2. Análise antitruste de restrições verticais
2.3. Efeitos anticompetitivos de integrações e restrições verticais
2.3.1. Efeitos anticompetitivos de integrações verticais
Entre os possíveis efeitos anticompetitivos de integrações verticais, destacam-se a obstrução (ou o fechamento) de mercado (market foreclosure), a extensão de monopólio e a facilitação de implementação de condutas coordenadas entre os concorrentes.
a) Obstrução de mercado (market foreclosure)
Um ato de concentração vertical pode ser motivado pelo intuito de uma empresa de impedir o acesso de empresas rivais a insumos de produção (obstrução vertical upstream) ou a canais de distribuição (downstream).
A obstrução de mercado constitui-se em uma possível estratégia de aumento dos custos dos rivais, o que permitiria, de forma recíproca, que a empresa integrada verticalmente aumente o seu próprio preço.
Ordover, Saloner e Salop (1990) criticam o argumento de que a obstrução de mercado possa produzir efeitos anticompetitivos. De acordo com a exposição do problema, os autores supõem um mercado em dois estágios sucessivos, no qual a oferta de insumos é competitiva antes de uma fusão. Após a fusão, em que os ganhos de eficiência são nulos, a divisão upstream da firma recém integrada se recusa a fornecer insumos aos rivais da divisão downstream.
Essa obstrução de mercado significa que os demais fornecedores do insumo de produção enfrentarão menor concorrência. Como resultado, poderão aumentar seus lucros através do aumento dos preços dos insumos cobrados junto às empresas downstream não integradas. Esse aumento de preços beneficia a firma integrada verticalmente, na medida em que as empresas rivais, arcando com custos de produção maiores, produzirão menos, a um preço maior no mercado consumidor. Assim, a empresa verticalmente integrada terá um aumento de lucro mesmo sem que a integração vertical tenha proporcionado aumento de eficiência.
Contra esse argumento, Ordover, Saloner e Salop (1990) levantam seis objeções principais. Em primeiro lugar, a oferta de insumos disponíveis às empresas rivais não necessariamente reduzem como resultado da integração vertical, porque a empresa verticalmente integrada também reduzirá sua demanda por insumos das demais empresas
Em segundo lugar, pode não ser lucrativo para a firma integrada obstruir o acesso aos insumos para as rivais downstream. Isto é, o aumento do lucro da empresa downstream talvez não compense a perda de lucro da empresa upstream.
Terceiro, os fornecedores locais podem não ter incentivo para aumentar o preço dos insumos. Em última instância, se as empresas fornecedoras aumentarem os preços dos insumos, haverá incentivo para que as empresas downstream comecem a produzir elas mesmas os insumos. Mesmo se a entrada das empresas downstream no mercado upstream for impossível, o aumento de preços dos insumos pelas empresas upstream pode não ser lucrativo. As empresas downstream, enfrentando preços de insumos maiores, podem ser forçadas a diminuir suas demandas pelo insumo. Isto é, a demanda por insumo de empresas não integradas pode ser muito elástica.
Quarto, as empresas cujo acesso foi obstruído pela integração vertical podem responder integrando-se verticalmente às demais empresas upstream. Dessa maneira, as empresas downstream poderiam obter o insumo a preços competitivos, eliminando assim sua desvantagem de custo.
Quinto, uma eventual proposta de integração vertical criaria um problema de barganha (um problema de holdout): a empresa upstream, a ser integrada, sabe que o preço do produto que vende tenderá a aumentar após a operação. A menos que a empresa
downstream faça uma oferta suficiente para compensar a empresa upstream por esse custo
de oportunidade, esta última deve protelar (holdout) sua decisão, na esperança de que outras empresas upstream aceitem a oferta, proporcionando a circunstância para o aumento de preços.
Em sexto lugar, uma vez que as demais empresas downstream terão suas demandas por insumos obstruídas, elas também farão ofertas pela empresa upstream, o que deve elevar seu valor e dificultar a integração.
Considerando essas objeções, a condição central, em um modelo de duopólio, para que uma integração vertical consiga promover a obstrução de mercado é que os ganhos da empresa upstream não integrada excedam as perdas da empresa downstream, cujo acesso ao insumo de produção foi obstruído. Essa condição será satisfeita apenas em mercados com produtos diferenciados, em que o aumento do poder de mercado da empresa upstream
não integrada lhe permitirá aumentar os preços dos insumos, resultando no aumento de preços da empresa downstream (permitindo, por sua vez, que a rival, integrada, acomode seus próprios preços). No caso de produtos homogêneos, a empresa downstream não poderá majorar seus preços, resultando em ajuste exclusivo em quantidades.
Mesmo no caso de produtos diferenciados, se o poder de mercado da empresa
upstream não integrada for excessivamente elevado, o preço que cobrará do insumo que
vende será tão elevado que incentivará a empresa downstream a fazer uma oferta de fusão mutuamente benéfica.
b) Facilitação de implementação de conduta concertada
Integração ou restrições verticais também podem ter efeitos anticompetitivos se forem utilizadas para facilitar implementação de conduta concertada. Nesse caso, a adoção de restrição vertical facilitará a ocorrência de condutas concertadas horizontalmente. Por exemplo, um grupo de fabricantes pode utilizar Fixação de Preço de Revenda com o intuito de facilitar acordo horizontal, na medida em que os preços de revenda ao consumidor final são mais observáveis do que os preços de atacado.
Em sentido mais amplo, a ação de revendedores independentes pode disciplinar fabricantes upstream, na medida em que vão sempre procurar menores preços de atacado. A redução da independência dos revendedores, por exemplo, através de restrições verticais, pode criar condições para a conduta acertada entre fabricantes. Da mesma forma, revendedores podem impor restrições verticais também com o intuito de criar condições para a ocorrência de conduta acertada, desta vez entre os próprios revendedores.