NÃO SEM UMA RELAÇÃO COM A VERDADE
1.3 – NARRANDO UM CASO
1.4. EFEITO DE SIGNIFICANTE
Se os fragmentos dessa análise podem indicar o funcionamento do inconsciente é porque a linguagem aqui é tomada como condição para o inconsciente cifrar eventos, coisas, informações e escritos. Efeito do significante, o inconsciente é, portanto, estruturado como uma linguagem.
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O significante, por sua vez, “é uma dimensão que foi introduzida pela linguística”, enfatiza Lacan ([1972-3]2008b, p.35), área do conhecimento humano que só pode ser elevada ao estatuto de ciência pela formalização do signo linguístico por Ferdinand de Saussure a quem Lacan rende crédito e homenagem (Escritos, p.500) como fundador da Linguística.
O ato de Saussure estabelece a heterogeneidade entre significado e significante, identificando na sua associação a unidade do signo linguístico. Com isso, Saussure opõe-se à concepção simplista e equivocada da língua como uma nomenclatura das coisas do mundo. (Saussure, 1973,p. 79-80). Segundo o linguista, essa unidade é constituída por esses dois termos psíquicos que são unidos no cérebro por um vínculo de associação. É assim que Saussure indica que o signo linguístico não une “uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica” (idem, p.80).
Interessa notar que imagem acústica não equivale a som na elaboração saussuriana, mas a uma impressão psíquica desse som. A imagem acústica, o significante como tal, é o que se ouve, segundo Lacan; já o significado é efeito da leitura do que se ouve de significante ([1972-73]2008b, p. 39). Tal concepção é que permite a Lacan uma aproximação com o conceito de traços de percepção (Wahrnehmungzeichein) e de memória para Freud, a partir de sua clínica: para que um traço da percepção “passe para a memória é preciso primeiro que seja apagado na percepção, e reciprocamente” ([1964]2008a, p.51), e essa simultaneidade da constituição Lacan identifica à sincronia significante:
E, por certo, Freud diz isto tanto mais quanto ele não está sabendo que o diz cinquenta anos antes dos linguistas. Mas nós, nós podemos de imediato lhes dar a esses Wahrnehmungzeichein, seu verdadeiro nome de significante. (idem, p.51-52)
Atento à elaboração de “conceito” em Saussure, Lacan depreende que o significado “não são as coisas em estado bruto”, mas que a significação “é o discurso humano em que ele remete sempre à outra significação.” ([1955/56] 2008d, p. 142). É a partir da formalização do algoritmo saussuriano que Lacan pode, ao final de quase uma década de elaborações teóricas (Le Gaufey, 1996, p. 147-166), isolar na descoberta freudiana do inconsciente aquilo que denominou a primazia do significante e a indicar que,
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na linguagem, as relações passam a se dar exclusivamente entre significantes, indicando que Freud antecipa a formalização da linguística:
é a descoberta de Freud que confere à oposição entre significante e significado o alcance efetivo em que convém entendê-la, ou seja, que o significante tem função ativa na determinação dos efeitos em que o significável aparece como sofrendo sua marca, tornando-se, através dessa paixão, significado. (Lacan, 1998, p. 695)
Levando tal elaboração à sua radicalidade, Lacan inverte o signo saussuriano – agora – e retira a elipse e as flechas que unia os dois termos: em sua elaboração, o significado é efeito do significante. Dessa depreensão, Lacan extrai uma importante consequência:
O S e o s do algoritmo saussuriano não estão no mesmo plano, e o homem se enganaria ao se crer situado no eixo comum a ambos, que não está em parte alguma. Isso pelo menos até Freud haver feito sua descoberta. Pois,
se o que Freud descobriu não é exatamente isso, não é nada. (Lacan
[1957] 1998, p. 521-2, grifos meus).
Se para Saussure o traço entre significado e significante referia-se a uma relação entre ambos, para Lacan (1955) designa uma barra resistente à significação, sem uma correspondência biunívoca entre os elementos do signo linguístico. Para Lacan é o sistema significante, a língua por suas propriedades que incluem o equívoco e a pluralidade de sentido que condiciona o que se passa no inconsciente e permite o aparecimento das suas formações no discurso28:
O inconsciente é, no fundo dele, estruturado, tramado, encadeado, tecido de linguagem. E não somente o significante desempenha ali um papel tão grande quanto o significado, mas ele desempenha ali o papel fundamental. O que com efeito caracteriza a linguagem é o sistema do significante como tal. (Lacan [1955/56] 2008d, p.142).
Lacan extrai de Saussure aquilo que considera o seu legado mais precioso: a não identidade do significante a ele mesmo: “O significante como tal não se refere a nada, a não ser que se refira a um discurso, quer dizer, a um modo de funcionamento, a uma
28 Discurso, na formulação lacaniana, designa uma estrutura, um funcionamento, uma utilização da linguagem como liame, que permite o laço social.(Lacan, [1972-73]2008b, p. 36).
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utilização da linguagem como liame [...] liame entre aqueles que falam.” (Lacan [1972- 73]2008b, p. 36):
Ele se volta então para o significante saussuriano que não é definido como idêntico a ele mesmo, mas de saída como diferente de todos os outros. Ele só vale relativamente a uma bateria e designa tanto o que ele não é (os outros significantes) quanto o que ele é. Essa não-identidade do significante a ele mesmo é o legado mais precioso de Saussure para Lacan, que não hesita então em dizer: É no próprio estatuto de A [a compreender aqui
como letra na expressão “A é A”] que está inscrito que A não pode ser A.
(Le Gaufey, 1996, p. 162) 29
Para trabalhar a noção de pura diferença, característica mais elementar do significante, Lacan vale-se do conceito de traço unário que Freud ([1921]2006, p. 116.) desenvolve ao abordar o tema da identificação como “a forma mais primitiva e original do laço emocional” na qual o sujeito assume características da pessoa objeto de seu investimento; tal identificação “é parcial e extremamente limitada, tomando emprestado apenas um traço isolado da pessoa que é objeto dela” (idem, p.117).
O que interessa a Lacan dessa formulação freudiana “é a possibilidade de apresentar uma identificação que não se prenda ao conteúdo, ou seja, ao significado, mas que remeta a uma marca diferencial - o traço” (Aires, 2005, p.222).
É nessa direção que Lacan, em 06 de dezembro de 196130, recorre a uma visita que fez a um lugar considerado por ele como extraordinário: o museu de Saint-Germain. Na Sala Piette (nome de um Juiz de Paz que, segundo Lacan, foi um gênio e que fez prodigiosas descobertas da arqueologia pré-histórica), Lacan encontra vários pequenos objetos expostos e se emociona quando vê sobre uma costela fina de um animal uma série de pequenos traços verticais: dois primeiro, seguido por um pequeno intervalo, depois outros cinco traços e, logo a seguir, a série recomeça:
Lacan supôs, então, que se tratassem de marcas feitas por um caçador e que teriam por finalidade registrar ou representar um animal abatido, mas que, independentemente da intencionalidade do autor, eram reconhecidas
29 As citações dos livros de Guy Le Gaufey são traduções minhas.
30 Seminário inédito. Todos os seminários inéditos de Lacan aqui citados são no idioma espanhol e editados pela Infobase. As traduções são feitas por mim.
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como distintas entre si. A importância teórica deste relato reside na possibilidade de reconhecimento da distinção entre as marcas de forma independente de seu conteúdo, pois o reconhecimento da diferença se dá a ver, não pela qualidade dos traços, mas pela seriação em que estão colocados. (idem, p.223).
Essa experiência “estonteante” permitiu a Lacan uma identificação simbólica com um traço feito por alguém que viveu milhares de anos antes dele que, pelo foto de haver significante, pôde-se incluir na tribo dos humanos e constituir-se numa trama desiderativa, pois a série implica um sujeito:
Eis aqui, dizia-me dirigindo-me a mim mesmo por meu nome secreto ou público, eis porque, em suma, Jacques Lacan, tua filha não é muda, eis aqui porque tua filha é tua filha, porque se fôssemos mudos ela não seria tua filha. (Lacan, 06/12/196131)
Tal experiência, assim formulada permite a Lacan enunciar, pela primeira vez que o significante, ao contrário do signo, não é o que representa algo para alguém, mas é o representa o sujeito para outro significante. A visão da série de ossos põe em relevo para Lacan a dissolução do elo que ligava o signo (os traços verticais) à coisa no mundo (animal abatido).
É, de fato, uma experiência privilegiada para se pensar a condição do surgimento do significante! E Lacan propõe uma acepção bastante distinta daquela feita por Saussure na qual significado e significante estão sistematicamente acoplados, como demonstra Le Gaufey (2010, p. 59): “osso da rena vem dissociá-los [o signo do significante] para mostrar que referente e significado podem perder-se e o significante manter-se só, sem que desapareça o efeito sujeito”.
O significante literalizado não é mais o que está para ser posto como estando logicamente antes do signo (como um de seus constituintes), mas o que surge do
apagamento da relação entre o signo e a coisa e que Lacan (06/12/1961) denomina “os
diversos ‘apagamentos’, se me permitem utilizar esta fórmula na qual o significante vem à luz, nos darão precisamente os modos capitais da manifestação do sujeito”.
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O conceito de significante para a psicanálise é bastante enfatizado porque ele “é o fundamento da dimensão do simbólico, o qual só o discurso analítico nos permite isolar como tal” ([1972-73]2008b, p.27), uma vez que não coincide com nenhuma unidade linguística: não se limita ao fonema, nem à palavra, nem à frase mas, como prefere dizer Lacan, “a significância é algo que se abre em leque” (idem, p.25). Como aquilo que tem efeito de significado, “o significante se situa no nível da substância gozante”, “é causa de gozo.” (idem, p.30)
É na suposição de que o inconsciente é um saber que se dirige toda a práxis do analista. Um saber que escapa ao falante, que se estrutura como uma linguagem e que cifra o real na tentativa (impossível) de simbolizar o enigma da diferença sexual (idem, p. 149). Nessa direção, a função do analista não é outra que aquela que dá ao que se enuncia de significante, uma leitura outra que não seja o que ele significa (idem,p. 43) pois aquilo que se ouve é o significante que tem, por efeito, o significado (idem, p. 39).
É esse dispositivo do discurso analítico que permite ler o enunciado negativo de Terezinha – “Eu não tenho história. Quero aprender a ler porque quem não sabe ler não
tem uma história” – como algo distinto de sua significação. Teoricamente, um dos lugares
que se pode verificar isso é a partir do texto freudiano Die Verneinung, texto que, entre outras contribuições fundamentais para a psicanálise, revela haver uma divisão entre enunciado e sua enunciação.
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