4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.6. Efeitos climáticos
Os efeitos climáticos, por usa vez, estão correlacionados com efeitos antagônicos para o tratamento de água e esgoto, sendo o aumento da temperatura (e consequente redução das chuvas) um redutor de custos para o tratamento de esgoto, mas aumentador de custos para o tratamento de água. O efeito climático no nível de eficiência para empresas que tratam ambos água e esgoto não foi significativo, o que pode ser explicado por esse comportamento antagônico. Mesmo assim, é possível estimar o efeito climático marginal sobre o nível de eficiência para as empresas, ao se extrapolar os efeitos específicos para cada tecnologia ponderado pelo mix de produção (𝐶𝐸𝐼)31.
Em termos médios, o efeito climático reduz o nível de eficiência das empresas, ainda que os efeitos apresentem um desvio-padrão elevado. Um teste de hipótese simples rejeita que 𝐻0: 𝐶𝐸𝐼 = 0 (p-valor < 0,001) para ambas as amostras, ou seja, os resultados sugerem que o aumento da temperatura, e consequente redução da pluviometria, eleva os custos de produção. Considerando a média amostral, o aumento de 1% da temperatura reduziria a eficiência em 16,30%. A Figura 20 apresenta a distribuição dos efeitos climáticos para toda a amostra: apesar do elevado desvio-padrão, os efeitos são, em média, positivos.
30𝜕ln (𝐿)
𝜕𝜓 = 0.3381, 𝑝-𝑣𝑎𝑙𝑢𝑒 < 0.001, 𝑁 = 2,825, Dados em painel com efeitos aleatórios.
Figura 20: Box-Plot dos efeitos climáticos estimados. Fonte: elaboração própria.
Os dados de efeitos climáticos, ainda que não apresentem divergências evidentes por estado (Figura 21) ou bacia hidrográfica (Figura 22), exceto pela região hidrográfica do Paraná, a análise a partir das microrregiões permite identificar padrões regionais (Figura 23). Enquanto a região Sudeste e Nordeste concentram microrregiões nas quais as variações climáticas, em média, contribuíram para a elevação do nível de eficiência (com exceção do estado de Espírito Santo), as regiões Sul e Nordeste apresentaram heterogeneidade dos efeitos e, nas regiões Centro-Oeste e Norte, as variações climáticas contribuíram, em média, para a redução do nível de eficiência. É interessante destacar que a região Centro-Oeste e a região Norte são caracterizadas pela presença do bioma Cerrado e Amazônico, respectivamente, os quais são configurados como Hotspot ambientais e ecológicos, ou seja, vem sendo ameaçados com rápida alteração das coberturas florestais a partir de ações antrópicas (STRASSBURG et al., 2018).
Figura 21: Box-plot dos valores de efeitos climáticos para as unidades federativas. Fonte: elaboração própria.
Figura 22: Box-plot dos valores de efeitos climáticos para as bacias hidrográficas. Fonte: elaboração própria.
Figura 23: Distribuição espacial do efeito climático médio por microrregião. Fonte: elaboração própria.
A divergência entre os resultados gerais obtidos para a região Sudeste e Norte, por exemplo, podem ser explicadas pela incidência de tratamento de esgoto no mix de produção. Os resultados obtidos pelo modelo de fronteira estocástica indicam que o efeito da elevação da temperatura, e consequente redução da pluviometria, são redutores de custos para o tratamento de esgoto, embora elevem o custo do tratamento de água.
Nesse sentido, a Figura 24 apresenta a distribuição espacial da porcentagem de água tratada (WS) no mix de produção. Os resultados destacam a participação de tratamento de esgoto reduzida nas regiões em que o efeito climático gera pressão sobre os custos. Nesse sentido, a expansão do tratamento de esgoto pode ter também o efeito positivo de mitigar a pressão climática sobre os custos de tratamento de água e esgoto. Esses resultados indicam que o efeito climático médio como redutor de custos em algumas regiões esteja associado à presença de empresas exclusivamente tratadoras de esgoto. De fato, a região Sudeste, que concentra os efeitos climáticos negativos, possui 46,5% das empresas que tratam apenas esgoto.
Figura 24: Distribuição espacial da participação de água tratada no mix de produção. Fonte: elaboração própria.
Vale destacar que os efeitos marginais médios estimados pela fronteira estocástica indicam que o mix de produção associado ao break-even do choque climático é 68,08% para o tratamento de água e 31,94% para tratamento de esgoto32. Considerando apenas os municípios que possuem a totalidade da população atendida com tratamento de água e esgoto (N = 618), o tratamento de água representa em média 84,23% do mix de produção, com intervalo de confiança à 95% de ± 1,97%. Ou seja, um mix de produção acima do ponto de break-even, indicando que, na média, mesmo para cidades que já alcançaram a totalidade do tratamento de água e esgoto, o aumento da temperatura pode elevar os custos de produção.
A partir do efeito climático sobre a eficiência (𝑢𝜙) e da tendência de crescimento da temperatura (𝑔) estimado na seção 3.6.2, é possível estimar o custo climático (𝐶𝜙) para as
32 Ver Tabela 7.
Tabela 7. Seja 𝑥 a participação de água tratada no mix, então: (𝑥) ∗ (63.60) + (1 − 𝑥) ∗ (−135.50) = 0 ⇒ 𝑥 = 68.06%
empresas de saneamento gerado pelo aquecimento da temperatura atmosférica33. Considerando a média e o intervalo de confiança 95% para a taxa de crescimento anual da temperatura, bem como para o efeito estimado da temperatura sob o nível de eficiência (𝑢𝜙) foram gerados cenários para os custos climáticos entre 2010 e 2099. Adotando 2010 como base por ser o ano médio da amostra e o custo médio amostral por empresa como custo de referência (𝐶∗), o crescimento acumulado da temperatura ao longo do tempo gera curvas de custos climáticos, as quais estão apresentadas na Figura 25.
Conforme apresentado na Tabela 4, a tendência de crescimento da temperatura média em 0,081% a.a. implica que o crescimento da temperatura média em 1% deve ocorrer entre 12,1 e 12,4 anos, ou seja, em aproximadamente 13 anos. Dado que o custo médio por empresa na amostra é de R$ 72 milhões, e a temperatura média estimada para as regiões amostradas é de 23,94ºC, o acréscimo de 0,24 ºC acumulado até 2023 geraria um custo climático médio entre R$ 9,19 milhões e R$ 11,74 milhões constantes de 2018 por empresa. Até 2036, os efeitos climáticos podem, em média, elevar os custos de produção em 25,5%.
Figura 25: Projeção do custo climático médio por empresa Fonte: elaboração própria.
33 O Anexo D detalha os cálculos realizados para a projeção dos custos climáticos.
5.000.000 10.000.000 15.000.000 20.000.000 25.000.000 30.000.000 35.000.000 40.000.000 45.000.000 C ust o m édi o por em pres a ( R $ 2018) 95% CI