2. Lesão do Ligamento Cruzado Anterior
2.3 Métodos de Prevenção da Lesão do LCA
2.3.9 Efeito de programas de prevenção da lesão do LCA
Como sabemos, a ocorrência de lesões no LCA é um fenómeno multifatorial, não existindo apenas um fator de risco isolado, mas sim um conjunto de vários fatores. Nesta perspetiva, sugere-se que um programa de prevenção integre uma variedade de intervenções (Laible & Sherman, 2014).
Efetivamente, vários autores (Laible & Sherman, 2014; Stevenson et al., 2015; Sugimoto et al., 2015b; Monajati et al., 2016) indicam que programas multifacetados, que incluem diversos componentes de treino, mostram melhores resultados na redução do risco de lesão. Estes programas incorporam força, pliometria, proprioceção, equilíbrio dinâmico, alongamento, agilidade e trabalho de core (Laible & Sherman, 2014; Stevenson et al., 2015). Sugimoto et al (2015c) aconselham ainda incluir ações a uma perna em movimentos dinâmicos, reação
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e tomada de decisão em situações imprevistas, posicionamento apropriado do pé e consideração da condição da superfície de jogo.
Em contrapartida, Stevenson et al (2015) mostram na sua revisão que os estudos que apresentam os resultados menos benéficos (Söderman et al., 2000; Pfeiffer et al., 2006) incluíram somente uma ou duas estratégias de treino diferenciadas. Sugimoto et al (2015b) tiveram conclusões semelhantes na sua meta-análise, uma vez que tanto os exercícios de equilíbrio como os exercícios pliométricos, se realizados isoladamente, não parecem produzir efeitos preventivos desejados.
No mesmo estudo, os autores procuraram determinar qual o efeito do treino de fortalecimento e controlo do tronco na prevenção de lesões do LCA. Essa análise foi realizada, face aos resultados de alguns estudos (Zazulak et al., 2007a; Hewett et al., 2009) que apontavam uma relação entre o controlo do tronco e lesão na articulação do joelho. Atletas que sofreram lesões no LCA evidenciaram maior déficit no controlo neuromuscular do tronco (Zazulak et al., 2007a). Os estudos incluídos na meta-análise continham exercícios como curl abdominal (Hewett et al., 1999; Kiani et al., 2010), flexão de braços (LaBella et
al., 2011), supino, pullover e puldown (Hewett et al., 1999).
Também Baldon et al (2012), ao concluírem que este treino reduz a abdução do joelho durante o agachamento a uma perna, reforçam esta perspetiva, de que o treino de controlo do tronco provoca mudanças positivas na cinemática das extremidades inferiores.
Para além do tipo de exercícios a realizar, existem outros aspetos que podem influenciar a eficácia dos programas de prevenção. O momento de implementação da intervenção é um deles. Neste sentido, Stevenson et al (2015) mostraram que a realização de programas de prevenção durante o período preparatório parece ser importante na redução de lesões do LCA. De facto, dos quatro estudos que apresentaram reduções estatisticamente significativas nas taxas de lesão do LCA, três implementaram os seus programas de treino durante
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esse período preparatório (Hewett et al., 1999; Myklebust et al., 2003; Mandelbaum et al., 2005).
Outro dado que consideramos pertinente, prende-se com a escassa literatura que procura relacionar os programas de prevenção com o nível de desempenho dos jogadores.
Num estudo desenvolvido tendo por base essa preocupação (Elite vs Divisão 1, Divisão 2, …), Myklebust et al (2003) indicaram que apenas os jogadores de Elite tiveram uma diminuição estatisticamente significativa da incidência de lesão desportiva. Resultados que podem ser explicados pela interferência de diversos fatores, entre eles, a maior dose e melhor qualidade das sessões de treino, melhor supervisão, melhores meios e acesso a profissionais e, provavelmente, maior motivação dos atletas (Stevenson et al., 2015). Contudo, serão necessárias mais evidências para comprovar e sustentar esta associação.
Neste seguimento, a duração e frequência das sessões de treino preventivo foram relacionadas diretamente à diminuição de lesões do LCA, ou seja, quanto maior a duração do programa, menor a ocorrência de lesões (Sugimoto et al., 2014). Este estudo sugere que, a eficácia plena dos programas de prevenção é alcançada com sessões de pelo menos 20 minutos, realizadas várias vezes por semana e durante toda a época desportiva (períodos preparatório e competitivo). Adicionalmente, outro ponto que pode influenciar o efeito preventivo dos programas é a idade dos atletas. A literatura aponta que, atletas mais jovens obtêm melhores resultados do treino preventivo do que atletas mais velhos (Sugimoto et al., 2015a; Sugimoto et al., 2016). Nesta linha, Myer et al (2013a) registaram que atletas mais jovens, realizando o mesmo programa preventivo, tiveram menos lesões do LCA do que atletas mais velhos. É presumido que a função sensório-motora tenha maior capacidade de adaptação em indivíduos mais novos, que ainda se encontram no estádio de desenvolvimento (Morrison & Sosnoff, 2009; Sosnoff & Voudrie, 2009). Deste modo, a iniciação do treino preventivo nos primeiros anos de adolescência pode ser mais vantajoso (Myer et al., 2011a; Myer et al., 2011b; Myer et al., 2013b).
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Nesta sequência, outro fator que não pode ser descurado nas sessões de treino de prevenção, é a inclusão de feedback verbal durante os exercícios. Vários estudos têm demonstrado a eficácia do feedback na alteração dos padrões de apoio de alto risco (Parsons & Alexander, 2012; Myer et al., 2013b; Stroube et al., 2013). A utilização de “dicas verbais” durante exercícios pliométricos, poderá, também, ser importante para uma correta execução dos jogadores, potenciando o programa de prevenção (Hewett et al., 1999).
Face ao exposto, consideramos importante referir algumas limitações, que fomos sentindo, por forma a encorajar futuros estudos a preencher a escassez e falta de consistência em determinados domínios. É fundamental a análise de fatores de risco específicos para a população masculina. Revisões recentes (Alentorn-Geli et al., 2014; Sugimoto et al., 2015a) justificam, igualmente, a relevância de identificar fatores de risco modificáveis nos homens, e também, estabelecer as respostas desta população aos programas de prevenção do LCA (Sugimoto et al., 2015a).
Resulta claro que, apesar dos programas de prevenção diminuírem as lesões do LCA, não sabemos os mecanismos exatos que estão na gênese destes resultados (Sugimoto et al., 2015b; Lopes et al., 2017). Neste sentido, Myer et al (2007) afirmaram que um programa de prevenção personalizado, orientado aos fatores de risco específicos do atleta, pode ser mais vantajoso do que um programa global. Da asserção anterior, podemos levantar duas questões importantes sobre qual o procedimento mais eficaz na prevenção de lesões: “Protocolos para cada tipo de lesão?” ou “Variar de acordo com o atleta e em conformidade com as suas necessidades?”.
Na nossa visão, o conhecimento dos métodos de treino mais eficazes e que mais influenciam positivamente os fatores de risco é essencial, mas sempre com a perspetiva de estruturar um programa individualizado, de acordo com as necessidades do atleta.
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