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Efeito do controle de temperatura do biorreator

No documento UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL (páginas 77-80)

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.2 P RODUÇÃO DE PECTINASES POR CULTIVO EM ESTADO SÓLIDO

4.2.2 Efeito do controle de temperatura do biorreator

Na sequência, foram realizados ensaios em biorreator de tambor rotativo nos quais se procurou exercer um controle mais efetivo sobre a temperatura do meio de cultivo sólido. Esta avaliação foi feita em cultivos com volume de ocupação do biorreator de 30%, sem agitação, e 50%, com agitação, condições que, até este ponto do estudo, resultaram nas maiores atividades de pectinases totais (item 4.2.1.1). Para o controle da temperatura, foi utilizado um aspersor de água para resfriar a superfície externa do reator. A remoção de calor neste sistema foi realizada por condução, com as regiões quentes do meio de cultivo entrando em contato com a parede fria do biorreator.

Os perfis de variação de temperatura dos cultivos estático e agitado, realizados com 30 e 50% de ocupação do reator, com e sem controle de temperatura, são ilustrados na Figura 18. Como mostrado nesta figura, na ausência de controle de temperatura, este parâmetro supera os 45oC, valor que poderia, em princípio, prejudicar o processo, tanto pelo fato de ser inadequado ao crescimento de A. niger, que se situa idealmente na faixa de 30 a 35oC (Palacios-Cabrera et al., 2005; Gougouli & Koutsoumanis, 2010), quanto pela

sensível perda de atividade de pectinases observada nessa temperatura (Sandri, 2010). Segundo Mitchell et al. (2006), em cultivos em estado sólido, mesmo com o uso de fluxo de ar e camisa de resfriamento, a temperatura pode aumentar, em um período de poucas horas, de 10 a 20oC acima da temperatura desejada. No entanto, o sistema de arrefecimento utilizado, apesar de sua simplicidade, reduziu significativamente a temperatura do meio em comparação com a condição sem controle, embora tenha ficado evidente a dificuldade em manter-se este parâmetro estável devido à grande quantidade de calor metabólico gerado durante o cultivo.

Figura 18 – Variação da temperatura do meio de cultivo de Aspergillus niger LB-02-SF

com o tempo em biorreator de tambor rotativo com volume de ocupação de 30% - estático (a) e 50% - agitado (b): cultivo com controle de temperatura (■); cultivo sem controle de temperatura (○).

Observou-se que para o menor volume de ocupação (30%), a temperatura, após subir até cerca de 35oC em aproximadamente 48 horas, foi mais facilmente controlada na sequência do cultivo. Nesta condição, como era esperado, determinou-se um crescimento celular maior quando a temperatura do cultivo foi controlada (Tabela 6). Porém, a atividade pectinolítica total sofreu um decréscimo de mais de 50%, sendo reduzida de 170,8 U/g para 84,4 U/g nos ensaios sem e com controle de temperatura, respectivamente. Já no ensaio com 50% de ocupação e mantendo a agitação padrão do sistema, o perfil de concentração celular foi similar, porém a atividade de pectinases totais novamente foi reduziu de 178,2 para 46,4 U/g nos cultivos sem e com controle de temperatura, respectivamente. 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 15 20 25 30 35 40 45 50 Te mperatura ( oC) Tempo (h) (b) 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 15 20 25 30 35 40 45 50 Te mperatura ( o C) Tempo (h) (a)

Tabela 6 – Resultados gerais de cultivos de Aspergillus niger LB-02-SF em biorreator de

tambor rotativo com volume de ocupação do reator em 30% sem agitação e 50% com agitação, com e sem controle de temperatura.

Vol. ocup. 30% 50%

Controle Sem controle Controle Sem controle

Xmax (mg/g) 196,2a ± 1,8 147,9b ± 9,8 181,2a ± 2,0 173,0a ± 5,4 tX,max (h) 72 72 76 72 PT (U/g) 84,4b ± 3,5 170,8a ± 0,7 46,4b ± 8,1 178,2a ± 15,5 Umidade (%) 60a ± 1,6 65,4a ± 2,1 63,9a ± 0,6 69,9a ± 0,5 S0 (mg/g) 396 462 414 423 Scons (mg/g) 215 302 230 319 YP/X (U/mg) 0,43b ± 0,00 1,15a ± 0,06 0,25b ± 0,04 1,06a ± 0,12 YP/S (U/mg) 0,39b ± 0,00 0,56a ± 0,01 0,20b ± 0,03 0,57a ± 0,05 YX/S (mg/mg) 0,91a ± 0,00 0,49b ± 0,02 0,78a ± 0,01 0,54a ± 0,02

Vol. ocup. – volume de ocupação do reator; Xmax – máxima concentração de biomassa; tX,max – tempo em

que ocorreu Xmax; PT – pectinases totais em 96 h; S0 – Concentração inicial de açúcares redutores totais;

Scons – açúcares redutores totais consumidos em 96 h; YP/X – fator de produção específica; YP/S – fator de

conversão de substrato em produto; YX/S – fator de conversão de substrato em células. Umidade inicial –

54%. Letras diferentes (a-b) indicam diferença significativa ao nível de 5% (p< 0,05) para ensaios em duplicata.

Os resultados obtidos nestes ensaios levantam a seguinte questão com respeito ao controle de temperatura: se o crescimento celular foi superior nesta condição, como no caso do ensaio não agitado com ocupação de 30%, ou se o crescimento foi similar, caso do cultivo agitado com ocupação de 50%, por que a atividade de pectinases foi significativamente inferior quando a temperatura foi controlada numa faixa mais favorável ao crescimento? Comportamento semelhante foi observado por Polidoro (2009), em cultivo de A. niger T0005/007-2 em tambor rotativo, tendo este autor sugerido que a produção de pectinases é favorecida quando o microrganismo se encontra sob efeito de estresse. Também em CES, Castro et al. (2015), verificaram que com a redução da atividade de água do meio, houve aumento na atividade de proteases. Os autores apontaram que a redução na atividade de água causou uma condição de estresse que levou a maior indução das enzimas. Para outro parâmetro essencial em bioprocessos, o pH, Malvessi & Silveira (2004), Fontana et al. (2009), Fontana & Silveira (2012) e Meneghel et al. (2014) também constataram que a produção de pectinases por A. oryzae em meio líquido foi praticamente nula em condição favorável ao crescimento (pH em torno de 4,0) e

intensificada quando o crescimento foi inviabilizado (pH em torno de 2,7). O conjunto destes trabalhos mostra, portanto, que a produção das pectinases se dá preferencialmente quando o microrganismo se encontra em ambiente inadequado ao crescimento. Ao analisar os resultados, seria possível se supor que a alta temperatura do meio tenha gerado uma condição de estresse – desfavorável ao crescimento – portanto levando a maior produção de enzimas.

Apesar do aumento da temperatura até 45oC, não houve queda de atividade durante o processo de produção da enzima, como será observado posteriormente na Figura 19-b, demonstrando que a enzima produzida apresenta alguma estabilidade a essa temperatura. Mohsen et al. (2009) e Hendges et al. (2011) relataram que pectinases produzidas por diferentes linhagens de A. niger mostraram ser completamente estáveis a 30oC; porém, as atividades foram reduzidas em aproximadamente 60% e 80%, respectivamente, quando expostas a 40oC por 60 minutos. Considerando os resultados de estabilidade à temperatura realizados para o extrato produzido neste trabalho (dados mostrados no item 4.6.1) e os resultados de Hendges et al. (2011) e Sandri (2010), teoricamente entre 40 e 50oC, a perda de atividade seria em torno de 35%. Esses dados indicam que a velocidade de produção das enzimas é maior que a velocidade de degradação durante o cultivo.

Os resultados destes ensaios mostraram, como descrito, que a natural elevação de temperatura durante o cultivo em meio sólido favorece a produção de pectinases por A. niger LB-02-SF. Esta constatação pode se considerada como uma vantagem para a condução da produção destas enzimas em CES, visto que a temperatura é um parâmetro de difícil controle nesta modalidade de bioprocesso.

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