2. Teoria geral dos recursos
2.3 Efeitos dos recursos
2.3.1 Efeito devolutivo
Trata-se o efeito devolutivo de possibilidade que se concede à parte vencida de ver a decisão que lhe é desfavorável ser reanalisada pelo Poder Judiciário. Neste sentido,
devolver quer dizer reapreciar107.
103 MARINORI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sérgio Cruz. Teoria geral do processo. 7. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2013. (Curso de processo civil; v. 2), p. 512.
104 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Recurso extraordinário e o requisito da repercussão geral. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2013, p. 191.
105 NERY JUNIOR, Nelson. Teoria geral dos recursos. 7. Ed. rev. e atual. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2014, p. 400-401.
106 JORGE, Flávio Cheim. Teoria geral dos recursos cíveis. 3. ed. rev., ampl. e atual. com a Reforma Processual – 2006/2007 – São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2007, p. 222.
107 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. O Novo Sistema Recursal Cível Brasileiro: incluindo o trâmite dos recursos no TJSC. Florianópolis: Habitus, 2001, p. 32.
Por meio do recurso interposto devolve-se ao órgão ad quem, o conhecimento da matéria impugnada. Desse modo, o juízo destinatário da impugnação apenas poderá julgar o que o recorrente tiver alegado em suas razões recursais, encerradas com o pedido de nova decisão. E é com este pedido de nova decisão que fixa-se o alcance e o âmbito de devolutividade de todo e qualquer recurso, raciocínio este ligado ao brocardo romano tantum devolutum quantum appellatum. Ressalta-se que o efeito devolutivo sempre presume o ato de interposição de recurso, não sendo possível falar em efeito devolutivo na remessa necessária108.
Cumpre dizer que o tribunal somente pode reapreciar a decisão do magistrado de primeiro grau por causa do efeito devolutivo, já que a ele concede o poder de reanalisar as decisões anteriormente proferidas. Caso não houvesse esse efeito, qualquer ingerência do tribunal sobre a decisão do juiz competente para julgar a causa seria indevida, violando a independência da atuação jurisdicional do magistrado e consequentemente, o princípio do juiz natural109.
O efeito devolutivo tem origem com os recursos, mais precisamente com a appellattio romana, o primeiro recurso que se conhece do estudo do direito. No período do procedimento extraordinário do direito romano, se considerava que os magistrados inferiores exerciam sua competência como delegados dos magistrados superiores, que por sua vez,
exerciam por delegação do imperador, que possuía a competência originária110.
Por isso que o efetivo devolutivo era entendido como uma devolução da competência a órgão hierarquicamente superior. Daí a razão de alguns doutrinadores afirmarem que o efeito devolutivo somente existe quando o órgão competente para analisar a
decisão recorrida for superior ao que a prolatou111.
No direito processual civil atual, por influência do princípio dispositivo, o efeito devolutivo é entendido de forma distinta. Não se compreende mais o efeito devolutivo como “devolução” da competência ao órgão superior. Deve o efeito devolutivo ser entendido como a prolatação de outra decisão do Poder Judiciário por meio do órgão competente, podendo ser
ou não o mesmo órgão que prolatou a decisão impugnada112.
108 NERY JUNIOR, Nelson. Teoria geral dos recursos. 7. Ed. rev. e atual. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2014, p. 401-402.
109 MARINORI, Luiz Guilherme. ARENHART, Sérgio Cruz. Teoria geral do processo. 7. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2013. (Curso de processo civil; v. 2), p. 513.
110 JORGE, Flávio Cheim. Teoria geral dos recursos cíveis. 3. ed. rev., ampl. e atual. com a Reforma Processual – 2006/2007 – São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2007, p. 232.
111 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Recurso extraordinário e o requisito da repercussão geral. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2013, p. 192.
Nesse aspecto, Barbosa Moreira entende que não ocorre efeito devolutivo:
Quando a lei, a título de exceção, atribui competência ao próprio órgão a quo para reexaminar a matéria impugnada, o efeito devolutivo ou inexiste (embargos de declaração), ou fica condicionado a que não se reforme a decisão antes do julgamento do recurso: assim no agravo (art. 529). Fora dessas hipóteses, ao órgão a
quo é vedado praticar qualquer ato que importe modificação, total ou parcial, do
julgamento, ressalvada a possibilidade de corrigir, ex officio ou a requerimento da parte, inexatidões materiais ou erros de cálculo (art. 463, n° I)113.
Contudo, para Nelson Nery Junior não é preciso que o órgão destinatário do recurso seja distinto daquele que proferiu o ato impugnado. Para o autor, os embargos de declaração e os embargos infringentes da Lei de Execuções Fiscais possuem efeito devolutivo, mesmo que dirigidos ao mesmo órgão que proferiu a decisão combatida. O objeto de todo e qualquer recurso é sujeitar o decisum hostilizado a um novo exame pelo órgão ad quem e tal submissão não teria sentido se não permitisse a devolução da matéria impugnada.
Assim, decorre daí o efeito natural de todo e qualquer recurso ser o devolutivo114.
Cumpre ressaltar a possibilidade de recursos possuírem efeito devolutivo diferido, ou seja, a transferência do conhecimento da matéria impugnada não se dá de imediato, mas apenas após algum tempo ou após o decurso de alguma fase do processo. Isto ocorre, por exemplo, no agravo retido que uma vez interposto, não é imediatamente submetido ao órgão ad quem, que dele só analisará mais adiante, quando do julgamento da apelação. 115
Por outro lado, o efeito devolutivo devolve ao órgão ad quem unicamente o conhecimento da matéria objeto de recurso. O juízo destinatário do recurso somente poderá julgar nos limites das alegações do recorrente. Assim, esse raciocínio está associado ao princípio da proibição da reformatio in pejus, que consiste na vedação de reforma da decisão impugnada em prejuízo do recorrente, ou seja, somente quem recorreu poderá beneficiar-se. Destarte, trata-se de lição extraída do princípio dispositivo, no qual preceitua que se a parte deixou de recorrer, entende-se que se conformou com a decisão que lhe foi imposta, não cabendo ao tribunal, de ofício, melhorar sua situação em detrimento da outra. Assim é que deve o tribunal julgar o recurso, apenas levando em consideração a matéria de impugnação, ou seja, o pedido do recorrente. Eis assim a analogia do efeito devolutivo com o princípio
dispositivo, que orienta a temática processual civil brasileira116.
113 BARBOSA MOREIRA, José Carlos. O Novo Processo Civil Brasileiro: exposição sistemática do procedimento. 29. Ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense, 2012, p. 123.
114 NERY JUNIOR, Nelson. Teoria geral dos recursos. 7. Ed. rev. e atual. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2014, p. 403.
115 CÂMARA, Alexandre Freitas. Lições de Direito Processual Civil, vol. II. 17. Ed. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2009, p. 72.
116 MIRANDA DE OLIVEIRA, Pedro. Recurso extraordinário e o requisito da repercussão geral. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2013, p. 193.
Por fim, cumpre ressaltar que, em que pese a impugnação delimite o objeto do novo julgamento, o efeito devolutivo do recurso translada toda a matéria, relativa a tal objeto, “suscitada e discutida” no processo. Assim, mesmo que não tenha sido alegado nas razões do recurso, pode o magistrado analisar argumento relacionado ao objeto, já discutido no transcurso da demanda. Deste modo, por exemplo, na ação em que o autor pugna pela condenação do réu ao pagamento de danos emergentes, bem como de lucros cessantes, e na qual se discutiu a existência da culpa, mesmo que a apelação do réu, se delimite à última rubrica, devolverá ao órgão ad quem também a discussão relativa à culpa, já que está relacionada à discussão de lucros cessantes. Destarte, poderá o tribunal desprover o recurso, absolvendo o réu da condenação em lucros cessantes, declarando a inexistência da culpa,
sendo que o restante da condenação ficará isenta de reanalise, por ausência de impugnação117.