VII. Métodos
7.8 Educação e m Saúde
No decorrer da primeira fase do trabalho com a comunidade, através das primeiras entrevistas com osmoradores e pessoas-chave como agentes de saúde e professores, percebeu-se o desconhecimento sobre a esquistossomose e a demanda dos últimos por maior informação. A partir dessa demanda, foi planejado um curso, de 16 horas, destinado aos professores e profissionais de saúde e oficinas com duração de oito horas para a população em geral.
7.8.1 Ações de atualização dos conhecimentos
Um curso, com duração de 16 horas, foi ministrado com o objetivo de atualizar professores e profissionais de saúde local nos principais conceitos de esquistossomose e helmintos intestinais e comportamentos de higiene. O curso visou também desconstruir crenças e conceitos incorretos e/ou incompletos e construir conhecimentos sobre a doença contextualizados na realidade local. O curso inclui oficinas e práticas.
Outro curso com duração de oito horas foi ministrado para a população em geral.
Aulas práticas também foram ministradas com o objetivo de enriquecer os novos conceitos.
Os professores e profissionais de saúde que freqüentaram o curso foram mobilizados para serem pessoas-chave repassando as informações para seus alunos, outros professores e também à comunidade.
O curso buscou fazer uma transposição do conhecimento científico sobre esquistossomose para uma linguagem de divulgação científica, além de oficinas e práticas adaptadas para o contexto local. Foram incluídas aulas teóricas com especialistas convidados de cada área do conhecimento relativa ao tema e aulas práticas com o objetivo de enriquecer e sedimentar os novos conhecimentos. O conteúdo específico incluiu nas aulas expositivas questões como a chegada e instalação da doença no Brasil, a situação atual no país e o ciclo biológico do S.mansoni.
Os cursistas foram estimulados a trazerem relatos de suas experiências associadas à doença, questões, dúvidas, possíveis crenças e tratamentos alternativos, advindos de práticas locais.
Na parte prática, para efeito comparativo, foram apresentadas caixas com moluscos do gênero Biomphalaria, transmissores da esquistossomose e outras com moluscos não transmissores; foram feitas demonstrações de como osmoluscos deviam ser coletados, embalados, etiquetados e remetidos ao laboratório para análise; exames
com lupa de caramujos experimentalmente infectados, sob luz artificial e por esmagamento para observar a presença de cercarias (Anexo 3)
Em outras atividades foram dadas noções de diagnóstico, com ênfase no método quantitativo de Kato-Katz (Katz et al, 1972). Lâminas positivas foram colocadas em microscópios para observação dos ovos de S. mansoni e de outras verminoses (Anexo3).
O médico da equipe falou sobre sintomatologia, tratamento, cura e re-infecção, o que gerou alguns depoimentos dos cursistassobre suas vivências próprias com a doença e de seus familiares.
Foram apresentados aos professores e profissionais de saúde os resultados obtidos com a pesquisa, como: prevalência da doença nos escolares e nas famílias, percentuais de famílias que tinham acesso a rede de esgoto, de água, fossa, energia elétrica e destino do lixo; a freqüência e motivos pelos quais as pessoas da área tinham contato com as águas dos córregos e riachos do local; número e localização dos caramujos coletados com porcentagem de infectados.
As oficinas com a comunidade incluíram algumas apresentações do tema e práticas dialogadas adaptadas a partir do curso, sempre buscando uma aproximação com a realidade local. (Anexo 3)
7.8.2 Desenvolvimento de material educativo (Cartilhas sobre esquistossomose)
A informação e divulgação científica no Brasil ainda é uma área bastante inexplorada pelosmeios de comunicação em geral. A transposição do conhecimento científico requer uma linguagem apropriada para o público leigo e ilustrações igualmente adequadas que o permitam reconhecer os fenômenos e processos abordados.
Em geral, o conhecimento científico fica restrito aos meios acadêmicos, sendo necessário que alguns cientistas invistam no desenvolvimento de alternativas e processos que permitam ampliar o que denominam de alfabetização científica para a população, possibilitando a todos uma melhor compreensão do mundo em que vivem, maior capacidade crítica e participação cidadã, exercendo melhor vigilância sobre a própria vida e a sociedade. Na área da saúde esse investimento se torna uma responsabilidade social, considerando-se a importância da informação para a prevenção de doenças e para a realização e completude dos tratamentos.
Considerando tais aspectos, cartilhasinformativassobre esquistossomose foram desenvolvidas pela equipe a partir de experiências e dados obtidos em quatro
comunidades de áreas endêmicas. A adequação, repercussão, aceitação e opiniões dos professores, profissionais de saúde e grupos das comunidades envolvidas nas etapas anteriores foram incluídos no desenvolvimento das cartilhas. O material criado visa a ser oferecido para reprodução a órgãos governamentais, de modo a alcançar os profissionais que lidam quotidianamente com os problemas focalizados.
A originalidade da metodologia aplicada no desenvolvimento das cartilhas se baseia na transmissão de conhecimento científico em um contexto que tenta utilizar linguagem, personagens e situações do cotidiano. A proposta das cartilhas é de iniciar um processo de sensibilização e transformação de conceitos da doença e da saúde em geral de forma participativa. A metodologia apresentada enquadra-se numa estratégia que complementa as ações integradas de controle da esquistossomose.