CAPÍTULO 2 EDUCAÇÃO E TRABALHO MECANISMO PARA O
2.3. Educação e Trabalho no contexto Profissional
A educação e a formação profissional aparecem hoje como questões centrais para a inserção no mercado de trabalho, pois elas são conferidas como funções essencialmente instrumentais que possibilitam a competitividade e intensifica a concorrência, a adaptando trabalhadores às mudanças técnicas e minimizando os efeitos do desemprego.
Segundo a LDB 9394/96 (1996, p. 27) “a educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou por diferentes estratégias de educação continuada, em instituições especializadas ou no ambiente de trabalho”. Vemos que a educação profissional está vinculada ao trabalho, já que a Lei deixa bem claro que ela pode ser desenvolvida em vários ambientes.
Sousa (2007, p. 45) destaca que “a educação profissional se insere no contexto da hegemonia das políticas neoliberais e se afina à política de redução das funções e do papel do estado favorecendo as regras do mercado no campo educacional”. O autor vem fazer alusão a LDB 9394/96, pois segundo os dispositivos legais a educação pode acontecer em vários espaços, mas o mesmo ressalta da redução que ocorreu, pois a educação profissional ocorre separada da educação básica, fazendo com que o aprendizado oferecido por essa categoria seja aligeirada para o ensino de formação profissional.
Para Neves (2005), a formação técnico-profissional ficou no passado, pois a educação profissional hoje se constituiu em uma educação compensatória à escolarização regular das
massas trabalhadoras. O autor ainda destaca que essa consolidação ocorreu com o fordismo como modelo dominante nos países de capitalismo central, a educação profissional tem se voltado de um modo geral, para conduzir permanentemente ao desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva.
Machado (1991) destaca que não basta só saber o domínio das técnicas, mas faz-se necessário saber colocar em prática.
Não é suficiente apenas um domínio das técnicas: faz-se necessário dominá-las a um nível intelectual. Além da iniciação no manejo das ferramentas básicas utilizadas nas diversas atividades de trabalho, é fundamental permitir à criança e ao jovem o acesso aos conhecimentos necessários à compreensão científica do objeto em estudo, seja ela uma máquina, um fenômeno da natureza ou uma relação socialmente produzida (Machado. 1991, p. 129).
O autor deixa bem claro, que a formação profissional é uma iniciação no manejo das ferramentas básicas utilizadas nas diversas atividades de trabalho, o qual é fundamental permitir aos estudantes o acesso aos conhecimentos necessário à compreensão cientifica e também a utilização de ferramentas que são disponíveis de acordo com a formação que está sendo oferecida, ele também fala da necessidade do domínio da técnica em um nível intelectual, o que requer um momento reflexivo sobre a técnica, deixando de ser um trabalho meramente mecânico. Segundo Paiva (1995):
O ensino profissional de qualquer nível precisa ter uma nova qualidade: precisa apoiar-se sobre base geral mais solida sobre a formação intelectual abstrata e mais ampla conhecimentos e informações, sobre novas virtudes e disposições psíquicas pessoais e sobre melhores conhecimentos especificamente profissionais. Precisa abrir múltiplos caminhos, tornando possível tanto a especialização crescente (polarização) dentro do mercado formal, quanto as diferentes graduações de inclusão/exclusão, voluntárias ou forçadas em diferentes momentos de sua vida, confrontar-se com o desemprego e/ou com múltiplas e novas formas de subemprego, e com a possibilidade de optar por atividades alternativas (Paiva. 1995, p. 89).
Para autora, a educação profissional tem que oferecer diferentes técnicas que possibilitem ao indivíduo um crescimento teórico e prático, de modo que esse conhecimento possibilite a inserção no mercado de trabalho.
Nesse sentido, a educação e o trabalho estão ligados ao novo contexto de trabalhadores qualificados e com habilidades que lhe permitam inserir-se no mercado de trabalho. Segundo Ramon Oliveira (2001b, p.32), “estas novas habilidades e comportamentos tais como flexibilidade, capacidade de comunicação, participação, são considerados fundamentais dentro de um modelo de produção que busca superar a rigidez do modelo taylorista”.
O autor retrata que o indivíduo para ter uma educação profissional de qualidade é preciso que a escola que está lhe formando tenha capacidade de garantir um ensino básico que oportunize novos conhecimentos em que o/a aluno/a aproprie-se de novos comportamentos como flexibilidade, participação, entre outros, para que assim possa se desenvolver no mercado de trabalho.
Ramon de Oliveira (2001b) destaca ainda:
O principal agente público responsável pela formação de mão de obra para as áreas profissionais continua sendo o Ministério da Educação. Este mantém-se responsável pelas instituições formadoras de técnicos nas escolas técnicas, agrotécnicas e CEFETs espalhadas por todo Brasil, bom como de profissionais com graduação e pós graduação nas universidades federais e CEFEFs. Entretanto, se a este Ministério está resguardada a responsabilidade por uma parcela tão importante de instituições de formação profissional, há de ser reconhecido o papel do Ministério do Trabalho na coordenação e propagação das ações visando atingir um maior número de pessoas que, em várias ocasiões em virtude de terem um nível de escolarização muito baixo, são condenadas duplamente. Primeiro, por não conseguirem continuar inseridas no mercado de trabalho, uma vez que há uma contínua exigência do setor produtivo por profissionais de um maior nível de escolarização. E segundo, porque virtude do seu grau de escolarização, estão alijadas da participação de um processo de requalificação, seja no espaço formal ou informal da educação profissional, visto que na maioria dos casos, são destinados a portadores do ensino fundamental ( Ramon Oliveira. 2001b, p.33).
O autor traz uma grande contribuição acerca dos responsáveis pela formação profissional dos trabalhadores, pois sabemos que as instituições de educação profissional não estão ligadas a nenhuma instância governamental, desse modo elas fazem parte do Ministério da Educação, o qual foi fundador das escolas técnicas federais, e que seu papel era garantir uma educação que possibilitasse a inserção no mercado de trabalho. O mesmo faz uma ressalva ao Ministério do Trabalho que exigia profissionais com um nível de escolarização elevado para o setor produtivo, principalmente pessoas que não tiveram oportunidades de ter escolarização na idade permitida, e também porque as escolas públicas do ensino regular tem um grande déficit no ensino.
Desse modo, faz-se necessário uma articulação entre ministério da educação e ministério do trabalho, para que assim possa fazer a inserção dos alunos no mercado de trabalho.
Diante dessa exigência de uma educação profissional de qualidade e pessoas que saibam desempenhar suas atividades com veemência, o Ministério do Trabalho (1996) garantiu uma expansão da oferta de formação profissional para setores com grandes dificuldades de inserção no mercado de trabalho, oportunizando assim um conjunto de estratégias articuladas com as secretarias estaduais de trabalho e diversas instâncias da
sociedade, objetivando atingir, até o ano de 1999, pelo menos 15 milhões de trabalhadores anualmente, número equivalente a cerca de 20% da população economicamente ativa no Brasil (Brasil, MT/SEFOR, 1999).
O Ministério do Trabalho definiu como estratégia de política pública de emprego e renda o desenvolvimento de novas habilidades da população, de forma que a mesma, possa pelo menos, ter a oportunidade de responder os requesitos e demandas do mercado (Ramon de Oliveira, 2001b).
As habilidades esperadas pelo processo de formação profissional instituído pelo Ministério do Trabalho são:
Habilidades básicas, entendidas como o domínio funcional da leitura, escrita e cálculo, no contexto do cotidiano pessoal e profissional, além de outros aspectos cognitivos e relacionais – como raciocínio, capacidade de abstração – necessárias tanto para trabalhar como para viver na sociedade moderna; Habilidades especificas, definidas como atitudes, conhecimentos técnicos e competências demandadas por ocupações do mercado de trabalho, especialmente tendo em vista os processos de reestruturação produtiva que atingem tanto empresas como as de pequeno porte e mesmo o mercado informal; Habilidades de gestão, compreendidas como competências de auto-gestão, associativas e de empreendimento, fundamentais para a geração de trabalho e renda (Brasil, MTb/SEFOR. 1995, p. 18).
As habilidades sugeridas pelo Ministério do Trabalho em 1995 foram bem pensadas, e que atualmente são utilizadas pelas escolas técnicas, pois sabemos que todo ser humano tem diversas habilidades, e ter o domínio da escrita, leitura e cálculo é fundamental para a inserção no mercado de trabalho, mas que não devemos deixar de considerar as diversas habilidades e competências que o ser humano traz consigo.
Para Ramon de Oliveira (2001b), o fato do Ministério do Trabalho reconhecer a existência de instituições responsáveis pela formação profissionais sendo, inclusive, algumas delas como SENAI, SENAC e outras ligadas ao governo federal, de excelência comprovada, mostrou que as mesmas não conseguem responder com satisfação e eficácia às demandas imposta pelo mercado de trabalho.
Nesse sentido, o Ministério do Trabalho faz algumas críticas às instituições de formação profissional:
Tais mudanças explicitaram ou tornaram mais aguda à crise de modelos tradicionais de Educação Profissional, em particular os mais antigos e consolidados, como o SENAI, SENAC e escolas técnicas federais. Defrontaram-se com um novo perfil de trabalho e qualificação exigido pelo setor produtivo, no contexto de democratização e participação, mas também de crise econômica e debilidade do modelo de emprego tradicional. Estavam preparadas para ministrar uma formação única, sólida, até, para um bom e estável emprego; não para a
mudança, a flexibilidade, a polivalência cobradas pelo setor produtivo. Sabiam disciplinar para a assiduidade, pontualidade e obediência; não para a iniciativa, o imprevisto, a decisão e a responsabilidade. Muitas dispunham de laboratórios, oficinas e técnicos de primeiro mundo, adequados a um setor de ponta cada vez mais enxuto; não concebiam abrir tudo isso à massa crescente de trabalhadores e produtores “informais”. Dominavam tecnologias de produção de currículos e materiais didáticos pedagogicamente corretos, mas fora da lógica do setor produtivo. Formavam premiados “operários-padrão”, bons técnicos e ótimos vestibulandos; mas não tinham estratégias para formar cidadãos (Brasil, MTb/SEFOR. 1998, p. 4).
O Ministério do Trabalho retrata bem o funcionamento das escolas técnicas, mostrando que sua concepção foi gerida para uma educação de obediência aos donos das empresas.
Vemos que a formação profissional hoje está relacionada às habilidades e competências que o sujeito tem, pois, além disso, o mercado de trabalho possibilita uma competitividade e intensifica a concorrência entre trabalhadores, fazendo com que os profissionais qualificam-se cada vez mais.
Se nada mais mudar, quanto mais instruídos forem os trabalhadores de um país, maiores serão suas possibilidades de absorver as tecnologias predominantes, e assim chegar a um crescimento rápido da produção. (...) O desenvolvimento econômico oferece aos participantes do mercado de trabalho oportunidades novas e em rápida mudança (Banco Mundial. 1995, p. 26-35).
O banco mundial faz uma apologia sobre a formação desses novos trabalhadores que o mercado solicita, lembrando-nos que as mudanças no mundo do trabalho ocorrem a cada instante e cabe ao ser humano acompanhar essas mudanças através das qualificações profissionais que são oferecidas nos diversos setores do mundo do trabalho.
Segundo Ramon de Oliveira (2001b), o processo de qualificação profissional sugerido pelo Ministério do Trabalho é articular educação e emprego, ou seja, optar pelo conceito de empregabilidade para justificar a necessidade de expansão da oferta de qualificação profissional.