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A publicação Balanço 2012 da Secretaria de Educação afirma que “nestes estabelecimentos é adotada a concepção de educação interdimensional e desenvolvido o protagonismo juvenil, ideias que promovem a valorização e autonomia do alunado” (PERNAMBUCO, 2012a). Esta proposta foi desenvolvida por Costa (2007) através da sua empresa Modus Faciendi, que presta consultoria a diversas instituições do Terceiro Setor, entre as quais o Instituto Ayrton Senna e também contribuiu de forma efetiva para a implementação do PEI em Pernambuco. Portanto, na Proposta Curricular para o Ensino Médio Integral o termo Protagonismo Juvenil é “compreendido, aceito e praticado enquanto um laboratório de educação para valores” (PERNAMBUCO, 2010). É importante destacar que tal concepção adotada no currículo do Ensino Médio do governo Eduardo é a mesma formulada no governo Jarbas.

Segundo o autor, o termo protagonismo juvenil, enquanto ação educativa, diz respeito à “criação de espaços e condições capazes de possibilitar aos jovens envolver-se em atividades direcionadas a solução de problemas reais, atuando como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso” (COSTA, 2007, p. 7). Nesta perspectiva a educação não deve se limitar a dimensão dos conteúdos intelectuais, cujos professores são seus transmissores. Os valores mais do que transmitidos devem ser vividos. No interior dessa pedagogia os estudantes são vistos como “fontes autênticas de iniciativa, compromisso e liberdade”. Esta concepção de estudante, nas palavras do autor, nos leva, “necessariamente, à formação do jovem autônomo, solidário e competente”.

A palavra competência é utilizada no sentido atribuído ao termo no “Relatório Jacques Delors”, produzido por educadores para UNESCO, que sustenta que a Educação no século XXI deverá ser cada vez mais pluridimensional. Assim, a palavra competência no relatório tem o seguinte sentido:

Mais do que acumular uma carga cada vez mais pesada de conhecimentos, o importante agora é estar apto para aproveitar, do começo ao fim da vida, as oportunidades de aprofundar e enriquecer esses primeiros conhecimentos num mundo em permanente e acelerada mudança (COSTA, 2007, p. 5).

Uma proposta curricular assentada na ideia das competências, apesar de aparecer nos discursos como avanço, permite um estreitamento não apenas curricular, já que busca incessantemente a objetividade na busca por resultados, mas também uma limitação na formação da juventude. Pois, preso a um fazer lógico, permite a dominação por meio do conhecimento, na chamada economia do saber (MAUÉS 2009). Portanto, aos jovens não basta ter acesso a um conhecimento crítico, mas necessitam compreender os fenômenos da atualidade em suas muitas interações e determinações além de entenderem que estes são parte de um processo histórico único e geral de desenvolvimento, é preciso conhecer a essência dialética das relações que nos cercam.

A proposta curricular das EREMs foi construída por professores, a primeira foi elaborada em 2008. Segundo consta no documento Proposta Curricular para o Ensino Médio Integral, esta foi reavaliada em 2010 após uma ampla discussão com “mais de quinhentos educadores das escolas técnicas e de referência, em encontros periódicos”. Ainda de acordo com o documento analisado, a nova proposta buscou uma aproximação cada vez maior entre os seguintes documentos: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN/96), Parâmetros Curriculares Nacionais, Base Curricular Comum do Estado de Pernambuco (BCC), Orientações Curriculares Teórico-Metodológicos do Ensino Médio (OTM).

Ao longo da reconstrução da Proposta Curricular, em 2010, foram inseridas as “competências e habilidades, conteúdos e formas de tratamento dos conteúdos, previstas pelas finalidades da LDBEN/96”. Baseados nas premissas presentes nos documentos legais que serviram de base para a Proposta Curricular, espera-se do Ensino Médio o desenvolvimento de capacidades que permitam aos jovens:

I- avançar em níveis mais complexos de estudos;

II- integrar-se ao mundo do trabalho, com condições para prosseguir, com autonomia, no caminho de seu aprimoramento profissional;

III- atuar, de forma ética e responsável, na sociedade, tendo em vista as diferentes dimensões da prática social (PERNAMBUCO, 2010).

Em 2008 foram reunidos 880 (oitocentos e oitenta) professores com os formadores que foram selecionados entre aqueles de melhores resultados. Esse grupo de professores-formadores a cada ano aumenta em número. Inicialmente foram orientados a acessarem todos os instrumentos normativos sobre o currículo, bem como todas as propostas de vestibular e a partir desse conjunto de elementos consolidaram uma proposta. Depois desse momento os professores foram reunidos por região e de acordo com as seguintes áreas: Ciências, Natureza e Matemática; Linguagem, Código e Ciências Humanas. Nesses grupos discutiam as propostas e tiraram um consolidado de cada região. Os formadores reuniram as propostas de todas as regiões e assim foi construída a primeira proposta curricular (...) (COORDENADORA PEDAGÓGICA)

Para ela, essa foi uma proposta “conteudista”, o que, no entanto, não era exatamente a ideia que tinha, na visão da coordenadora, pois pretendia fazer uma proposta diferente com base no desenvolvimento de competências e habilidades. Porém, “os professores não estavam preparados para isso”. Em 2010, como já tratado acima, houve uma reformulação da proposta curricular construída com bases nas competências e habilidades, que de acordo com a entrevistada foi

um processo difícil devido à deficiência na formação do professor que não contempla o trabalho a partir desses matizes além de ser uma proposta ainda com muitas competências e habilidades já representa um avanço em relação à proposta anterior. A maior dificuldade efetivamente estar na avaliação, ou seja, como avaliar a partir das competências e habilidades. (COORDENADORA PEDAGÓGICA)

Nesta perspectiva, o termo “educação interdimensional” presente na Proposta curricular para o Ensino Médio Integral se fundamenta na proposta de Costa (2007), que contempla ações direcionadas ao desenvolvimento das quatro dimensões do ser humano: logos (racionalidade), o pathos (afetividade), o eros (corporeidade) e o mytho (espiritualidade) (PERNAMBUCO, 2010). A proposta desse autor pressupõe a “criação de uma nova educação, que seja capaz de reequilibrar as relações do logos, o mytho, e o eros de forma mais inteligente e harmônica” (COSTA, 2008, p. 20). Esse conceito baseia-se nos quatro pilares estruturadores do “Relatório Jacques Delors”: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer e aprender a aprender.

Nessa direção caminha a coordenadora pedagógica do PEI quando diz que a filosofia adotada no Programa é voltada para formação de valores e para o desenvolvimento do Protagonismo Juvenil.

Essa proposta do professor Antônio Carlos, ela ver a plenitude do desenvolvimento humano no sentido de todas as dimensões do ser humano, o cognitivo é uma delas apenas, né. Então a gente trabalha o desenvolvimento também do estudante a afetividade, a espiritualidade e a corporeidade, então a

formação integral, por isso educação integral não é só o tempo que é integral, integral nesse sentido. Então esse é o foco do nosso trabalho, essa é a nossa filosofia de trabalho, o desenvolvimento do ser humano por inteiro. O que se chama interdimensional, as quatro dimensões (...) (...) essa proposta educacional é uma proposta... exatamente por conta desse direcionamento, dessa filosofia educacional voltada para educação, para valores e ela define também o desenvolvimento do protagonismo juvenil e o nosso foco em relação ao estudante é a formação do jovem autônomo, solidário e competente (COORDENADORA PEDAGÓGICA).

Já a concepção que está presente no ICE-Brasil tem relação com o que diz Magalhães (2008, p. 22): “o conceito de educação integral é materializado pela presença de professores e alunos em horário integral, bem como pelo Projeto de Vida de cada estudante e pela ênfase no protagonismo juvenil e empreendedorismo”. No site do ICE ainda foi possível destacar que o modelo de escola de ensino médio em tempo integral que ajudou a construir e expandir tem foco na “formação de jovens autônomos, produtivos e solidários através de tecnologias e metodologias integradas a um novo jeito de ver, sentir e cuidar da juventude”, assertiva que traz estreita ligação com as concepções apresentadas no documento analisado como retratado acima. A partir da entrevista e dos documentos analisados, identificamos que o PEI se orienta por uma concepção de educação integral interdimensional e mantém forte ligação com a concepção presente no “Relatório Jacques Delors” e no ICE Brasil conforme já apresentado. Além do mais, há uma presença de variados conceitos, como autonomia, protagonismo, solidariedade, competência, entre outros, provocando um hibridismo de conceitos que em vez de tornar a formação da juventude mais sólida, provoca uma superficialidade e fragmentação da formação onde nem um conceito é aprofundado fazendo com que a educação integral nesta perspectiva seja apenas em relação ao tempo de permanência física na escola. Dessa forma, nos parece que a finalidade do Paradigma do Desenvolvimento Humano, presente no “Relatório Jacques Delors” e que serviu de inspiração para o PEI, é formar o jovem para que esse adquira competências para enfrentar o mundo cada vez mais complexo, e não que esse jovem receba uma formação integral como elemento de uma práxis transformadora.

Para Schlesener (2009 p. 155),

Da perspectiva política, a redução da gestão ao simples gerenciamento, da formação política simples técnica administrativa, da aprendizagem ao mecanismo de adaptação às condições do mercado, aliados à fragmentação crescente das práticas sociais e educativas impossibilitam a compreensão da educação como um processo de formação integral, necessário para contribuir com criatividade no movimento permanente de geração de novos conhecimentos.

Nesse sentido, observamos que a concepção de Educação Integral presente no PEI, a gestão gerencial e a apropriação do conhecimento vista como adaptação ao mercado e alicerçado na “Pedagogia das Competências”, de acordo com o que já discutimos, guardam estreita relação com as indicações dos empresários em meados dos anos de 1980. Essa perspectiva se distancia da ideia de que a Educação é um processo de formação integral. Dessa forma, diante do que foi exposto, é importante ressaltar que a gestão Eduardo continua servindo de laboratório para formulação da pedagogia empresarial.