2 CONTEXTO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO INFANTIL NO BRASIL: AS
3.2 EDUCAR E CUIDAR: PROCESSOS INDISSOCIÁVEIS NA CRECHE
Educar e cuidar são conceitos que necessitam ser compreendidos como duas faces de uma mesma moeda, não como lado opostos como no jogo “cara ou coroa”, mas como processos de um único objeto, assim, sem um dos lados a moeda deixa de existir, deixa de ser moeda. Sem um dos conceitos a educação das crianças deixa de priorizar seu desenvolvimento integral, o papel do professor fica incompleto e o objetivo da Educação infantil não é alcançado, por isso educar é indissociado do cuidar e vice-versa (BRASIL, 2009a; BRASIL, 2009b).
Segundo Ávila, a educação e o cuidado são “indissociados e indissociáveis. O cuidado e a educação são, na esfera pública, o direito à educação para as crianças [...]. Por isso, o cuidar e o educar não são maternagem, ensino, trabalho doméstico” (2002, p. 126); educar e cuidar são aspectos que constituem o trabalho das escolas de Educação Infantil, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil salienta que:
Educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito e confiança, e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. Neste processo, a educação poderá auxiliar o desenvolvimento das capacidades de apropriação e conhecimento das potencialidades corporais, afetivas, emocionais, estéticas e éticas, na perspectiva de contribuir para a formação de crianças felizes e saudáveis (BRASIL, 1998, p. 23).
Ser e estar com o outro requer entrega, acolhimento, cuidado, respeito, portanto educação. Nesse mesmo contexto a Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil (DCNEI) reafirma a ideia indissociável, abordando que,
[...] educar de modo indissociado do cuidar é dar condições para as crianças explorarem o ambiente de diferentes maneiras (manipulando materiais da natureza ou objetos, observando, nomeando objetos, pessoas ou situações, fazendo perguntas etc) e construírem sentidos pessoais e significados coletivos, à medida que vão se constituindo como sujeitos e se apropriando de um modo singular das formas culturais de agir, sentir e pensar (BRASIL, 2009b, p. 10).
A vista disso, é necessário compreender que o educar e o cuidar precisam estar lado a lado cotidianamente nas creches, e quem precisa trazer estes conceitos para o dia a dia são todos os profissionais da escola, e não apenas o professor. É um trabalho das auxiliares, dos funcionários, da gestão escolar, da comunidade e de todos que atuam diretamente e indiretamente com as crianças.
Com isto, educar e cuidar envolve toda uma visão integrada sobre o desenvolvimento das crianças; por isso os profissionais que trabalham com os bebês e as crianças bem pequenas devem ter um olhar diferenciado e tomar precauções com suas práticas para que as suas ações não se tornem mecânicas, fornecendo suporte para que ambas as ações construam crianças de identidade e de autonomia (RUIZ, 2005).
Tonucci (1980) nos permite refletir sobre esse aspecto que envolve as ações mecânicas no contexto da creche, por meio da charge: “Uma troca de fralda”. Na imagem a professora leva 35 segundos para trocar a fralda da criança e a sua expressão é de felicidade por este feito. O que é significativo compreender, que há diversas atividades mecanizadas no cotidianamente da creche, as quais acabam distanciando o professor da criança, que por sua vez, ocasiona uma falta de disponibilidade ao próximo, uma falta de sensibilidade; como se existissem dois mundos paralelos, a sala seria um mundo principal e os banheiros e trocadores fossem outro mundo que não necessitasse de tanto atenção.
Charge 01: “Uma troca de fraldas”
É preciso deixar claro, que o corpo e a mente não podem ser vistos separadamente, o que não significa “pedagogizar” como, por exemplo, a troca de fraldas, mas ter a sensibilidade de pedir com licença, de relatar os processos de troca de faldas, tendo cuidado com a criança neste momento que é tão íntimo. A autora Kramer (2005) apresenta que o cuidado está vinculado a necessidade do outro, o que assim representa que quem cuida não pode estar pautado na sua necessidade, mas receptivo, atendo e sensível para fornecer o que o outro precisa. O cuidado com o outro exige tempo e entrega, que não aparece nos 35 segundos da troca de fraldas da charge, pois o processo fica corrido como se estivesse em uma “competição”. Signorette afirma que“[...] educar é abranger todos os aspectos da vida do aluno, desde o atendimento de suas necessidades mais básicas, primárias e elementares, até as mais elaboradas e intelectualizadas” (2002, p.06). Para tanto, o educar e o cuidar na Educação Infantil, vai muito além de uma educação formal, mas refletir sobre as práticas e analisar se estas estão contribuindo para todos os aspectos do desenvolvimento integral da criança.
Pode-se destacar que todos os dias são realizados atos de educar e cuidar. Na pesquisa de Silva (2014) com professoras da Educação Infantil, a autora descreve as narrativas das mesmas sobre o que compreendem da educação e do cuidado. A entrevistada chamada de “Cora” expressa em sua fala este entrelaçamento do educar e do cuidar, sendo assim relata que: “Lavar as mãos antes de pegar, guardar o livro bem direitinho, como é que tem que guardar não rasgar [...]”. Faz parte de um todo, na creche não dá para separar educar e cuidar (SILVA, 2014, p. 166).
Deste modo, aos poucos os professores que atuam nas creches acabam percebendo que o educar e o cuidar fazem parte das suas práticas. Silva aponta ainda que “a prática pedagógica é considerada como algo ativo, vivo e que por isso, deve estar constantemente associada à teoria. Isso nos mostra o quanto as práticas das professoras são importantes, paralelas aos conhecimentos teóricos” (2014, p. 149).
Nesta perceptiva, então o educar e cuidar estão entrelaçados a cada ato do professor, pois ao realizar a troca de fraldas ou ao colaborar com a criança para controlar os esfíncteres, ao auxiliar um bebê a alimentar-se, nas escolhas do que vestir, nas atenções referentes aos adoecimentos, tudo está vinculado a educação e ao cuidado. Segundo a Revisão das DCNEI,
não são apenas práticas que respeitam o direito da criança de ser bem atendida nesses aspectos, como cumprimento do respeito à sua dignidade como pessoa humana. Elas são também práticas que respeitam e atendem ao direito da criança de apropriar-se, por meio de experiências corporais, dos modos estabelecidos culturalmente de alimentação e promoção de saúde, de relação com o próprio corpo e consigo mesma, mediada pelas professoras e professores (BRASIL, 2009b, p. 6).
Desta maneira é nítido, perceptível que não existe um modo de se trabalhar com os bebês e com as crianças bem pequenas, sem estar evidenciando o respeito entre educar e cuidar, e não apenas priorizando os aspectos ligados ao bem-estar físico, mas como também aos aspectos cognitivos, emocionais e afetivos. Como afirma Silva, são conceitos presentes nas práticas diárias dos profissionais que estão diretamente ligadas com as crianças:
O cuidar e o educar são intrínsecos, não existem fragmentação nesse processo, se há uma atividade educativa para ser realizada pelas crianças, há também todo um processo, de cuidado para que essa ação se efetive, por exemplo, ao se trabalhar com pinturas o educador precisa ensinar os cuidados para que não ocorram acidentes: não pode colocar tinta na boca, ter cuidado para não deixar cair nos olhinhos, enfim o educador precisa estar atento para aproveitar todo instante para realizar um ato educativo, isto dignifica olhar á criança como um todo (2014, p. 23).
Diante desse preceito, devemos refletir sobre a importância da formação dos educadores que atuam na Educação Infantil, para que não minimizem as ações de cuidados a caráter “pedagogizantes”, ou seja, não tratem as crianças como sujeitos que precisam de ensinamentos o tempo todo, que precisam ser dirigidas em suas ações, que precisam de explicações simplórias sobre tudo que irá acontecer no cotidiano educativo. Educar e cuidar são atender de modo acolhedor os anseios, as singularidades, as características dos bebês e crianças bem pequenas na creche.
Segundo Craidy e Kaercher
[...] a dicotomia, muitas vezes vividas entre cuidar e o educar deve começar a ser desmistificada. Todos os momentos podem ser pedagógicos e de cuidados no trabalho com crianças de 0 a 5 anos. Tudo dependerá da forma como se pensam e se procedem as ações. Ao promovê-las proporcionamos cuidados básicos ao mesmo tempo em que atentamos para a construção da autonomia, dos conceitos, das habilidades, do conhecimento físico e social (2001, p. 70).
Em todos os momentos do cotidiano escolar, a criança está sempre em constante aprendizado, por isto desmistificar essa dicotomia é um fator que merece estar presente no planejamento.
Didonet também descreve que “não há conteúdo ‘educativo’ na creche desvinculado dos gestos de cuidar. Não há um ‘ensino’, seja um conhecimento ou um hábito, que utilize uma via diferente da atenção afetuosa, alegre, disponível e promotora de progressiva autonomia da criança” (2003, p. 9). Assim, um conceito está unido ao outro, pois a cada gesto dos educandos há ensinamento, educar e cuidar estão presentes, não tendo superioridade, mas sim entrelaçamento.
Para superar a dicotomia entre o educar e cuidar, Assis (2008) sugere que haja a mudança de entendimento do que seja educar, para alguns profissionais, que ultrapasse o olhar que consiste em reproduzir práticas comuns que estão no ensino fundamental e em outras etapas da educação, pois enquanto estas práticas permanecerem, o cuidar e o educar estarão continuamente em segundo plano.
Nesse mesmo sentido, Kramer (2005) propõe que o cuidar não deve estar vinculado apenas para as crianças pequenas, pelo fato de que considera o cuidar como um objetivo, como uma natureza e especificidade que deveria permear a Educação Infantil. Sobre este olhar “[...] o cuidado é, portanto, considerado tão importante quanto à educação, pois a professora que cuida, educa, e a que educa cuida, ambas são inerentes à profissão docente na Educação Infantil” (apud ASSIS, 2008, p. 98).
Cuidar e educar é impregnar a ação pedagógica de consciência, estabelecendo uma visão integrada do desenvolvimento da criança com base em concepções que respeitem a diversidade, o momento e a realidade peculiares à infância. Desta forma, o educador deve estar em permanente estado de observação e vigilância para que não transforme as ações em rotinas mecanizadas, guiadas por regras (FOREST; WEISS, 2007, p. 2).
Para tanto, é necessário que o professor organize de maneira sensível e ética, situações que promovam oportunidades de aprendizagem que garantam o desenvolvimento integral da criança, nos diferentes espaços da Educação Infantil. Já que os primeiros anos de vida são marcados pelas descobertas, experiências e aprendizados, que essencialmente ocorrem na interação permeada assim, pela afetividade e pela estruturação de sua autonomia (SILVA, 2014).