1. ASPECTOS GERAIS DA COISA JULGADA
1.8 Efeitos da coisa julgada
O estudo dos efeitos da coisa julgada é outro tema instigante, ainda que sem tantas divergências doutrinárias, muito embora possa ser verificado sob diversos prismas, a depender da orientação que se siga.
A partir da delimitação realizada no item anterior, sob o enfoque dos reflexos que a coisa julgada material tem em outros processos, pode-se dizer que possui ela um efeito
184 GRINOVER, Ada Pellegrini. Notas ao § 3º in LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia…, p. 68.
185 ITÁLIA, Código de Processo Civil (codice di procedura civile), art. 324. No original: “Art. 324. (Cosa
giudicata formale) Si intende passata in giudicato la sentenza che non è più soggetta né a regolamento di competenza, né ad appello, ne' a ricorso per cassazione, né a revocazione per i motivi di cui ai numeri 4 e 5 dell'articolo 395.” Tradução livre do autor da dissertação.
negativo e um positivo. Há autores que se referem a esses efeitos negativo e positivo como ‘funções da coisa julgada’186, mas essa denominação não é fundamental para o conhecimento
do tema, na medida em que, como afirmando, trata-se apenas de um dos prismas dos efeitos da coisa julgada, lido apenas com outras palavras.
Pelo efeito negativo, tem-se que a decisão acobertada pela res judicata não pode mais ser objeto de discussão em processos futuros. Essa concepção remonta ao direito romano em que, desde aquela época, já se defendia o princípio do bis de eadem re ne sit actio (sobre a mesma relação jurídica não se pode exercer duas vezes a mesma ação).
Portanto, uma vez acobertada uma decisão com o manto da coisa julgada, fica impedido qualquer juiz de conhecer de ações que tenham o mesmo objeto da sentença anteriormente proferida e transitada em julgado.
Desse efeito decorre a possibilidade de se alegar, em processo futuro, a exceção de coisa julgada, exatamente para impedir que nova demanda seja processada e ao final julgada sobre o mesmo objeto já decidido e acobertado pela coisa julgada. Evitar essa duplicidade de demandas, e a consequente duplicidade de coisas julgadas é função do efeito negativo da coisa julgada, que se não deduzido no segundo processo, gera a indesejada sobreposição de coisas julgadas, analisada nessa dissertação.
Talamini define o efeito negativo como uma proibição de qualquer órgão jurisdicional torne a apreciar o mérito do objeto processual sobre o qual já recai a coisa julgada, funcionando como pressuposto processual negativo187.
Já o efeito positivo pode ser aferido como o outro lado da moeda. Uma vez que a questão debatida no processo anterior seja levada a conhecimento de um juiz, deve ele obrigatoriedade reconhecer tal questão nos mesmos moldes em que decidida anteriormente.
É de Liebman conclusão semelhante, em que o autor defende que o efeito (função) negativo (a) da coisa julgada é gerada por reflexo do efeito (função) positivo (a):
“Desde a célebre monografia de Keller, é corrente a afirmação de que a autoridade da coisa julgada já não tem só uma função negativa (consumação da ação), mas também e sobretudo uma positiva, ‘enquanto obriga o juiz a reconhecer a existência do julgado em todas as suas decisões sobre demandas que pressuponham o julgado; modo de ver, aliás, coerente com toda a doutrina da coisa julgada.” 188
186 CHIOVENDA, Guiseppe. Ob. cit., p. 382-383 e PORTO, Sérgio Gilberto. Ob. cit., p. 71. 187 TALAMINI, Eduardo. Ob. cit., p. 130.
Ressalte-se que não se está aqui falando em nova decisão sobre a questão acobertada pela coisa julgada, mas em hipótese em que tal questão é trazida como argumento por uma das partes, ou ainda, como questão prejudicial ao pedido principal do novo processo. Nessa hipótese, o juiz deve reconhecer a existência do julgado, e utilizar o objeto decidido e transitado em julgado como premissa para sentenciar o processo.
Essa é visão acerca do efeito positivo da coisa julgada que se extrai de Celso Neves, para quem esse efeito se traduz na definição vinculante da situação jurídica das partes, por meio da qual a declaração contida na sentença com autoridade de coisa julgada é vinculativa e imutável em qualquer novo processo189. Aduz mais que essa declaração acobertada pela coisa
julgada é apta a produzir uma nova fonte ou título na disciplina da relação processual das partes, saindo do processo com uma nova configuração, vinculando os juízes de qualquer processo futuro190.
Outro enfoque, contudo, pode ser dado na análise dos efeitos da coisa julgada, ainda que não seja mais adotado esse posicionamento pela moderna doutrina.
Manoel Aureliano de Gusmão defende que, além do efeito negativo mencionado, a coisa julgada pode gerar outros dois efeitos: i) fazer direito entre as partes, e em regra, só entre as partes; ii) conferir à parte vencedora a faculdade de proceder à execução forçada do julgado contra a parte vencida, se esta voluntariamente não o satisfazer191.
Em verdade, o primeiro efeito citado pelo autor nada mais é do que uma pré- compreensão do efeito positivo já mencionado, porquanto a partir da ideia de que a coisa julgada faz lei entre as partes surge a consequência de que ela deve ser concebida da mesma maneira como decidida no processo posterior, caso seja deduzida como argumentação.
Quanto ao segundo efeito, não parece ser efetivamente um efeito da coisa julgada, mas da própria sentença. É que não é a res judicata que possibilita essa execução, na medida em que há sentenças não transitadas em julgado, e portanto não acobertadas pela coisa julgada, que são passíveis de serem executadas, como ocorre nas execuções provisórias de sentença. Ademais, uma das eficácias das sentenças é a condenatória, que possibilita que elas sejam executadas para cumprimento do quanto disposto no seu conteúdo. Destarte, não se pode dizer que é a coisa julgada que permite a execução, mas sim a eficácia condenatória, aliada à necessidade de se fazer cumprir essa sentença, que abre a via executiva.
189 NEVES, Celso. Ob. cit., p. 489-490. 190 Ibidem, p. 490-491.
Provavelmente, o autor retirou esse efeito da doutrina romana, que costumava afirmar que a partir da litiscontestatio, surgiam alguns efeitos, um deles o direito à condenação do réu192. Todavia, essa conexão não se aplica à coisa julgada, porquanto a litiscontestatio, como
vislumbrada no direito romano, não era a ação em si, nem mesmo a coisa julgada, mas um acordo feito entre as partes de submeter o caso a um juiz togado193. Destarte, o paralelo, ainda
que interessante para fins de desenvolvimento do tema, não se encaixa à perfeição como efetivo efeito da coisa julgada.
Destarte, na concepção moderna de efeitos (funções) da coisa julgada, pode-se concluir que as acepções negativas e positivas desses efeitos são aquelas que mais ganharam adeptos e que ganharam a maior acolhida da doutrina e da própria legislação, a partir de uma análise interpretativa.
192 ESTELLITA, Guilherme. Ob. cit., p. 18. 193 Vide item 1.1.
2 A SOBREPOSIÇÃO DE COISA JULGADA NO DIREITO ESTRANGEIRO