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Educar é Capacitar e Formar

2 COMO, NA TEORIA, A PEDAGOGIA DO ESPORTE PODE EDUCAR A MORALIDADE INFANTIL

2.3 Educar é Capacitar e Formar

A meu ver, entre os professores de esporte em geral há o consenso de que as aulas de esporte contribuem para que a criança aprenda mais sobre as habilidades, desenvolva algumas capacidades e se eduque sócio-moralmente, isto é, a dimensão pedagógica do esporte compreende, necessariamente, a capacitação ou instrução e a formação humana.

O que seria capacitação? Maturana e DeRezepka (1995, p. 11) explicam que capacitar “[...] tiene que ver con la adquisición de habilidades y capacidades de acción en el mundo en que se vive, como recursos operacionales que la persona tiene para lo que quiera ser”. Puig (2000, p. 15) explica que educar é instrução

[...] na medida que prepara os jovens e as jovens para se adaptar e para melhorar o mundo dos saberes culturais, instrumentais e científicos [...] para se viver eficazmente no mundo cultural e profissional.

A meu ver, as idéias de ambos convergem.

Penso que a herança que os autores deixam para a pedagogia do esporte é a de que capacitar/instruir se opõe à idéia reducionista de que a criança deve aprender habilidades e desenvolver capacidades, exclusivamente, para jogar melhor, para ser um dia um atleta profissional, para se sobressair, para atender às demandas do treinamento (coisas muito comuns em se tratando de ensinar esporte). A idéia central é a de que a criança capacita-se para ampliar a possibilidade de se inter-relacionar com tudo o que a cerca (o que não exclui que ela se sobressaia no universo esportivo). Por extensão, a pedagogia do esporte planeja a

capacitação a fim de que a criança disponha de recursos, de ferramentas para atuar em sociedade, para viver melhor. O que a criança fará com o que aprendeu não está ao alcance da pedagogia. É opção da criança. A tarefa da pedagogia é oferecer a condição de escolha. Isso, para mim, justifica planejar a capacitação.

O que é formação humana? Maturana e DeRezepka (1995, p. 11) explicam que a formação humana é um fenômeno que “[...] tiene que ver com el desarrollo del niño o niña como persona capaz de ser cocreadora con otros de um espacio humano de convivencia social desejable”. Outrossim, para Puig (2000, p. 16) educar é formar

[...] na medida que prepara os jovens e as jovens para se relacionar da melhor maneira possível com o mundo dos seres humanos: consigo mesmo, com os outros e com o conjunto de regras e normas de convivência que configuram a vida social.

Convergem, novamente, os autores.

A meu juízo, quando se fala em formação, fala-se da educação das atitudes; fala-se de uma educação em valores. O próprio Puig (2000, p. 16) ratifica que a formação “[...] pode ser considerada sinônimo de educação moral ou de educação em valores”.

Disse a pouco que há um consenso entre os professores de que as aulas de esporte capacitam. Em particular, o fato de a aula tratar de movimentos explica sem rodeios o consenso, ou seja, a pedagogia do esporte tratará de habilidades e capacidades. Outrossim, a fim de ratificar o consenso de que os professores em geral entendem que as aulas de esporte educam atitudes e valores, recorro a uma recente pesquisa (RIBEIRO, 2003) que se preocupou em investigar as dimensões de formação humana presentes no discurso de professores de futsal que atuam na infância, com crianças de sete a dez anos de idade. O autor concluiu que é consensual, no discurso dos professores entrevistados, o fato de o esporte tratar de valores morais e de sentimentos.

Dito isso, resta esmiuçar o que a pedagogia trata ao planejar a capacitação e a formação humana, isto é, do que esta e aquela querem dar conta.

Primeiro a capacitação. Associo-me à idéia de Freire (2003) de que as habilidades estão relacionadas a movimentos básicos e específicos. Básicos quando engendrarem movimentos de locomoção, como correr, girar, transpor, rastejar, saltar, etc; de

manipulação, como rebater, controlar, pegar, lançar, conduzir, etc; e de estabilidade, como

quando engendrarem movimentos peculiares do esporte que se aprende. No caso do futsal, entrariam as habilidades de dominar, controlar, conduzir, chutar, cabecear, proteger e

passar a bola, de driblar, fintar, marcar e antecipar os adversários. Outras habilidades,

também específicas, seriam as táticas: relacionadas com o fato de mais bem se posicionar em quadra ofensiva e defensivamente.

De sua parte, as capacidades engendram-se em velocidade, flexibilidade,

coordenação, resistência e força, isto é, aprende-se a ser mais veloz, a alongar-se, a

coordenar movimentos no tempo e no espaço, a resistir às atividades e a imprimir força. Em particular, penso que a capacidade coordenação acontece sempre, até mesmo agora, que escrevo estas palavras. Ser humano (salvo exceções) implica em se movimentar, ou seja, em coordenar, num determinado tempo e espaço, movimentos. O que difere são os movimentos que se têm que coordenar, na medida que mudarão segundo a necessidade de cada pessoa e especificidade do que se pretende fazer.

Para educar habilidades e desenvolver capacidades, é preciso, entre outras coisas, racionalizar sobre as possibilidades motoras, afetivas, sociais e intelectuais da criança.

Insisto: qualquer professor de educação física assumirá que as suas aulas de esporte educam habilidades e capacidades. Por exemplo, não é difícil imaginar que um jogo corriqueiro entre crianças como o pega-pega − onde um é o pegador e os outros fogem − contribuirá para educar (além de outras competências, como por exemplo, as morais) as habilidades de locomoção − como a corrida − e de estabilidade, como o equilíbrio − e capacidades − como a velocidade e, dependendo da exigência, a resistência. Quanto à coordenação, certamente estará presente, haja vista que as crianças, a fim de fugir e de pegar, coordenarão movimentos diversificados no tempo e no espaço presentes. Portanto, atividades como essa, e outras tantas que permeiam uma aula de esporte e também a cultura infantil, educam, na criança, suas habilidades e capacidades motoras. Capacitam-na. Quanto a mais bem educá-las, dependerá da pedagogia e esta da mentalidade do professor.

Vamos à formação. Uma aula que se proponha a educar atitudes, toca em temas como os de melhor se conhecer − o que implicará numa atitude reflexiva −, e de mais bem se relacionar com as outras pessoas, o que implicará em respeitá-las, em ouvi-las, em se fazer ouvir, em colocar-se no lugar dessas, em tomar decisões, em se reunir em grupo, em cooperar, em dividir espaços, em se expressar, em se responsabilizar por algumas coisas, em selar acordos e respeitá-los e também em exercitar a reflexão.

A tarefa pedagógica de capacitar e formar − que trata das habilidades, das capacidades e das atitudes −, será mais ou menos adequada, mais ou menos pontual, segundo a visão do professor de como a criança aprende e segundo o seu entendimento sobre capacitação e formação e de como planejá-las. O que ensinar? Por que ensinar? Em que momento ensinar? Para quem ensinar? Como ensinar? Respondendo às perguntas, os professores revelam os seus princípios e procedimentos de ensino, ou seja, a sua pedagogia.

Uma vez pontuado como a pedagogia do esporte pode contribuir para a educar a moralidade infantil, preocupei-me daqui para frente em saber como, na prática, esta é educada por aquela. A idéia central é desvelar como a dimensão moral é tratada nas aulas de esporte (em particular nas de futsal). Algumas perguntas nortearão o capítulo: como a pedagogia do esporte educa a moralidade infantil? Como contribui para a construção da moralidade infantil? Que tipo de ambiente é fomentado? Qual a qualidade das relações estabelecidas e para que tipo de moral sinaliza? Por conseguinte, a minha opção metodológica foi a de “ver” a pedagogia, de filmá-la, de narrá-la, de descrevê-la, de comentá-la. Optei em não “ouvir” o discurso dos professores que trabalham com esporte (isso para ser congruente com o que até aqui foi estudado). Pensei: de que me adiantaria ouvi-los e ficar sem saber se, de fato, convergem os seus discursos e a prática pedagógica?

Antes, porém, de desvelar como, na prática, a pedagogia do esporte educa a moralidade infantil, pontuarei os caminhos metodológicos da minha investigação.