1. EDUCAÇÃO PROFISSIONAL DE APRENDIZES NO BRASIL:
1.5 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NA DITADURA MILITAR
A ditadura Vargas conhecida como Estado Novo se encerra com as eleições de 1945, novamente com o apoio dos militares o ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra vence as eleições e alia-se aos Estados Unidos, movimento que influenciaria diretamente na reestruturação da educação pública brasileira, baseando-se no modelo fordista americano de produção, a educação pública brasileira foi dividida em ciclos e disciplinas, mas mantendo a divisão ente educação normalista e profissional, porém com um formato de acumulação de conhecimentos por meio de diversas disciplinas.
No governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) expande as importações e a abertura de capital para empresas multinacional no país, o modelo fordista de produção criava raízes na indústria brasileira, demandando a capacitação de profissionais para as novas funções, processos e máquinas que se instalavam no
país. As demandas formativas tinham caráter puramente tecnicista pois as funções eram cada vez mais segmentadas, rápidas e setorizadas, esse momento histórico refere-se ao modelo de educação classificada por Paulo Freire (1996) como
“educação bancária”, reforçando a ideologia de opressão pela educação considerando o aluno como um depósito de conhecimento e não um sujeito histórico em construção manipulando a educação pelo trabalho e para o trabalho, como se a vida de um indivíduo se retratasse apenas neste ambiente.
Em 1961, Jânio Quadros tomou posse com a maior votação da época, utilizando do slogan político de “varre, varre, vassourinha” vendendo a ideia de combate a corrupção política, na mesma eleição João Goulart é eleito como vice-presidente por outra chapa eleitoral, neste período era possível voltar em candidatos de partidos políticos distintos. Polêmico, Jânio Quadros renuncia à presidência após 07 meses de sua posse em 15 de agosto de 1962, mesmo sendo professor, não realizou medidas na educação profissional no país, já seu vice-presidente João Goulart, figura populista do governo Vargas, quando Ministro do Trabalho, determinou o aumento de 100% dos salários dos trabalhadores, fato que levou ao seu afastamento, mas fortaleceu sua influência com os trabalhadores ajudando posteriormente nas eleições do presidente Juscelino Kubitschek quando aliou-se ao candidatou (FAUSTO, 1995).
Neste período, a educação profissional passou a ser inserida na lei de diretrizes e bases da educação (LDB) pela lei nº 4.024 de 20 de dezembro de 1961 incorporando-se na estrutura do ensino público a opção de acesso à educação profissionalizante pela aprendizagem profissional e técnica, os egressos do ensino primário poderiam optar por uma formação generalista no ensino ginasial ou na aprendizagem profissional, neste período, com incentivo da LDB criou-se também o Ginásio Orientado para o Trabalho (GOT) e o Programa de Expansão e Melhoria do Ensino (Premem) como medidas de incentivo a adesão a educação pública e profissionalizante (CORDÃO; MORAES, 2017). Aos estudantes da educação profissional ampliou-se a possibilidade de continuidade dos estudos permitindo o acesso ao ensino superior, mas não existia condições igualitárias para participar do teste de aptidão de ingresso nas universidades devido à baixa qualidade do ensino ofertado, mesmo com a tentativa de incorporar conhecimentos do ensino ginasial nos cursos de formação profissional os cursos ainda se centralizavam numa formação puramente tecnicista.
No governo militar do presidente João Goulart foi instituído pelo decreto de lei nº 53.324 em 18 de dezembro de 1963 o Programa de Incentivo de Formação de Mão de Obra (PIPMO), com o discurso de promover o progresso econômico no pais, como uma medida Federal para nutrir as necessidades compulsórias de mão de obra, principalmente no setor público para apoiar a construção das petroquímicas, da transamazônica, das rodovias e da hidroelétrica de Itaipu. As escolas técnicas, o sistema S e até mesmo as próprias empresas poderiam oferecer formação profissional neste período e receber incentivo fiscal, critério abolido apenas em 1990 pelo presidente Fernando Collor de Mello, o PIPMO visava uma formação rápida que disponibilizasse os aprendizes em pouco tempo para o trabalho, nutrindo as demandas compulsórias de trabalhadores em todo país, sem propósito pedagógico visavam apenas em formar rapidamente mão de obra para o trabalho (MANFREDI, 2016).
Na década de 60, o ensino profissional equiparou-se ao ensino acadêmico possibilitando que ambos os estudantes pleiteassem uma oportunidade no ensino superior devido à igualdade da continuidade de estudos com a aprovação da primeira LDB nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, porém essa conquista impactou negativamente na qualidade do ensino ofertado na época, pois alunos das escolas da educação profissional permaneciam numa formação conhecida como segundo grau único, mas sem comprometimento real com a formação de base ofertada no ensino normal e secundário da época, segundo parecer do Conselho Nacional de Educação, neste período surgiu “a criação de uma falsa imagem da formação profissional como solução para os problemas de emprego, possibilitando a criação de muitos cursos por imposição legal e motivação político-eleitoral que por demandas reais da sociedade”, a Lei Federal n.º 7.044/82, gerou falsas expectativas ao difundirem a educação profissional, processo que ocorreu caoticamente com habilitações profissionais dentro de um ensino de segundo grau sem identidade própria, mantido clandestinamente na estrutura de um primeiro grau agigantado (Brasil, CNE/CEB nº16, 1999, p.14).
No campo educacional um dos maiores equívocos do governo militar foi tornar a educação profissional obrigatória no ensino secundário, integrando essa modalidade nas escolas públicas, sem preparo dos docentes, sem investimento e infraestrutura adequada, comprometendo totalmente a qualidade do ensino ofertado que na época já sofria com os cortes de recursos financeiros da educação desde 1969, mas devido a forte pressão popular em 1982 a educação profissional deixou de ser obrigatória no
ensino secundário, porém deixou um rastro de precarização na história do ensino público (CORDÃO; MORAES, 2017).
Devido à falta de recursos para a educação em 1975 é criado um novo modelo de incentivo fiscal para promover a educação profissional por meio da Lei nº 6.297 que possibilitava as empresas deduzirem até 10% de seu imposto de renda pessoa jurídica a partir de seus investimentos dedicados a formação profissional de seus trabalhadores, desta forma o Estado estaria atribuindo a responsabilidade para as empresas em capacitar os funcionários para o trabalho. Em 1976 o setor Rural volta a pressionar o governo exigindo apoio e inventivo para promover o incentivo a educação do setor, nesta época é criado o Serviço Nacional de Formação Rural (SENAR) com autonomia financeira e administrativa do sistema S e o Sistema Nacional de Formação de Mão de Obra (SNFMO) vinculado ao Ministério do Trabalho para supervisionar a educação profissional no país (CORDÃO; MORAES, 2017).
Ao analisar a evolução da educação profissional deste período se faz necessário resgatar as afirmações de Darcy Ribeiro quando se refere a “crise educacional no Brasil como um programa em curso, cujos frutos, amanhã, falarão por si mesmos”, um projeto de Estado pensado, calculado e com propósito evidenciado (RIBEIRO, 1986, p. 20). A inserção da educação profissional obrigatória no ensino público foi uma iniciativa que comprometeu anos na qualidade do ensino ofertado em um país que detinha alto índices de analfabetismo, durante a Ditatura Militar a educação para o trabalho tratou-se de uma medida de disciplinamento e controle social para que estudantes não se revoltassem contra o sistema vigente, sem investimento dedicado a educação pública, as políticas públicas eram instituídas com incentivo fiscal e apoio da iniciativa privada, apropriando de forma gradativa da precarização do ensino público, recriminando docentes e práticas pedagógicas com o disciplinamento social, porém o poder não traz ao país o milagre econômico prometido pelos militares que não se sustentam no governo após anos de hiperinflação econômica, altos índices de analfabetismo e desigualdade social.