Numa perspetiva de preparação de um futuro no presente e atendendo a que o homem é educável e capaz de se aperfeiçoar, a pedagogia educacional tem um papel relevante. Não só a educação na escola, mas também no seio familiar, na paróquia, na associação, etc. Assim, as relações humanas tornam-se significativas e constrói-se a consciência coletiva.
Adalberto Dias de Carvalho (1990), no seu texto sobre “A educabilidade como dimensão antropológica” (pp.145-156), dá atenção primordial ao pensamento de Kant. Não que este filósofo se tenha debruçado propriamente sobre a educação – de outra forma que não a acidental, uma vez que, como docente, tinha que lecionar a cadeira de Pedagogia na Universidade de Koenigsberg – mas porque o seu pensamento influenciou de sobremaneira a importância da educação nos destinos do homem. Aliás, as suas ideias foram reveladas ao mundo por um seu aluno (Rink), baseadas nos apontamentos tirados nas aulas e publicadas com conhecimento e autorização de Kant, sob o nome de “Reflexões sobre a Educação”.
Assim, em Kant, a educabilidade é tratada na dupla perspetiva antropológica e educativa, pois como o próprio afirmou “o homem é a única criatura que deve e pode
ser educada”(in Carvalho, Adalberto Dias de, 1990:150).
A animalidade do homem e as suas determinações naturais não são vistas de uma forma negativa, mas sim como algo potenciador da educabilidade através da qual o homem consegue ultrapassá-la e construir conscientemente o seu próprio destino, libertando-se assim das suas limitações naturais. Pela educação, o homem passa da heteronomia (leis naturais) à autonomia, ou seja, pela razão tem a possibilidade de escolher entre os seus desejos naturais e a capacidade de estabelecer, de uma forma voluntária e racional, leis de ação moral para si próprio, seguindo-as independentemente de motivações empíricas.
A razão deve assim criar uma ordem moral na qual a liberdade assume papel fundamental, devendo esta ser usada de forma consciente e responsável e sempre supervisionada por aquela, para que o homem se construa a ele próprio como pessoa e como fim em si mesmo.
Para Adalberto Dias de Carvalho (1990), é aqui que a educação revela o seu carácter antropológico mais marcante, pois apesar de não ser um fim em si mesma, é por ela e através dela que o homem consegue realizar-se como fim em si mesmo e libertar-se das suas “amarras” naturais e alcançar a sua humanidade. Só o homem o consegue fazer, não só em termos do presente, mas sobretudo como projeto futuro e projeto antropológico, uma vez que o “ homem não se pode tornar homem a não ser
pela educação. Ele não é senão o que a educação faz dele.” (Réflexions sur
l’Education, p:73, citado em Carvalho, Adalberto Dias de, 1990:151). É importante que desde cedo (ainda criança) o homem aprenda a pensar mais do que a aprender pensamentos.
A educação deve basear-se em princípios e um desses princípios é de que se deve educar as crianças não só como forma de as adaptar ao mundo atual, mas sobretudo tendo em atenção o seu estado futuro, de forma a torná-las melhor.
Transformar o animal em homem e este em pessoa, em cidadão autónomo e em sujeito moral é a função da educação, o “homem tem necessidade da educação para
concretizar a sua liberdade e se instituir como ser moral” (Carvalho, 1990:151). E
como a moral é universal, todos os homens são iguais em dignidade.
Para Kant, cidadania é autonomia e esta permite ao homem conciliar a ordem com a liberdade, num Estado em que todos os membros limitam a sua liberdade exterior (disciplina), para posteriormente a receberem como membros da sociedade, ou seja, como povo e como Estado Civil. A disciplina que leva ao constrangimento exterior deve habituar o homem a submeter-se à ordem racional, para que este não possa ser desviado do seu destino e retroceder à animalidade.
Este recurso à educação e à disciplina prepara o homem para a liberdade social e civil, pois evita ainda que, de um modo impositivo da obediência, o indivíduo utilize a liberdade de um modo egoísta e, portanto, coercivo da liberdade do outro, contrariando assim os pressupostos do imperativo categórico (moralidade).
Adalberto Dias de Carvalho (1990) defende que cabe à educação permitir ao homem a passagem da heteronomia à autonomia (idem, ibidem: 153), em que a pessoa moral tende para a perfeição, num processo nunca acabado, constituindo assim um ideal
com função reguladora. Segundo Kant só em Deus existe a consciência perfeita e absoluta entre o que deve ser e o que é. Todavia este idealismo Kantiano não é pedagogia. Ele aponta princípios, diz como deve ser, mas não como o fazer. Essa tarefa cabe à Pedagogia Social.
É possível que a educação de cada geração se possa melhorar e em cada geração se dê um passo em direção ao aperfeiçoamento da humanidade. “A educação ao longo
da vida implica, não só, mas também, o alargamento de oportunidades de formação a outras faixas etárias.” (Baptista, 2005:68) O que importa reter é que é através da
educação que o Homem se afirma enquanto tal, se realiza como pessoa e, como espécie, tenderá a atingir a perfeição. A educabilidade marca o HOMEM “enquanto ser
susceptível de um progresso que, por isso, ele tem de tomar nas suas próprias mãos para além do presente.” (Carvalho, 1990:154). A educação leva à autonomia, vista
como “razão pura” que estabelece a lei moral, sempre norteada pela razão sem constrangimentos empíricos.
Se, pela educação, o homem conseguir entender que é como um todo e com cada um que deve construir o futuro da humanidade, os problemas da exclusão social, do desemprego, da miséria e da exploração tenderão a desaparecer, dando lugar a um estado norteado pela razão sem egoísmos e “mais” humano. Joaquim Azevedo (2007) defende que é preciso “valorizar as pessoas, as suas relações, a sua história (…) não é
só fomentar a aquisição de saberes, mas também o desenvolvimento de competências, a aquisição de novas atitudes, de novos comportamentos, novos modos de vida em comum.” (idem, ibidem: 8).
Isabel Baptista (2007) defende que “O desafio social em causa, a utopia, prende-
se com a garantia de condições de educação e formação acessíveis a todas as pessoas, segundo modelos de actuação que, valorizando o «aprender na com a vida», permitam responder às especificidades de cada singularidade humana, de cada idade ou condição existencial.” (idem, ibidem: 147).
Segundo Kant, o homem não é naturalmente bom mas através da educação pode tornar-se melhor. Este otimismo pedagógico implica que a qualidade dos educadores seja um fator fundamental neste processo educativo.