Parte I – Enquadramento Teórico e Legal
Capítulo 5 – Apresentação, caracterização e discussão dos dados
3. Educadora-Presidente: características e competências
No início do nosso trabalho, uma das questões que se nos aflorava dizia respeito à especificidade desta educadora de infância na gestão. A esta circunstância não podem estar alheias as características da sua personalidade e as suas competências profissionais. Daí, a necessidade que temos em explicitar, entre os dados recolhidos, essas mesmas características e competências. Como vimos, são apontados factores relacionados com a experiência, a segurança da continuidade, bem como a postura calma na resolução de problemas.
Uma das características mais apontada mantém-se transversal nas entrevistas e diz respeito a uma particularidade pessoal da Educadora-Presidente: a sua humanidade. Esta é sempre apontada como presente no desenvolvimento das suas relações profissionais dentro da escola.
“Ela é uma garantia, mas forte, sem dúvida nenhuma. É uma referência. […] Ser boa profissional e no aspecto humano ser excepcional, haver poucos conflitos” (EE1).
Também aqui, num outro encadeamento, é referida a capacidade holística que terá para perceber as várias dimensões do contexto educativo:
“Talvez pela experiência […] deve ter aprendido naquele tempo que cá esteve e tivesse uma visão mais abrangente dos diferentes ciclos e da coordenação dos diferentes ciclos. E talvez seja por isto, talvez ela lá conseguisse abranger um leque maior” (EPA).
As suas apetências pessoais e o gosto que tem pelo desenvolvimento do trabalho de gestão são também referidos:
“Ela é Presidente porque sempre foi Presidente nas listas em que encabeçava. E, se gosta, e pelos vistos já vai na 2ª ou 3ª, é porque ela tem alguma apetência ou gosto pessoal pelo menos pelo cargo que desempenha; e se ela continua a gostar do
desempenho do cargo que está a desempenhar, obviamente que sendo ela Presidente, não ia ser agora uma Vice-Presidente, não teria lógica nenhuma” (EPP).
Como já acima verificámos, o desconhecido não é, para alguns, um factor que desejem experienciar, sendo antes uma circunstância a evitar:
“É uma pessoa conhecida, é uma pessoa que está num cargo de direcção já; portanto, não é nada de novo. Não quer dizer que o novo seja mau. É uma situação que já se conhece. Naquele cargo, naquela posição. […] Pela experiência e… […] pelo esforço. […] Se criam bom ambiente, se são competentes, se reúnem um conjunto de condições, têm muitas condições também de serem reeleitos e de continuarem. Se não tiverem, é a ordem natural das coisas, quer na parte burocrática, quer na parte mais de sociabilidade” (EP3º).
É, além de tudo, é fácil reconhecer que, para quem é gerido, interessa e funciona quase como uma competência, o valor da experiência:
“Porque já tem um bocado de experiência” (ESA).
Por outro lado, embora seja realçado o cargo de Presidente, a equipa que constitui o Conselho Executivo é também muito valorizada:
“Eu acho que qualquer pessoa deles, das 4 pessoas que estão, são competentes para ser Presidentes, sem dúvida alguma. Talvez entre eles, eles decidiram que é a (Educadora-Presidente). […] Talvez pela a experiência. Já está desde o início. Se calhar é mesmo pela a experiência porque entre os cargos deles, Presidente deve ser um bocadinho mais difícil […] senão, qualquer um deles, sem dúvida alguma” (EAX).
No entanto, a ascendência da Educadora-Presidente parece ser grande entre os restantes elementos do Conselho Executivo, referindo-se, um dos próprios elementos que o compõem, a esse facto:
“Eu acho que isso nunca esteve em causa entre os quatro elementos, que ela seria sempre a Presidente. Ela tinha tido um mandato anterior de três anos. Acho que ela é uma pessoa excelente para ocupar o cargo que ocupa. […] Tem sido eleita com grande maioria de votos, democraticamente. […] E penso que, por um lado, é por ela
ser Presidente, sim, porque as pessoas, mesmo do agrupamento, gostam da (Educadora-Presidente) e a (Educadora-Presidente) é uma pessoa que está sempre disponível. […] É líder, tem capacidade para liderar, mas não impõe” (EV3).
A sua capacidade para a gestão é igualmente mencionada quer implícita, quer explicitamente:
“Porque merece lá estar. Tem capacidades para isso. Não é por ser educadora, tem capacidade para gerir. […] Ela, desde o 1º mandato que esteve, este já é o 3º. […] Se não tivesse um trabalho positivo, não teria sido eleita e com uma margem tão grande. […] Ela candidatou-se com bons elementos cá dentro” (EV2º).
Se as competências até agora mencionadas se associavam aos motivos que ainda hoje mantêm a Educadora-Presidente na gestão, outras, quer sociais quer pessoais, são acrescentadas:
- “É muito meiga, é muito raro dizer que não às coisas” (EP2º);
- “É tolerante. Consegue ser rígida quando deve ser rígida e também consegue ser benevolente quando tem que ser. […] Não se altera. […] Ela é muito profissional e consegue ser tudo. […] Tem disponibilidade e a gente sabe que pode contar com ela” (EAX);
- “É tolerante; tem muita calma; é muito ponderada. E acho que domina perfeitamente […] é muito inteligente e consegue, de alguma forma, cativar as pessoas. […] Porque ela é uma pessoa empenhada, trabalhadora, muito inteligente e que gosta do que faz. […] Eu acho que é muito humana, é muito compreensiva” (EV3);
- “É ponderada, moderada, quando precisa de ser dura também é. […] Tem bastante calma e sabe resolvê-las (as situações)” (EV2º).
Algumas das características apontadas são repetidas quer pela mesma pessoa ao longo da entrevista, quer por outras. Ao mesmo tempo que lhe são identificadas determinadas características, há necessidade de as fazer corresponder a uma determinada categoria ou tipo, como tenta fazer uma das pessoas que partilha com a Educadora-Presidente a gestão, quiçá pelo contacto mais directo com os
conhecimentos da administração e gestão escolares. Reportamo-nos ao exemplo seguinte e à alusão a uma “liderança funcional”:
- “Acho que é ponderada, tem sentido de responsabilidade, acho que não reage. […] Não é impulsiva. Tem bom senso e por isso é que eu acho que tem perfil, na minha opinião, relativamente a nós os 4 que estamos no Executivo neste momento, ela é que tem o perfil mais adequado para o desempenho das funções. […] À maneira dela, é um líder e faz uma liderança funcional” (EV1º);
Para além dos aspectos de personalidade, que estão associados ao desenvolvimento do seu papel na gestão, as pessoas parecem também deixar-se influenciar e considerar nas suas opiniões outro tipo de características:
“É uma pessoa bastante simples, é uma pessoa amiga. […] Não vejo pessoa de preferências. Vejo sempre a mesma pessoa. Nunca achei nada dela, pessoa, que se envaidecesses só pelo lugar que ocupa” (EE2).
Notamos que os entrevistados associam o plano pessoal e o profissional ainda que as perguntas fossem colocadas de forma isolada, parecendo demonstrar a dificuldade que existe em separar o professor/gestor da pessoa, como tão sobejamente sabemos pelas palavras de Nóvoa: «as vidas dos professores, que constituíram, durante muitos anos, uma espécie de “paradigma perdido” da investigação educacional. Hoje, sabemos que não é possível separar o eu pessoal do eu profissional, sobretudo numa profissão fortemente impregnada de valores e de ideais e muito exigente do ponto de vista do empenhamento e da relação humana» (1992: 7).
Se, por um lado, lhe são apontadas características de tolerância, humanidade, diálogo e cordialidade, por outro lado, também é criticada por alguma falta de autoridade, de rigidez, de ser mais incisiva e de se impor mais. Do mesmo modo, quando solicitámos à Educadora-Presidente uma atitude de autoavaliação das suas características e competências pessoais e profissionais, esta mencionou aspectos que considera serem positivos e que a ajudam, bem como outros menos positivos. No que concerne aos primeiros, afirma:
“Tenho mais auto-estima; […] não sou muito explosiva na hora; […] aprendi, ao longo de alguns anos, a ter sangue frio para ouvir primeiro e responder a seguir; […] ter sangue frio para não explodir, embora, pontualmente, ainda me escape, sobretudo quando me tocam cá dentro ao sentimento. […] Aprendi a ponderar. […] Sou incapaz de fazer um reparo a alguém em público, […] mesmo com alunos, não faço reparos, mas eu já era assim, […] tento não ser agressiva, tento chamar à razão sem ferir muito. Por outro lado, as pessoas por vezes vêem isso como falta de autoridade” (EEP).
No que diz respeito aos segundos, os aspectos negativos ou que sente necessidade de continuar a desenvolver e aperfeiçoar:
“Sou pouco organizada. Acho que preciso de ter tudo, tudo, tudo organizado, porque, de repente, é preciso uma informação que foi dada não sei quando e eu, em termos de papéis, em termos de computador, ainda não sou muito organizada para as funções. E, se calhar, preciso daquela postura, de vez em quando de dar um murro na mesa se for preciso. Acho eu. Sem queremos cair no extremo de andar aí aos berros com toda a gente, mas é fazer sentir ao outro que há limites” (EEP).
No quadro seguinte, sintetizamos as características e competências pessoais e profissionais que lhe são apontadas ou que a própria se atribui.
QUADRO DE SISTEMATIZAÇÃO DAS CARACTERÍSTICAS E COMPETÊNCIAS Quem refere Características e competências pessoais Características e competências profissionais Os outros
aspecto humano excepcional (EE1) meiga (EP2º).
tolerante, tem disponibilidade (EAX) calma; ponderada inteligente cativa as pessoas muito humana muito compreensiva(EV3) ponderada moderada calma (EV2º) ponderada, com responsabilidade não é impulsiva tem bom senso (EV1º) humana
dedicada
aspecto humano (é impecável) amiga apoia compreensiva segura bem disposta disponível (EE1) simples amiga
sem preferências (de pessoas) sem vaidade (EE2)
excelente pessoa muito humana simpática (EPP) cordial flexível (EP1º) humana
muito sincera (EP2º) não é conflituosa (EP3º)
uma referência boa profissional (EE1)
visão abrangente dos diferentes ciclos (EPA)
apetência/ gosto pessoal pelo cargo (EPP) esforço (EP3º)
experiência (ESA) líder (EV3)
capacidade para gerir (EV2º)
rígida quando deve ser rígida benevolente quando tem que ser
não se altera
muito profissional (EAX) empenhada
trabalhadora
muito inteligente (EV3º) dura também é (EV2º)
dedica-se muito à escola (EAS) politicamente correcta (EE1) procura ouvir
aceita opiniões divergentes dialogante
não fala alto/não altera a voz (EPA)
consegue ouvir/gerir as coisas de uma maneira suave
sabe falar com as pessoas (EP1º) dinâmica (EP3º)
trabalhadora tem (carisma) (ESA)
A própria
mais auto-estima
sou incapaz de fazer um reparo a alguém em público/mesmo com alunos
tento chamar à razão sem ferir
não sou muito explosiva/
ouvir primeiro e responder a seguir/ ter sangue frio para não explodir
aprendi a ponderar tento não ser agressiva
A sistematização destes dados dá-nos conta das características que os entrevistados consideram faltar-lhe ou a necessitarem de ser aperfeiçoadas, bem como as características e competências que associam esta educadora de infância à gestão. Contudo, torna-se curioso mencionar que as poucas referências às características que os outros lhe vêem em falta, têm a ver com uma postura mais ligada ao exercício de uma autoridade do tipo mais clássico, mais imposta, mais associada tradicionalmente ao género masculino.