certificadas e legitimadas formalmente pela escola e por centros de formação, não são menos importantes e negligenciáveis. Trata-se de um saber contextualizado, útil para a resolução de problemas com que nos vamos confrontando no quotidiano e que, finalmente, mereceu a atenção dos organismos e equipas de investigação responsáveis por aproximar a educação e e a formação à vida.

Esta aprendizagem informal vê-se agora potenciada pelas novas tecnologias da informação e da comunicação, que trouxeram uma nova dimensão à educação e à formação, transformando de forma radical os processos educativos tradicionais. Como afirma Esclapez, “os espaços virtuais de formação permitem uma nova forma de comunicar, partilhar informação, aceder a múltiplas fontes, trabalhar colaborativamente e superar as limitações de tempo, espaço, idioma e conteúdo dos sistemas presenciais. As tecnologias permitem tornar realidade a ideia de uma educação para toda a vida, em todas as idades, em qualquer momento e em qualquer lugar (2008: 20). Rosenberg parece estar inteiramente de acordo com esta ideia da aprendizagem 24 horas por dia, 7 dias por semana, quando afirma:

“Another myth to consider is that the people who take training or e- learning are learners. (...) everyone, by their very nature, is a learner and is constantly learning”. (2007,23)

“Organizational learning and performance are facilitated through strategies and techniques that go far beyond training alone. This expanded view transcends the classroom, bringing learning and learning technology to the workplace, the home, the hotel room, and many other locales. Although e- learning began as a new way to deliver training, it cannot remain that way because it is no longer able to adequately support all the learning needs of individuals and organizations by itself – if it ever was. Is has moved in a new, somewhat unanticipated direction: a direction not always reminiscent of an instructional framework”. (idem:6)

A circunstância de se reconhecer que a aprendizagem informal, durante tanto tempo menosprezada ou subvalorizada, deve ser assumida como uma dimensão que tem importância decisiva nas formas dos indivíduos pensarem, viverem, agirem e sentirem, ao ponto de ser reclamada para efeitos de certificação, gera pressões e necessidades no que concerne à concepção e definição de standards e de quadros de referentes e, como tal, de novas formas de avaliação. A existirem dúvidas quanto ao facto de ser necessário repensar a avaliação da formação, a revitalização da aprendizagem informal e da sua importância tê-las-ão seguramente dissipado. Ou, pelo menos, deveriam tê-lo feito.