e programas municipais
3.3 Educação infantil nas creches municipais
As orientações do programa creches Casulo, do governo federal, chegaram a Patos de Minas no fim da década de 80, através do programa municipal de creches (lei 2.298/1987); e foi gerenciado pela secretaria de Saúde e Assistência Social (SMSAS).15 Esse documento, no artigo 2º, traz como objetivos do programa:
I – a implantação de creches no município; II – desenvolver atividades de assistência pedagógica, médica, alimentar e social às crianças carentes na faixa etária de 0 a 6 anos de idade; III – fomentar a atuação da comunidade na solução de questões relativas à criança carente e IV – promover a integração social da criança e sua família. (PATOS DE MINAS, 1987).
O Casulo foi planejado para combinar custos baixos e aproveitar recursos comunitários. Tinha como proposta inicial o trabalho experimental, que encamparia quatro estados. A partir de 1981, transformou-se no programa central da Legião Brasileira de Assistência (LBA) e, quiçá, no único programa nacional de creches. Campos (2001) ressalta que, por atuar pelo estabelecimento de convênios — repasse das verbas às prefeituras ou diretamente às instituições —, esse programa teve disseminação rápida.
A LBA, [...] propõe-se a executar o Projeto, objetivando o atendimento ao maior número de crianças, com reduzido custo operacional. A operacionalização do projeto prevê a mobilização de entidades governamentais e particulares, além de outros recursos comunitários e será implantado em todo território nacional. (BRASIL, 1977).
O público-alvo era a população de baixa renda; o objetivo, atender ao maior número de crianças a um baixo custo, em todos os municípios. Correa (2002) ressalta que essa concepção de atendimento baseava-se na crença de baixar índices de reprovação na primeira série de ensino fundamental. Pelos documentos analisados é possível perceber que Patos de Minas iniciou o atendimento em creche e pré-escola em horário integral com o programa de creches municipais associado ao programa Casulo e elaborado pela secretaria de Saúde e Assistência Social.16 As creches foram instaladas onde funcionava alguma instituição; por exemplo, a Creche Pinóquio foi instalada em uma escola desativada; a Branca de Neve, onde funcionava o CIAME; a Três Porquinhos, foi anexada ao prédio do programa de atendimento ao menor; e as creches Pato Donald e Cebolinha foram anexadas em uma lavanderia comunitária.
Também foram criadas creches nas microunidades de produção, ou seja, em galpões para fabricar sabão, para costura e lavanderia, com sala apropriada, conforme os padrões da LBA, para o atendimento de crianças com idade menor que 6 anos. O uso dessas instalações era comunitário, e a creche devia receber, de preferência, filhos de trabalhadoras das cooperativas, de modo a aproveitar o espaço destas; e o atendimento era integral (oito horas diárias). Dada a demanda, esse atendimento foi estendido à comunidade. As crianças na faixa etária 2–6 anos foram o foco. De início, foram criadas as creches descritas no quadro a seguir.
16 Este projeto, embora com o mesmo nome do projeto do governo federal, foi elaborado e conduzido pela
QUADRO 21
Creches projeto Casulo em Patos de Minas, MG
CENTROS MUNICIPAIS ]DE EDUCAÇÃO INFANTIL DATA DE CRIAÇÃO N. DE CRIANÇAS N. DE MONITORES Creche Pinóquio (Escola Estadual desativada) 21/09/1987 100 03 Creche Branca de Neve (Antigo CIAME) 22/09/1986 80 02 Creche Três Porquinhos (Anexa ao Programa
de Atendimento ao Menor) 07/06/1988 60 01 Creche Cebolinha (Anexa a uma lavanderia
comunitária)
28/07/1987 60 01 Creche Pato Donald (Anexa a uma lavanderia
comunitária) 06/08/1987 32 01
Fonte: PATOS DE MINAS, 1987.
O quadro demonstra que o número de crianças em sala era grande e que a razão entre adulto e criança não seguia norma técnica. Essa afirmativa se confirma ao analisarmos, no Quadro 21, a Creche Pinóquio, com cem crianças matriculadas para três monitores; o que dá uma razão de mais de 30 crianças por adulto. A proposta das creches municipais nesse período foi oferecer alimentação, segurança, higiene e atividades recreativas. Seguindo as características do projeto do governo federal, constatamos que houve o aproveitamento de prédios públicos e, sobretudo, inserção das mães no mercado de trabalho como forma de melhorar a renda familiar. E não por acaso, pois essa finalidade acompanhou a creche desde a sua origem no Brasil. Kuhlmann Júnior (1998, p. 83) enfatiza que “[...] a chamada creche popular foi criada — e até hoje ainda mantém muito dessa característica — mais para atender às mães trabalhadoras domésticas, do que às operárias industriais”. Noutros termos, as primeiras creches municipais começaram seu atendimento sem infraestrutura física adequada e visando ao reaproveitamento de espaços ociosos construídos para outros fins, com adequações precárias ao atendimento das crianças mais necessitadas.
O documento “Projeto creches Casulo”, elaborado pelo município de Patos de Minas, traz em seu bojo uma concepção de atendimento para a criança pobre em que considera que “[...] as creches surgiram para resolver o problema dos filhos menores que ficam em casa sozinhos quando a mãe ou irmãos maiores saem para trabalhar” (PATOS DE MINAS, 1987). O documento esclarece ainda que a “[...] criação de unidades para atender o menor no município se deu por diferentes fatores, mas com um ponto em comum que é aquele de favorecer diretamente ou indiretamente a renda familiar”. Kuhlmann Júnior (1998, p. 28) pontua que “[...] o assistencialismo foi configurado como uma proposta educacional específica para esse setor social, dirigida para a submissão não só das famílias, mas também das crianças das classes populares”.
O início dos anos 90 foi uma época em que os princípios do neoliberalismo — redução do gasto social pelo Estado e focalização das políticas sociais e pelas orientações dos organismos financeiros internacionais — tiveram grande alcance no país. Foi criado o Programa Nacional de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente (PRONAICA) — lei federal 8.642/1993, que dispõe sobre a instituição do Programa Nacional de Atenção a Criança e ao Adolescente. O município de Patos de Minas foi contemplado com uma unidade desse programa: o Centro de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente (CAIC), composto por vários programas de atendimento à criança e ao adolescente; dentre estes, uma creche, construída segundo os padrões do governo federal. Compõe-se de um bloco compacto formado por oito salas de atendimento — estrutura administrativa, sala de diretor, almoxarifado, além da cozinha e banheiros. Salas para berçário são diferenciadas. A creche foi inaugurada em 1994, com a escola, e desde então recebe crianças na fixa etária 0–5/6 anos em horário integral.
No início do governo de Fernando H. Cardoso, o programa foi extraído e sua administração, repassada para os municípios. Os CAICs foram entregues às prefeituras, que tiveram de arcar sozinhas com as despesas de manutenção e desenvolvimento dos programas. As creches eram gerenciadas pela secretaria de Saúde e Assistência Social. Foram ainda criadas creches com a perspectiva de aproveitamento dos espaços ociosos, objetivando à parceria com a comunidade. Ressaltamos a atuação da Secretaria de Estado do Trabalho, da Assistência Social, da Criança e do Adolescente (SETASCAD), que, em conjunto com a comunidade via conselho comunitário, possibilitou criar quatro instituições de educação infantil anexas a microunidades de produção. Nesse período, foram criadas, ainda, outras instituições destinadas a crianças de 0 a 6 anos de idade sob a tutela da SMSTAS; com exceção de três criadas entre 2000 e 2010, sob a responsabilidade da SEMED. Não eram exigidas do profissional que atuava nas creches formação ou experiência profissional. Kramer (2005, p. 120) afirma que
[...] essa realidade se impõe de forma contundente, pois profissionais não habilitados legalmente se dedicam ao atendimento de uma parcela significativa da população de 0 a 6 anos, tentando suprir a omissão e ineficiência do poder público.
Na questão do pessoal, além de os profissionais não terem qualificação necessária, o trabalho desenvolvido não se configurava, de fato, como profissão que exigisse qualificação. Isso demonstra que, historicamente, a creche esteve ligada a uma visão de atendimento para famílias pobres que não tinham condições de pagar uma instituição para
cuidar de suas crianças. As expressões “pajens”, “crecheiras”, “agente educativo”, “auxiliar educacional”, e “recreacionista”, usadas para designar o profissional atuante então e agora reforçam essa estrutura. O quadro a seguir mostra a evolução da criação das creches no município de Patos de Minas:
QUADRO 22
Evolução da criação das creches no município de Patos de Minas – MG
MEIO URBANO
Centros municipais de educação infantil Data de criação Programa
Associação do Centro Comunitário Infantil Teba 1990 Recriança Creche Vovó Calu — Recriança
Creche Colibri 23/10/1991 SETASCAD Microunidade de Produção (lavanderia)
Creche Criança Feliz 18/11/1991 SETASCAD Microunidade de Produção (lavanderia)
Creche Ivalda Alves 5/9/1991 Microunidade de Produção (costura)
Creche Balãozinho Azul — Microunidade de Produção (sabão)
Creche Vovó Chiquinha 18/9/1991 Anexa ao centro de bairros do Cristavo
Creche CAIC 1994 PRONAICA Creche Leonides Alves da Rocha* 11/5/2000 — Creche Tia Celinha* 7/2008 — Creche Vovó Lindoca* 2010 —
MEIO RURAL
Centros municipais de
educação infantil Região Data de criação Programa
Creche D. Sinhá Areado 1992 — Creche Arco-íris Santana de Patos 1992 — Creche Patotinha Pilar 06/07/1992 — Creche Vereador Zé Mota Pindaíbas — —
Fonte: dados da pesquisa.
O atendimento a crianças de 0 a 5/6 anos de idade no município acontece em CMEIs, para crianças na faixa etária 6 meses–5 anos no período integral; em escolas municipais, para crianças com idade de 4 a 5 anos, em período parcial; em instituições particulares, que atendem crianças de 6 meses a 5 anos de idade, em período integral e parcial; enfim, em instituições filantrópicas conveniadas com a prefeitura, que atendem crianças cuja idade varia de 6 meses a 5 anos em período integral. O atendimento está situado em pontos periféricos definidos por programas já mencionados; considere-se que não houve planejamento inicial para sua construção, e sim reaproveitamento de espaços. Somam 19 unidades, das quais duas são anexas a outras. Grande parte originou-se do projeto Casulo, voltado à população de baixa renda. Os locais onde estão situados os CMEIs não foram escolhidos para a função a que se destinam, ou seja, não têm estrutura física adequada. O quadro as seguir caracteriza e quantifica esses centros.
QUADRO 23
Centros de educação infantil no município de Patos de Minas, MG — 2011
4 Centros municipais de educação infantil anexos às microunidades de produção: Colibri, Ivalda Alves, Criança Feliz., Balãozinho Azul# (CMEI anexo).
5 (3 urbanos e 2 rurais*) Centros municipais de educação infantil anexos às escolas e núcleo assistencial: Cebolinha, CAIC, Vovó Chiquinha, Dona Sinhá*, Patotinha*.
5 (3 urbanos e 2 rurais) centro de educação infantil em prédio próprio: Branca de Neve, CCI Teba, Leonides, Alves da Rocha, Arco-Iris*, Ver. Zé Mota*.
4 (3 urbanos e 1 rural*) centros municipais de educação infantil em prédio alugado: Tia Celinha# (CMEI anexo), Pato Donald, Vovó Lindoca e Casinha Feliz*
1 Centro Municipal de Educação Infantil em prédio cedido pelo governo: Pinóquio.
*Localizados no meio rural #Anexo ao CMEI CCI Teba. Fonte: dados da pesquisa.
Até 2008, os CMEIs anexos às microunidades de produção atendiam uma única turma de, no máximo, 24 crianças. Tinham duas salas: uma sala para atividades diversificadas, outra para repouso. A partir de 2008, passaram a atender mais uma turma, totalizando 40 crianças. Foi uma tentativa de suprir a demanda reprimida. Mas nenhuma melhoria foi realizada na rede física dessas instituições, e as dificuldades ainda são patentes. Isso causou transtorno no atendimento, por exemplo, a existência de um banheiro e um vaso sanitário para uma quantidade tal de crianças, dificultando a organização da rotina e o trabalho pedagógico.
3.4 Materialidade das políticas de educação infantil nos documentos do MEC