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3.1 Efeitos de sentidos sobre trabalho

3.1.1 Efeito de trabalho (im)produtivo

Em acordo com Marx, “do ponto de vista do processo de trabalho em geral, apresenta-se-nos como produtivo o trabalho que se realiza em um produto, (...) em mercadoria. (...) é produtivo o trabalho que valoriza diretamente o capital, o que produz mais-valia” (2008, p.70). O filósofo definiu trabalho produtivo e improdutivo

para se diferenciar o que produz mais-valia daquele que não produz. Nesses termos, entende-se que improdutivo é o trabalho que não gera, imediatamente, a valorização do capital.

A esse respeito, conforme exposto na discussão anterior, sabe-se que os professores da rede pública são trabalhadores que, assim como os demais, foram expropriados dos meios que lhes permitiriam produzir a própria sobrevivência, restando-lhes, neste caso, vender a sua força de trabalho em troca de salário. Já foi dito também que em vez de fazê-lo a um capitalista do setor privado, ofertam-na ao Estado que não tem como objetivo, com essa compra, valorizar o capital, pois o dinheiro utilizado pelo setor público não é visto como capital e sim como arrecadação de recursos.

Assim, o dinheiro utilizado para prover o pagamento desses profissionais representa um gasto para o Estado e não um investimento para ampliar a quantidade de dinheiro aplicada a fim de que se produza valor. Como não cria valor, não produz mais-valia, é considerado, em acordo com as teorizações de Marx, um trabalho improdutivo.

Daí provém a natureza do trabalho pedagógico no setor público, constituindo- se, conforme Antunes (1995) na

[...] expansão do trabalho em serviços, em esferas não diretamente produtivas, mas que muitas vezes desempenham atividades imbricadas com o trabalho produtivo, mostra[ndo]-se como outra característica importante da noção ampliada de trabalho, quando se quer compreender seu significado no mundo contemporâneo. (ANTUNES, 1995, p. 12)

O trabalho dos professores da escola pública apresenta-se na forma de prestação de serviço - serviço público. Nessa perspectiva, não se destina a atuar na produção de mais-valia para um capitalista (ao contrário do trabalho dos professores das escolas privadas), mas é um trabalho que está a serviço do Estado capitalista49 que se organiza sob a égide da economia de mercado.

Dessa maneira, durante as observações dos discursos dos professores em aula, pode-se perceber com muita clareza, o pertencimento profissional desses sujeitos ao funcionalismo público. Algumas falas demonstraram isso, mas

49 A expressão “Estado capitalista” refere-se aos países que organizam sua estrutura política, social e

econômica nas bases do modo de produção capitalista, atualmente denominados, países de regime de social democracia.

principalmente, essas marcas são observadas através da postura, das rotinas, do ritmo da aula em que o discurso é constantemente atravessado pelas sanções do controle institucional do setor público, caracterizando esses profissionais como professores municipais. Além disso, pôde-se perceber que o efeito de trabalho improdutivo faz parte de uma memória coletiva e ecoa no discurso professoral atual.

P2: “podem ir passando a limpo // então daí você anota na sua observação / que este trabalho foi desenvolvido a partir de um curso oferecido pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho / que se chama Cidadania, Justiça e Trabalho // E dia 25 / o pessoal da Justiça do Trabalho vem para as escolas municipais / para ouvir eles / alguns trabalhos feitos por eles // E nós do português estamos fazendo as paródias // Alguém tem a cartilha que nós usamos na aula / Alguém tem? // Só pra mostrar pra profe daonde surgiu a ideia das paródias // A gente trabalhou esses temas da cartilha / tem outros professores trabalhando também / para reproduzir o aprendizado através das paródias.” (S-23)

Este excerto evidencia uma das características da estrutura da escola pública municipal. A presença de outros setores públicos no planejamento do trabalho pedagógico com o intuito de estreitar laços entre educação e mundo do trabalho. Tal movimento foi representado pela Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (ANAMATRA), demonstrando um dos objetivos do Estado capitalista. A expansão da escola pública justificada pelas necessidades da sociedade capitalista tende a dotar os estudantes de determinados requisitos intelectuais fundamentais para o exercício de uma função no campo de produção. Esses programas sociais apresentam-se com a proposta de promover a formação cidadã dos estudantes, com o pressuposto de estabelecer uma espécie de “parceria” com a escola. No entanto, quando aplicados em aula, funcionam como disseminadores da ideologia dominante, atuando na inculcação de uma cultura legítima.

Tais aspectos se tornam ainda mais claros através do excerto que segue abaixo. Trata-se de uma atividade que foi solicitada pela professora de Língua Portuguesa da turma sobre o material disponibilizado pela ANAMATRA. Os alunos produziram paródias para expressar suas opiniões e “lições” que tiraram da leitura da cartilha disponibilizada pela associação.

Estou me esforçando / um salário eu vou ter

Tudo dando certo / mas eu estou esperto / 13° eu vou ter” (S-24)

A partir deste recorte da paródia elaborada pelos estudantes do 7° ano do Ensino Fundamental, retomo a questão de considerar o trabalho dos professores como improdutivo. Pode-se perceber que se trata de um trabalho do setor público, por isso não produz valor. No entanto, observa-se um certo tipo de sensibilidade comercial no trabalho pedagógico quando este se detém na qualificação de mão de obra, preparando trabalhadores para a reposição no chão da fábrica. O Ensino Fundamental é uma forma diferente de produzir o capital que não se produz através do trabalho dos professores. A esse respeito Ball comenta que

[...] as políticas sociais e educacionais estão sendo articuladas e legitimadas explícita, direta e, muitas vezes, exclusivamente em função do seu papel em aumentar a competitividade econômica por meio do desenvolvimento das habilidades, capacidades e disposições exigidas pelas novas formas econômicas da alta modernidade. (BALL, 2004)

Assim é que se chega à conclusão provisória de que o trabalho pedagógico mesmo sendo classificado como improdutivo, irá se deter em qualificar a força de trabalho, oferecendo os requisitos básicos para que os estudantes tornem-se aptos ao trabalho produtivo, àquele que produz valor e acúmulo de capital para o empresário que a compra.

Surge dessa problemática uma contradição de valores e objetivos. O Estado, na sociedade capitalista atua como regulador do trabalho pedagógico e, em última instância, individualiza o sujeito, caso este não se sujeite livremente as suas leis. A esse respeito, no entanto, Orlandi (2006)50 declara que “[...] não podemos resistir à interpelação, ao assujeitamento à língua, senão não seríamos sujeitos, mas podemos resistir aos modos como o Estado nos individualiza. Podemos, pois, não nos submeter ao modo como as instituições nos “fabricam” em série.”

No processo de individualização, o sujeito sofre uma exclusão das relações sociais. O Estado legitima muito mais do que regras a serem seguidas pelos sujeitos, utilizando-se de meios menos visíveis, mas não menos autoritários para

50

Declaração de Orlandi em entrevista realizada pela Prof. Dr. Raquel Goulart Barreto – UERJ. In: TEIAS, Rio de Janeiro, ano 2007, no. 13-14, jan/dez 2006.

estabelecer as regras de comportamento em sociedade, ou seja, designar as obrigações de cada indivíduo na conjuntura social sob pena da individualização que pode ser exemplificada, no corpus, pelo dever de pagar impostos, mencionado pelo autor da paródia, demonstrando essa necessidade de ter que se estar quite com o Estado para não ser punido. Nesses termos, a individualização é o ato de punir aquele que não pagar.

Outro aspecto relevante pode ser observado no seguinte recorte: “estou me

esforçando / um trabalho eu vou ter.” Este verso denuncia a falsa promessa da

escola burguesa: alimentar a ilusão de que a educação é garantia de se ter emprego51. Sabe-se que o capitalismo caracteriza-se por um processo excludente. Desde a Revolução Industrial, os avanços científico-tecnológicos vêm diminuindo as oportunidades de emprego. Não há lugar para todos, pois este sistema vê a força de trabalho humana como mera mercadoria que pode ser substituída, desvalorizada ou excluída a qualquer tempo.

Os estudantes vêm no 13° salário uma garantia de benefício da estabilidade profissional. Todavia, em um projeto social cujo motor das decisões é o capital, a única garantia que se pode ter é a do aumento da competitividade e individualidade e a conseqüente decadência na oferta de emprego. Por fim, observa-se ainda que os discursos dos estudantes produzem sentidos que vão ao encontro de uma concepção de educação voltada

[...] para estimular o individualismo, para fomentar a competição, para enaltecer a concorrência, para premiar pela produtividade e punir pelos resultados não desejados, permitindo assim selecionar os mais aptos e mais adaptados, de acordo com os valores vigentes nessa sociedade – uma educação para a subserviência. (ORSO, 2008, p. 52)

A seguir, em continuidade aos aspectos observados acerca dos efeitos de sentidos sobre trabalho, encaminha-se uma discussão que objetiva apresentar os efeitos de negação do trabalho nos discursos dos professores.

51 Faço uso da palavra emprego por estar significando ocupação, e não por ser sinônimo de trabalho,

pois se tratam de categorias distintas. A primeira remete-se à ocupação, atividade remunerada; a segunda comporta questões mais abrangentes, pois em seu sentido genérico compreende a ação do homem sobre a natureza e sua transformação, sendo de caráter criativo e criador.