6. Discussão dos Resultados
6.2. Efeitos do Treino Pliométrico
A literatura revista mostra serem inquestionáveis as vantagens da aplicação do treino pliométrico na melhoria dos níveis de força de diferentes populações (Villareal at al., 2008). Ao analisarmos os resultados obtidos, não poderíamos estar mais de acordo com a afirmação anterior, pois os níveis de força dos sujeitos do grupo experimental foram rapidamente recuperados. Do momento de avaliação B, para o momentos de avaliação 2, ou seja, após dois meses do início da nova aplicação do programa de treino pliométrico, os valores obtidos nos parâmetros avaliados são idênticos, não se registando deste modo resultados estatisticamente significativos. Podemos desta forma afirmar que, os ganhos se devem ao facto de existir uma memória biológica, levando a que os sujeitos rapidamente alcançassem resultados idênticos aqueles conseguidos em seis meses de treino.
Os resultados das avaliações seguintes por nós obtidos neste estudo, revelam que, com um plano de trabalho simples, recorrendo a exercícios de pliometria simples e de fácil execução, é possível aumentar os níveis de força dos sujeitos. Sujeitos estes, sem qualquer actividade desportiva, excluindo a
prática das aulas de Educação Física. Em todos os saltos avaliados, verificaram-se diferenças estatisticamente significativas nos sujeitos pertencentes ao grupo experimental, quando o mesmo não se verificou nos sujeitos do grupo de controlo. A distância de cada salto aumentou de avaliação para avaliação evidenciando deste modo o aumento da performance dos sujeitos envolvidos na realização do treino pliométrico. Estes ganhos de força, podem revelar-se de extrema importância na vida futura dos sujeitos, pois, embora uma das críticas feitas ao treino de força em idades baixas seja o aparecimento de lesões, nós sabemos, da literatura, que um baixo desenvolvimento em músculos ou grupos musculares determinados, tem uma relação de proporcionalidade directa com o aparecimento de alguma lesões, como é o caso do desequilíbrio acentuado entre os músculos quadricípites e os isquiotibiais, que proporciona uma maior fragilidade na articulação do joelho, tornando-o mais susceptível ao aparecimento de lesões. Além do mais, quando o treino é apropriado à individualidade das crianças e jovens, os riscos de lesão são reduzidos (National Strength and Conditioning Association, 1985, cit. por Manso et al., 1996). Por isso, ao contrário do senso comum, o trabalho pliométrico deve ser utilizado desde bem cedo na escola já que é um meio eficaz de preparar o corpo (músculos, tendões, ligamentos e articulações) para eventuais choques provenientes da vida de relação. Um trabalho pliométrico bem orientado pode ser um meio válido para uma eficaz prevenção de lesões.
Apesar do nosso estudo não ter contemplado a monitorização de lesões, certo é que elas não ocorreram no decurso do estudo. O facto desta capacidade não ser desenvolvida por se pensar nos riscos para a criança, ou por se acreditar não haver condições biológicas para tal trabalho, hoje em dia, não tem razão de ser, já que existem cada vez mais certezas acerca deste tema, na extensa documentação existente na literatura. (Marques, 1995).
O conjunto dos indicadores testados na nossa amostra está intimamente ligado à produção de força explosiva dos músculos extensores da perna e ao poder de salto que, segundo Gillam (1985), são características importantes no desempenho neuromuscular. Com base nos resultados alcançados, o autor
entende que o treino pliométrico maximiza a coordenação das habilidades neuromusculares. Não poderíamos estar mais de acordo com esta afirmação, pois, os incrementos dos níveis de força nas fases iniciais do treino pliométrico parecem estar mais relacionada com processos neuro-coordenativos que hipertróficos. Assim, tal como aparece referenciado na literatura consultada, parece que a melhoria de força nas fases iniciais e para principiantes se deve essencialmente à coordenação inter e intramuscular, não se relacionando com o aumento do tamanho do músculo (Carvalho, 1987). Deste modo, o desenvolvimento da força em fases iniciais, parece mais relacionada com as adaptações neurais que induzem a melhoria do comando central dos músculos, e, como resultado, melhoria da coordenação, respostas reflexas e eficácia do movimento realizado. O aumento das adaptações ao nível do sistema nervoso proveniente dos exercícios pliométricos torna-se ainda mais importante quando se refere a movimentos desportivos de rápida execução.
Podemos ainda acrescentar que o desenvolvimento da força está intimamente relacionado com a capacidade do sistema nervoso activar convenientemente os músculos, facto este apontado em estudos recentes que referem a precedente activação das UM como condição necessária às alterações miofribilares hipertróficas (Komi, 1986). Também Sale (1992) é da mesma opinião e refere que o aumento da força e da performance em fases iniciais do treino da força se deve preferencialmente às alterações adaptativas no sistema nervoso que optimizam o controlo e a activação dos músculos. Indo de encontro ao anteriormente referido, Potteiger et al. (1999), afirmam também que os incrementos na capacidade de salto melhoram significativamente devido à melhoria da coordenação motora. Esta melhoria poderá estar relacionada com a especificidade dos movimentos utilizados durante o programa de treino (Diallo et al., 2001). Esta noção de especificidade da prática pliométrica está ainda bem expressa em diferentes investigações com atletas e não-atletas (Thomas et al., 2009). No entanto, nem todos os estudos existentes na literatura referente a esta temática vão de encontro aos resultados por nós obtidos, pois Brown et al., (1986) ao realizarem um estudo em
basquetebolistas, não encontraram resultados estatisticamente significativos para os valores obtidos no salto vertical.
Uma outra crítica feita ao treino da força refere-se ao facto das crianças não apresentarem condições biológicas para suportar um esforço desta natureza, sendo necessário evitá-lo antes da puberdade. O problema é que, quando o cidadão comum se refere ao treino da força, pensa-se logo na aplicação de grandes cargas de treino com o intuito de promover o desenvolvimento de massas musculares hipertrofiadas (Sobral, 1988).
A hipertrofia, é o efeito mais visível do treino de força, que se pode traduzir no aumento do volume muscular. Como a capacidade de um músculo produzir força depende da sua secção transversal, do número de fibras musculares e pontes, a massa muscular determina em grande parte o potencial de força do sujeito (Sale et al., 1982). Os resultados obtidos no nosso estudo, vão de encontro ao atrás referido, pois foi possível verificar-se aumentos estatisticamente significativos dos perímetros geminal e crural nos sujeitos envolvidos no programa de treino pliométrico, ao contrário do verificado nos sujeitos do grupo de controlo. Ainda relativamente a este ponto, no nosso estudo verificamos que no grupo experimental, do momento de avaliação 1 para o momento de avaliação 4, a altura e o peso corporal dos sujeitos aumentaram, enquanto que no grupo de controlo, relativamente ao peso corporal, tal não se verificou. Daqui podemos concluir que, houve aumento do volume muscular nos sujeitos do grupo experimental.
Acreditamos portanto, que os efeitos positivos da aplicação do programa de treino, identificados no nosso estudo, se justificam pelo facto do treino pliométrico ser uma forma particular de estimular o sistema neuromuscular (Chu, 1998), ou seja, activar de forma conjugada as fibras musculares e o sistema nervoso, originando que as fibras de contracção lenta “aprendam a comportar-se” como fibras de contracção rápida (Chu, 1996). Neste sentido, as primeiras adaptações são por natureza de ordem neural e à medida que o treino continua ocorrerão provavelmente aumentos nas áreas transversais dos músculos implicados no movimento (Mihalik et al., 2008). Estamos em crer
portanto, que os efeitos por nós identificados decorrentes do treino pliométrico aplicado, serão desta natureza.
Do nosso estudo, podemos referir ainda que, independentemente dos sujeitos serem do sexo feminino ou masculino, os incrementos de força registaram-se em ambos os géneros. No decorrer da puberdade, a massa muscular dos rapazes parece aumentar, relativamente ao peso corporal, em média cerca de 27 a 40% (Israel e Buhl, 1988) e, no fim do crescimento, a força é, em valores absolutos, de 30 a 35% superior, comparativamente com as raparigas (Manno, 1989). Embora se possa verificar que, ao nível da prestação de força entre os dois sexos, os rapazes apresentam uma vantagem significativa, relativamente ao sexo oposto, a verdade é que ambos apresentaram aumentos de força estatisticamente significativos.
Também no que diz respeito ao aumento da área de secção transversal da musculatura envolvida, tanto nos indivíduos do sexo masculino como nos do sexo feminino, envolvidos no programa de treino pliométrico, foram notórias diferenças estatisticamente significativas em ambos.
As conclusões mais evidentes deste estudo apontam para o facto de que após um período de destreino, a performance é rapidamente recuperada, facto este que parece estar mais relacionado com processos neuro-coordenativos. Concluímos também que a inclusão de exercícios pliométricos simples nas aulas de EF tem efeitos positivos na performance múltipla de salto, melhoria essa que parece estar relacionada tanto com neuro-coordenativos como processos hipertróficos.
7. Conclusões
Com base nas hipóteses formuladas e nos resultados encontrados, concluímos que:
1. A ausência do estímulo provocado pelo treino pliométrico realizado, destreino, leva à significativa diminuição nos níveis de força explosiva dos membros inferiores. Esta diminuição, estatisticamente significativa, verificou-se em todos os saltos sujeitos a avaliação, facto esse que não se verificou nos sujeitos pertencentes ao GC. Deste modo, confirma-se a hipótese 1.
2. A nova aplicação do mesmo programa de treino pliométrico produz rápidos incrementos nos níveis de força explosiva dos membros inferiores nos indivíduos sujeitos ao programa de treino com exercício pliométricos simples (GE). Este aumento, estatisticamente significativo, verificou-se em todos os saltos sujeitos a avaliação. Deste modo, confirma-se a hipótese 2.
3. Apenas no grupo experimental foram verificados aumentos estatisticamente significativos na área de secção transversal dos músculos da coxa e da perna. Deste modo confirma-se a hipótese 3.
4. Quando comparados os resultados obtidos por sexos, verificou-se que estes seguem a mesma linha de resultados gerais. As alterações motoras e de composição corporal verificaram-se em ambos os sexos dos sujeitos do GE. Confirma-se assim a hipótese 3, que as alterações ocorridas se verificam independentemente do sexo dos sujeitos.
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