• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II – AS NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS E A

2. A INTERVENÇÃO NA COMUNIDADE ESCOLAR

2.1 Educar, Integrar e Incluir

Desde que Portugal se tornou membro do espaço Europeu, como “bom aluno” que é, tentou sempre acatar as orientações emanadas pela União Europeia (UE) em matéria de defesa de direitos da pessoa com deficiência.

Destaca-se também o papel ativo que a ONU (2006) tem tido na defesa dos direitos das pessoas com deficiência por uma educação comum, organizando a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (CPDP), onde realçou a necessidade dos Estados membros se comprometerem a implementar um sistema de educação inclusivo.

Salientamos alguns princípios da CPDP (2006), nomeadamente: no seu Artigo 3.º - Princípios gerais:

“a) O respeito pela dignidade inerente, autonomia individual, incluindo a liberdade de fazerem as suas próprias escolhas, e independência das pessoas;

b) Não discriminação;

c) Participação e inclusão plena e efetiva na sociedade;

d) O respeito pela diferença e aceitação das pessoas com deficiência como parte da diversidade humana e humanidade;

48 f) Acessibilidade.

Também outras organizações têm demonstrado a sua preocupação com as pessoas com deficiência, das quais evidenciamos o papel da UNESCO, que em 2008, organizou a 48.º Conferência Internacional sobre educação, destacando uma temática muito atual – a da Educação Inclusiva.

A partir deste momento, a palavra inclusão passou a estar na ordem do dia e Portugal, mesmo à pressa e sem avaliar as necessidades das pessoas com deficiência, promoveu a desejada integração, apesar de mal planeada, tentando garantir a educação para todas as pessoas integrando-as no sistema educativo regular, de acordo com os princípios consagrados na Declaração de Salamanca, no ano de 1994.

Ao falarmos acerca de inclusão e de integração, no entender de Rodrigues (2004) devemos distinguir ambos os conceitos, sendo que a integração trata da adaptação a uma instituição inicialmente estranha e a inclusão é um modelo de pertença total à instituição […] o processo de Integração/Inclusão é pois um processo interativo e dinâmico resultante da influência mútua de múltiplos fatores (in Rodrigues, 1986).

No entanto, a dita inclusão fez-se sem existirem os recursos necessários, sem estarem criadas condições socioeducativas que a promovessem, havendo falta de condições materiais e uma série de atitudes humanas contrariadas. Senão vejamos, anualmente os meios de comunicação continuam a difundir notícias onde representantes legais de pessoas com deficiência reclamam uma série de apoios educativos consignados na lei, mas que nunca tem acesso no início de cada ano letivo. Como se poderia designar por educação inclusiva se não foram identificadas antecipadamente as barreiras à mesma? Se muitos alunos e representantes dos mesmos continuam a não participar, nem nunca foram questionados acerca dos seus interesses e necessidades? Má planificação? Falta de orçamento/financiamento? Falta de recursos humanos? Em nome da crise e de cortes orçamentais, tudo se diz justificar. Em contraponto através da promulgação de documentos legislativos, o Estado refere que é da sua competência garantir que “as leis portuguesas passam a consagrar como

49

direitos fundamentais a educação e a igualdade de oportunidades. Estes princípios encontram-se expressos no texto da Constituição da República, a Lei Fundamental Portuguesa, publicada em 1976 nomeadamente nos seus artigos 71º a 74º” (Rodrigues et al, 2011). Como é que se educa sem recursos? Sem recursos há igualdade de oportunidades? Será que estas práticas por si só, não serão geradoras de situações de segregação e/ou de exclusão social e escolar?

A educação por si só não vaticina a inclusão sem antever se reúne as condições específicas para responder às necessidades de cada aluno, que vai encontrar uma série de formadores e outros colaboradores despreparados, uma escola sem adaptações físicas e materiais.

Para haver inclusão é necessária a participação do aluno, da família, da comunidade na escola, equipamentos adequados sem barreiras físicas, serviços de apoio técnico e pedagógico, recursos humanos com formação na área das necessidades especiais, ter um auxiliar de apoio direto para o acompanhar na faculdade prescindindo de um familiar próximo (Masini et al, 2005). Deste modo, queremos também dizer que todas as pessoas, com e sem deficiência, poderão alcançar uma participação plena, ao nível social, educativo, etc., e que o sistema educativo é para todos e para cada um. As escolas devem estar preparadas para dar respostas adequadas a todas as pessoas sejam quais forem as suas características. É necessário responder à heterogeneidade. É cada vez mais necessário ter um conjunto de serviços e apoios adequados que permitirão a todas as pessoas com deficiência maximizar o seu potencial. A falta de recursos ou a dificuldade em obtê-los não contribui para o desenvolvimento das suas capacidades, nem tão pouco para ter igual oportunidade em acompanhar o ritmo dos restantes colegas, ou seja, partimos do pressuposto que estaremos desrespeitando as suas diferenças. Como refere Rodrigues (2004: 2), “para haver igualdade de oportunidades é necessário concebermos cenários de diferença de tratamento” de modo a que não favoreçamos alguns grupos em prol de outros.

A escola deve servir a sociedade onde se insere, através da partilha de informação, educação, contribuindo para a promoção de criatividade, o

50

alargamento de horizontes e a promoção de novas visões, sociais e culturais, desafiando as imagens estereotipadas e combatendo a intolerância.

Se a escola pode contribuir para alterar filosofias, valores, objetivos e práticas seculares, também pode contribuir para a eliminação de todo o tipo de barreiras físicas, intelectuais, emocionais, etc.

A educação inclusiva é um processo que apela à participação de todos, para todos e com todos. Tem uma abordagem humanística e democrática que percebe a pessoa e as suas particularidades, que tem como objetivo o crescimento, a satisfação pessoal e a inserção social.

Como diz Sanches (2011: 2), “aceder a uma Educação inclusiva é procurar uma cidadania plena”. Para esta autora (ibidem, 2011: 2) a escola inclusiva aposta na mudança de mentalidades, valoriza e corresponsabiliza todos os intervenientes no processo educativo, reconhece as diferenças, respeita a diversidade, é flexível e crítica, não promove a igualdade, mas a equidade, e tem especial preocupação na promoção da participação e das aprendizagens dos seus alunos.

O Relatório Mundial sobre a Deficiência (OMS, 2011) refere que o conhecimento poderá permitir à pessoa com deficiência o acesso à informação, o reconhecimento dos seus direitos como pessoa e consequentemente para que esta “contribua para a formação do capital humano” (OMS, 2011: 213), ou seja, contribui para formar cidadãos que exerçam todos os seus direitos cívicos, sociais, políticos, económicos, etc., reduzindo inclusive os custos que o Estado tem vindo a suportar permitindo criar um único sistema ao nível económico; ao nível social: a mudança de atitudes; ao nível educacional: o desenvolvimento de métodos de ensino que respondam às diferenças individuais.

Então, incluir a pessoa com deficiência no sistema educativo irá contribuir para a formação de capital humano, poderá conduzir à obtenção de um emprego e à atividade social e consequentemente reduzir a pobreza. Sendo também uma estratégia para combater a exclusão social. Por outro lado, permitirá aos Estados signatários da CDPD atingir as metas de Educação Para Todos (EPT) para 2015, a que se propuseram e que não foram cumpridas na

51

década de 90, em 2000, no Fórum Mundial sobre Educação, em Dacar, de que destacamos uma das metas: zelar pelas necessidades de aprendizagem de

todos os jovens e adultos.

Para tal, necessitamos de garantir uma educação de boa qualidade num ambiente inclusivo. Para Rodrigues (2004: 1), deve-se “refletir sobre de que forma a perspetiva da educação inclusiva pode ser desenvolvida na Universidade. A Universidade, “[…] terá que refletir «á luz do dia» sobre as suas dificuldades pedagógicas e de consumação de uma política inclusiva”. Este autor analisa obstáculos e facilitadores relativamente ao acesso (i) e ao sucesso (ii) dos alunos com NEE no ensino superior, em termos de igualdade de oportunidades. O acesso é definido por este autor, como o conjunto de possibilidades específicas que permitem ao estudante com NEE frequentar e relacionar-se com a comunidade académica.

Os facilitadores e os obstáculos do acesso e do sucesso (Rodrigues, 2004: 2 a 4) são:

Facilitadores ao acesso: os progressos na área das tecnologias da Informação e da Comunicação e a criação de “sites” acessíveis com bastante informação acerca de acessibilidades; Obstáculos ao acesso: as barreiras arquitetónicas que obrigam os alunos com NE de acederem a edifícios pela porta da cantina por exemplo e as acessibilidades físicas, devido às longas distâncias que estes alunos têm que percorrer de sala em sala;

Facilitadores ao sucesso: redes de solidariedade, incentivador de práticas e valores novos sendo necessário os docentes refletirem acerca dos conteúdos, das metodologias, que poderão inclusive ajudar os restantes alunos evoluindo de acordo com as suas capacidades e que os professores mudem as suas representações sociais de dadas profissões e acerca da PCD; Obstáculos ao sucesso: o processo de ensino – aprendizagem continua a ser encarado como um veículo de transferir informação o estudante passa a ser responsável pela aprendizagem e a diversidade de oportunidades de aprendizagem.

Não nos parece importante adotar medidas somente porque a Europa nos recomenda. Não será fundamental avaliar até então o nosso percurso? Verificar o que resultou? O que fizemos bem e seguir esse caminho? Certamente que os intervenientes do sistema educativo têm uma palavra a dizer acerca do seu percurso, das suas boas práticas, destacando os aspetos positivos e os obstáculos a eliminar.

52

A educação promove a aquisição de competências para o acesso ao mundo do trabalho e ao emprego, e atualmente ao mundo ocupacional do voluntariado. A escola é por primazia, o local de aquisição de conhecimentos, de rotinas, hábitos, que nos permite conhecer e aceder aos bens culturais e, permite a capacitação para uma vida autónoma, dotando-nos de consciência cívica e política. A escola também nos permite utilizar a nossa criatividade tornando-se um espaço fundamental para o desenvolvimento da expressão criativa. Então, podemos dizer, que a escola inclusiva é um paradigma do modelo relacional na abordagem dos problemas das deficiências, das incapacidades e do direito à participação social.

Documentos relacionados