3. ESTADO ATUAL DO CONHECIMENTO
3.3. Efeitos do manejo nos compartimentos do fósforo do solo
Apesar das limitações existentes nas técnicas de fracionamento químico do P no solo (Condron & Newman, 2011; Gatiboni et al., 2013), muitos trabalhos têm sido feitos ao longo das décadas que seguiram o desenvolvimento dessas técnicas, sendo muitas delas favoráveis em diferenciar efeito de tipo de solo (Tiessen et al., 1984; Smeck, 1985; Sharpley et al., 1987), sistemas de cultivo (Hedley et al., 1982; Dick, 1983; Sharpley & Smith, 1985; Weil et al., 1988; Neufeldt et al., 1999; Tokura et al., 2002; Silva et al., 2003), tempo de cultivo (Tokura et al., 2002), manejo da adubação (Conte et al., 2003, Silva et al., 2003; Santos et al., 2008), rotação de cultura (O’Halloran et al., 1987; Rheinheimer & Anghinoni, 2001, 2003) e preparo de solo (Rheinheimer & Anghinoni, 2001, 2003) nas frações de P do solo.
No entanto, o assunto parece não ter se esgotado, principalmente quando se leva em consideração que grande parte desses estudos foram realizados em vasos, condições estas que apesar de bastante úteis não são capazes de representar com exatidão a dinâmica que ocorre no campo. Além disso, quando os trabalhos eram feitos em campo, o sistema de preparo empregado na maioria das vezes foi o sistema de preparo convencional (SPC), amplamente utilizado na época.
Uma vez que o sistema plantio direto (SPD) tem sido amplamente adotado em função de seus benefícios do ponto de vista ambiental e econômico, e este sistema apresenta dinâmicas química, física e biológica diferenciadas, resultando num maior nível de organização, em relação ao sistema de preparo convencional (Vezzani, 2001), pode-se inferir que particulares transformações do P no solo, por efeito das adubações ou uso pelas plantas,
ocorrerão no plantio direto. Outro ponto a ser destacado é o fato de que o SPD pode ser encarado como um equilíbrio em formação, com propriedades emergentes em função do tempo (Nicolodi, 2007). Assim, são necessários ensaios de longa duração que avaliem de que forma as práticas de manejo já estudadas em outras condições interferem na dinâmica do P e seu uso pelas plantas no plantio direto, já que ao longo do tempo há alterações nas formas de P no solo (Tokura et al., 2002).
O uso dos solos para fins agrícolas provoca alterações em todos os compartimentos do P no solo, seja pelo efeito de queimadas, reduzindo o estoque de Po, preparo do solo reduzindo o Po e o P lábil, ou pela absorção das culturas e adubação, alterando todos os compartimentos.
O P adicionado pelos fertilizantes pode sofrer inúmeras reações no solo sendo que adsorção e precipitação são as principais e a velocidade de sua solubilização, que em geral é menor que 48 horas para fosfatos solúveis (Lindsay & Stephenson, 1959), dependerá principalmente da disponibilidade de água. Durante a solubilização do fertilizante fosfatado, íons presentes na solução saturada que se forma migram em direção ao solo, reagindo com o mesmo e entre si, enquanto a água presente no solo migra em direção ao adubo, de modo que a intensidade da movimentação e produtos de reação dependem da natureza química do fertilizante (Lindsay et al., 1962; Khasawneh et al., 1974, 1979; Sample et al., 1979). De modo geral os principais produtos de reação de fertilizantes fosfatados monocálcicos, como os superfosfatos, são fofasfatos de Al, Fe e fosfatos dicálcicos (Lindsay et al., 1962; Sousa & Volkweiss, 1987b), sendo que 25% do P adicionado como fosfato monocálcico permanece no solo em resíduos em formas insolúveis, como fosfatos dicálcicos e apatitas (Sousa & Volkweiss, 1987b), com disponibilidade às plantas dependente de um possível revolvimento ou alterações químicas promovidas por algumas plantas e seus compostos/resíduos ou microorganismos.
Apesar de importante, o conhecimento das reações primárias que ocorrem na região de aplicação dos fertilizantes fosfatados é incompleta na tentativa de determinar de que forma afeta os compartimentos de P no solo, uma vez que como o ambiente é dinâmico, o P precipitado ou adsorvido pode sofrer novas transformações, bem como aquele contido nos resíduos orgânicos.
Desta forma, a influência da adubação fosfatada nas transformações do P no solo tem sido avaliada com maior esclarecimento em experimentos de longo prazo e a técnica utilizada tem sido o fracionamento químico do P, em especial o desenvolvido por Hedley et al. (1982).
De modo geral, o que se observa é que em solos tropicais a maior parte do P adicionado acaba constituindo a fração de Pi considerada moderadamente lábil (Conte et al.,
2003; Silva et al., 2003) principalmente aquela extraída por NaOH 0,1 mol L-1 que parece ser a mais dinâmica no solo (Rheinheimer & Anghinoni, 2001) dentre as frações menos lábeis. Outra observação importante é a de que a adição de P pouco altera o conteúdo das frações de Po (Conte et al., 2003), sendo que o aumento observado no conteúdo de P total ocorre principalmente em função do aumento no conteúdo de Pi. Apesar disso, Rixon (1966) observou acúmulo preferencial de P aplicado na forma de Po em pastagens.
A absorção de P pelas plantas e remoção pelas colheitas sem posterior reposição do P exportado também altera os compartimentos de P no solo sendo que, apesar das frações consideradas mais lábeis manterem equilíbrio direto com a solução do solo, de onde a planta absorve P, todas as frações contribuem para a nutrição das plantas ao longo dos anos. Nestes casos, formas menos lábeis atuarão repondo formas mais lábeis (Beck & Sanchez, 1994; Gatiboni et al., 2007) e formas orgânicas assumem uma participação maior com o passar dos anos (Gatiboni et al., 2007).
O tamponamento das formas lábeis por formas menos lábeis dependerá do tipo de solo e região, como observados por Tiessen et al. (1984), onde, em solos pouco intemperizados, 86% da variação do P considerado lábil, extraído por resina aniônica, era explicado pela variação de Pi extraído por NaHCO3 e NaOH sendo que o primeiro atua como fonte e o
segundo como dreno do P lábil. Já em solos muito intemperizados, esses autores observaram que 80% da variação do P extraído pela resina era explicado pela variação de Po extraído por NaHCO3, que atua como fonte de P, sendo que o Po extraído por NaOH aparece como
principal dreno.
Poucas são as contribuições de frações orgânicas do P às plantas em ecossistemas naturais de regiões temperadas (Russell, 1973) e isso se deve à baixa taxa de mineralização do material orgânico depositado na superfície do solo. Por outro lado, em regiões tropicais, parte substancial do P absorvido pelas plantas advém dessas frações. Entre os agro-ecossistemas, pastagens em diversas regiões do globo (Rixon, 1966; Sharpley, 1985) e áreas de culturas em regiões tropicais (Enwezor, 1977; Anderson, 1980) apresentam o Po como um considerável supridor do requerimento de P às plantas.
Estudos conduzidos por McLaughling et al. (1988 a,b) mostram que o P contido nos resíduos culturais pode não contribuir significativamente para a nutrição da cultura subseqüente, mas fazer parte do Po do solo, constituindo uma forma de reserva, e que a contribuição do P dos resíduos culturais para as subseqüentes culturas dependerá da disponibilidade de outras formas de P e deverá ser maior, caso o solo seja pobre em P. Por outro lado, Haas et al. (1961) encontraram após 40 anos de cultivo, uma redução de 42% no conteúdo total de Po em solos do sul dos EUA contra 27% em solos temperados do norte
desse país, mostrando a relativa importância das frações orgânicas de P no suprimento das plantas em solos intemperizados.
Apesar de ser evidente que todas as frações de P podem contribuir, até certo ponto e em determinadas circunstâncias, para o crescimento das plantas (Enwezor, 1977), para aquelas frações menos lábeis, isso ocorre em velocidade inferior à demanda das culturas (Gatiboni et al., 2007).