2 REFORMA TRABALHISTA DE 017 E DESEMPENHO DO MERCADO DE TRABALHO
5.2 EFEITOS DOS CONTRATOS INTERMITENTES E EM TEMPO PARCIAL SOBRE O
parece ser adequada. Por outro lado, atenta-se ao fato de que as trajetórias das médias de horas de trabalho contratadas destes grupos, no período que antecede a flexibilização trabalhista, não são semelhantes. Neste último caso, se o efeito estimado da adesão aos contratos em tempo parcial for negativo, é possível interpretar o efeito como uma intensificação de uma tendência anterior em relação ao emprego de contratos de menor jornada.
Nesta seção, foram apresentadas as evoluções da adesão de contratos intermitentes e parciais no período de 2017 até 2019, as diferenças de média das variáveis incluídas nos modelos entre os grupos de tratamento e controle, no ano de 2015, e as trajetórias das médias das variáveis explicadas dos modelos entre estes grupos. A seguir, serão apresentados os efeitos estimados dos contratos intermitentes e em tempo parcial sobre o mercado de trabalho da construção civil.
5.2 EFEITOS DOS CONTRATOS INTERMITENTES E EM TEMPO PARCIAL SOBRE
e 2019.
Tabela 5.5 – Efeitos dos contratos intermitentes sobre o mercado de trabalho da construção civil (2015 – 2019)
Variável Log do
emprego
Log das horas contratadas
Log do salário real
Tratamento Intermitente 0,374*** -0,399*** -0,113***
(0,024) (0,023) (0,012)
Estabelecimento médio 1,090*** 0,008*** 0,031***
(0,018) (0,002) (0,007)
Estabelecimento grande 1,919*** 0,012* 0,038*
(0,047) (0,006) (0,020)
Idade do estabelecimento -0,005 0,000 -0,001
(0,018) (0,000) (0,011)
Estabelecimento contratante de
trabalhador com ensino superior 0,648*** -0,008*** 0,106***
(0,008) (0,001) (0,003)
Constante 2,116*** 3,765*** 7,415***
(0,193) (0,004) (0,118)
Observações 293.948 293.832 286.472
R-quadrado 0,862 0,559 0,786
Efeito Fixo Ano SIM SIM SIM
Efeito Fixo Município SIM SIM SIM
Efeito Fixo Firma SIM SIM SIM
Erro Padrão Robusto Cluster Cluster Cluster
Fonte: Elaboração própria (2021)
Nota: *significativo a 10%; **significativo a 5%; ***significativo a 1%. Os valores entre parênteses são os erros padrão.
No que se refere às horas de trabalho contratadas, o modelo indica que as firmas que adotaram o trabalho intermitente, em média, apresentaram uma queda na jornada de trabalho equivalente a 39,9%, sendo este resultado estatisticamente significante a 1%. Isto já era esperado dado a natureza do contrato intermitente intrinsecamente poupador de horas de trabalho. Nesta especificação, as variáveis relacionadas ao porte dos estabelecimentos, são elas dummies de firma de porte médio e grande, apresentam uma relação direta com as horas de trabalho contratadas. As firmas médias e grandes, em média, apresentaram um aumento de 0,8% e 1,2%
no número de horas contratadas, respectivamente, comparadas às firmas pequenas. Estes resultados foram estatisticamente significantes a 1% e 10%. Além disso, a dummy incluída para trabalhadores com ensino superior indicam que as firmas que contrataram estes trabalhadores apresentaram uma redução das horas de trabalho contratadas de 0,8%. Este resultado é estatisticamente significante a 1%. As variáveis independentes indicadas são capazes de
explicar 55,9% das variações das horas de trabalho contratadas pelos estabelecimentos no período indicado.
No que se refere ao salário real, os resultados do modelo indicam que as firmas que aderiram ao contrato intermitente apresentaram uma queda desta variável de aproximadamente 11,3%
comparado ao seu contrafactual, ou seja, o nível de remuneração se este grupo não tivesse adotado esta política. Considerando que o trabalho intermitente é poupador de horas de trabalho e que este indicador refere-se ao salário mensal, era de se esperar que esta modalidade de contratação apresentasse uma relação inversa com o salário real mensal. Isto porque, caso um trabalhador execute menos horas de trabalho dentro de um mês, tudo mais constante, seu salário mensal será menor. Em relação ao tamanho das firmas, os resultados indicam que firmas de médio e grande porte apresentaram um aumento no salário equivalente a 3,1 e 3,8% comparado aos estabelecimentos pequenos, respectivamente. Estes resultados são significantes estatisticamente a 1% e 10%.
Ademais, a dummy de trabalhadores com ensino superior, incluída no modelo para captar o efeito da qualificação do capital humano sobre as variáveis explicadas, indica que as firmas que contrataram trabalhadores com este grau de qualificação apresentaram um aumento na remuneração dos trabalhadores equivalente a 10,6% em comparação às demais firmas.
Resultado este, estatisticamente significante a 1%. Os resultados indicam que 78,6% do salário real médio nos estabelecimentos pode ser explicado pelas variáveis independentes. Faz-se necessário destacar que, nas três especificações apresentadas acima, o efeito da idade das firmas não apresentou significância estatística em nenhum dos casos.
A Tabela 5.6 apresenta os resultados estimados do modelo utilizado para avaliar o efeito da flexibilização do trabalho parcial no mercado de trabalho da construção civil. Ao analisar os efeitos sobre o nível de emprego, os resultados indicam que as firmas que aderiam ao contrato parcial entre 2017 e 2019, apresentaram um aumento nesta variável de 19,6% comparado ao seu resultado contrafactual esperado estimado pelo modelo de diferenças em diferenças. Este resultado é estatisticamente significante a 1%. As dummies de porte das empresas, incluídas para avaliar o efeito dos estabelecimentos possuírem tamanhos médios ou grandes, apresentaram resultados estatisticamente significantes a 1%. Portanto, caso a firma seja média ou grande, o nível de emprego seria cerca de 109% e 193% maior, o que evidencia novamente que as firmas médias e grandes, por definição, apresentam maior nível de emprego.
As firmas que no período contrataram trabalhadores com ensino superior apresentaram um aumento no nível de emprego equivalente a 64,8%. Este resultado é estatisticamente significante a 1%. Os resultados indicam que 86,2% do nível de emprego pode ser explicado por este modelo.
Tabela 5.6 – Efeitos dos contratos parciais sobre o mercado de trabalho da construção civil (2015 – 2019)
Variável Log do
emprego
Log das horas contratadas
Log do salário real
Tratamento Parcial 0,196*** -0,046*** -0,060***
(0,016) (0,005) (0,006)
Estabelecimento médio 1,092*** 0,008*** 0,031***
(0,018) (0,001) (0,007)
Estabelecimento grande 1,929*** 0,007 0,035*
(0,047) (0,006) (0,020)
Idade do estabelecimento -0,005 0,001* -0,001
(0,018) (0,000) (0,011)
Estabelecimento contratante de
trabalhador com ensino superior 0,648*** -0,009*** 0,106***
(0,008) (0,001) (0,003)
Constante 2,115*** 3,763*** 7,416***
(0,193) (0,004) (0,118)
Observações 293.948 293.832 286.472
R-quadrado 0,862 0,525 0,786
Efeito Fixo Ano SIM SIM SIM
Efeito Fixo Município SIM SIM SIM
Efeito Fixo Firma SIM SIM SIM
Erro Padrão Robusto Cluster Cluster Cluster
Fonte: Elaboração própria (2021)
Nota: *significativo a 10%; **significativo a 5%; ***significativo a 1%. Os valores entre parênteses são os erros padrão.
A estimação deste modelo, utilizado para avaliar os efeitos dos contratos parciais sobre as horas de trabalho contratadas, indica que as firmas que aderiram à esta forma de contratação apresentaram uma redução, em geral, da jornada de trabalho dos empregados de aproximadamente 4,6%. Ao considerar que o trabalho parcial é intrinsecamente poupador de horas de trabalho, pode-se concluir que este resultado já era esperado. No que se refere às variáveis incluídas para estimar os efeitos do porte dos estabelecimentos, apenas a dummy indicadora das firmas de porte médio apresentou um parâmetro estatisticamente significante, neste caso, a 1%. Os resultados sugerem que as firmas de médio porte apresentaram um aumento de 0,8% das horas de trabalho contratadas.
Além disso, dentre as seis estimações apresentadas neste estudo, a única no qual o parâmetro associado à idade da firma é estatisticamente significante é esta. Neste caso, o aumento em uma unidade na idade das firmas resulta em um aumento de 0,1% das horas de trabalho contratadas.
Ademais, de acordo com este modelo, as firmas que contrataram trabalhadores com ensino superior apresentaram uma redução nas horas de trabalho contratadas equivalente a 0,9%, sendo estes resultados estatisticamente significantes. As variáveis independentes, de acordo com os resultados, foram responsáveis por explicar aproximadamente 52,5% das horas de trabalho contratadas entre 2015 e 2019 na construção civil.
Sobre o salário real, os resultados indicam que os trabalhadores das firmas que em algum momento aderiram ao contrato parcial, pelo modelo de diferenças em diferenças, apresentaram uma redução salarial de aproximadamente 6%. Faz-se necessário destacar que este resultado é estatisticamente significante a 1%. Em relação ao tamanho do estabelecimento, os resultados indicam que as firmas médias e grandes, comparadas às pequenas, apresentaram salários reais maiores. Estes resultados foram estatisticamente significantes a 1% e 5% e indicam que os trabalhadores de firmas médias e grandes têm salários 3,1% e 3,5% maiores do que os demais estabelecimentos.
A variável binária incluída para captar o efeito de contratar trabalhadores com ensino superior, indica que, para os trabalhadores deste grupo de firmas, há um aumento salarial de aproximadamente 10,6%, indicando que há um prêmio salarial associado às firmas que investem em capital humano. Este resultado é estatisticamente significante a 1%. Os resultados indicam que as variáveis explicativas do modelo são responsáveis por explicar 78,6% do salário real dos trabalhadores no período analisado.
Os modelos adotados neste estudo a fim de avaliar o efeito da flexibilização do mercado de trabalho a partir da criação do contrato intermitente e flexibilização do contrato parcial apresentaram resultados importantes com relação às teorias econômicas de mercado de trabalho. Os efeitos do tratamento sobre as variáveis explicadas, ou seja, o nível de emprego, as horas de trabalho contratadas e o salário real, apresentam o mesmo comportamento em relação ao trabalho parcial e ao trabalho intermitente. Ao considerar que tanto a criação do contrato intermitente quanto a flexibilização do trabalho parcial apresentam o mesmo objetivo, ou seja, aumentar o conjunto de possibilidades de alocação do trabalho para os demandantes e os ofertantes deste fator de produção, já era esperado que fosse observado os mesmos
comportamentos dos resultados para estas duas alterações regulatórias no mercado de trabalho.
No que se refere ao emprego, as firmas que aderiram a estas formas alternativas de contratação apresentaram aumento deste indicador. Este resultado, corrobora com o modelo microfundamentado apresentado por Boeri e Van Ours (2008), no qual indica que as flexibilizações no mercado de trabalho no sentido de ampliar o conjunto de possibilidade de alocação por parte dos agentes tendem a provocar aumento no nível de emprego. Este aumento no nível de emprego, de acordo com o modelo, seria resultado de uma elevação da oferta e da demanda por trabalho. Em relação à jornada de trabalho, as firmas que entre 2017 e 2019 aderiram aos contratos intermitentes e parciais apresentaram uma redução das horas de trabalho contratadas. Este efeito já era esperado. Ao considerar a natureza poupadora de trabalho destas formas de contratação, evidenciava-se que as firmas que fizessem uso destas modalidades contratuais apresentariam redução das jornadas de trabalho dos seus empregados.
Sobre o salário real, o efeito observado sobre os trabalhadores das firmas que sofreram as intervenções foi uma redução da remuneração. Conforme apresentado por Boeri e Van Ours (2008), o efeito da flexibilização do trabalho sobre o salário tende a ser uma redução desta variável. Isto porque, ao aumentar o conjunto de possibilidades de alocação, trabalhadores que a priori não estavam dispostos a trabalhar, podem dispor-se ao trabalho, provocando um aumento da oferta deste fator de produção. Este resultado pode ser revertido, a depender do efeito da flexibilização sobre a demanda por trabalho e as elasticidades preço da demanda e da oferta deste fator de produção. De qualquer maneira, no caso brasileiro, para o setor de construção civil prevaleceu a redução do salário como resultado da flexibilização das formas de contratação.
Faz-se necessário destacar que os efeitos do tratamento são heterogêneos entre diferentes grupos de trabalhadores. A heterogeneidade dos resultados foi observada em relação aos seguintes aspectos dos trabalhadores: idade, ensino fundamental, ensino médio, homem, mulher, negro e ocupação (servente de obras ou pedreiro). Estes resultados foram devidamente apresentados nos apêndices deste trabalho. Neste sentido, observou-se que os estabelecimentos tratados apresentaram a média de idade dos trabalhadores inferior à média de idade dos trabalhadores do grupo de controle. Este resultado foi observado em relação ao grupo tratado pelo trabalho intermitente e também pelo trabalho parcial.
A média de idade dos trabalhadores dos estabelecimentos aderentes ao contrato intermitente, de acordo com os resultados, foi 1% menor comparado aos estabelecimentos que representaram o grupo de controle, sendo isto estatisticamente significante a 1%. Ademais, observou-se que a média de idade dos trabalhadores das firmas que aderiram ao contrato parcial era 1,4% menor em comparação aos demais estabelecimentos, resultado também estatisticamente significante a 1%.
Em relação aos demais grupos, foram observados os efeitos do tratamento em relação ao nível de emprego. Neste sentido, observou-se que estes efeitos foram menores para quase todos os grupos indicados comparado aos resultados apresentados nesta seção. Ao considerar que o efeito geral do tratamento relacionado ao contrato intermitente sobre o nível de emprego indica que as firmas que aderiram ao contrato intermitente apresentaram um aumento deste indicador de aproximadamente 37,4%, observa-se que o efeito ao analisar grupos específicos é diferente.
Exceto para homens, agrupamento que apresentou efeitos de mesma dimensão, todos os demais grupos apresentaram efeitos inferiores comparado ao resultado geral. Por exemplo, o número de empregos para os trabalhadores do sexo feminino foi apenas 10,3% maior para os estabelecimentos tratados. As mulheres são o grupo que apresentou menor aumento do emprego em função do trabalho intermitente. Para os trabalhadores com ensino fundamental, ensino médio, negros, serventes de obras e pedreiros, o efeito do estabelecimento contratar trabalhadores intermitentes sobre o nível de emprego foi um aumento de aproximadamente 11,4%, 33,8%, 32,4%, 20,7% e 24,1%, respectivamente.
Para os estabelecimentos que contrataram trabalhadores parciais, efeitos heterogêneos também foram observados. Considerando que o efeito geral estimado sobre o nível de emprego para os estabelecimentos que receberam este tratamento foi um aumento de 19,6%, os resultados indicam que o efeito do tratamento é menor para todos os oito grupos apresentados. Da mesma forma que para as firmas que aderiram ao contrato intermitente, para as firmas que contrataram trabalhadores parciais, o grupo dos homens representa o agrupamento que apresentou efeitos estimados mais próximo do resultado dos grupos agregados. Neste caso, nos estabelecimentos que receberam estes tratamentos, o número de empregos para trabalhadores do sexo masculino foi maior. Por outro lado, para os trabalhadores com ensino fundamental, observou-se o menor aumento do nível de emprego em função do tratamento. Analisando este grupo específico, observa-se que o aumento no nível de emprego observado para as firmas tratadas foi de 8,2%.
Para trabalhadores com ensino médio, mulheres, negros, serventes de obras e pedreiros o efeito
associado ao tratamento foi um aumento do emprego de 15,5%, 9,3%, 17,4%, 15,1% e 13,5%, respectivamente.
No que se refere ao tamanho dos estabelecimentos, as firmas médias e grandes apresentaram nível de emprego, horas de trabalho contratadas e salário real dos trabalhadores maiores que os demais estabelecimentos. As firmas médias e grandes, por definição, apresentam um maior número de empregados. Desta forma, para estes grupos, já era esperado um aumento do emprego. Sobre as horas de trabalho e salário real, também seria esperado que as firmas de maior porte pagassem uma maior remuneração aos seus trabalhadores já que o maior tamanho geralmente está associado a uma maior produtividade, enquanto o comportamento em relação às horas pode estar associado ao tipo de emprego nos estabelecimentos maiores, que podem demandar contratos mais rígidos (maior jornada).
Sobre a variável incluída nos modelos para captar o efeito das firmas contratarem trabalhadores com ensino superior, os resultados indicam um efeito positivo em relação ao emprego e ao salário. Isto pode indicar que firmas que investem em capital humano são mais produtivas e, portanto, pagam salários maiores e contratam mais trabalhadores. Por outro lado, os resultados indicam que nestes estabelecimentos há uma menor jornada de trabalho, o que pode estar associado ao perfil do emprego dos trabalhadores mais qualificados.
Os resultados parecem indicar, portanto, que os principais efeitos da reforma trabalhista brasileira sobre o mercado de trabalho da construção civil, para o período de 2017 até 2019, foram o aumento do emprego e a redução da jornada de trabalho e do salário real dos trabalhadores. Os autores que defendem a reforma, como Chahad (2017), já sinalizavam acerca da tendência de que fosse observado aumento do emprego, de modo geral. Por um lado, este resultado é positivo, na medida em que indica a capacidade da reforma em dinamizar o mercado de trabalho e, possivelmente, elevar a produtividade dos trabalhadores da construção civil. Por outro lado, autores como Cardoso e Azaïs (2019) e Biavaschi (2017) criticam a Lei 13.647 da reforma trabalhista, sobretudo em relação ao seu efeito sobre a qualidade do trabalho, de modo geral. Para estes autores, a reforma está relacionada a um processo de precarização do trabalho, o que se evidenciaria por uma redução dos direitos trabalhistas e potenciais reduções salariais dada a flexibilidade disponível no processo de alocação do trabalho. Os resultados indicam que na construção civil, de fato, a flexibilidade referente ao trabalho parcial e ao trabalho intermitente parece estar relacionada com uma redução das horas de trabalho e do salário dos
trabalhadores. A longo prazo é preciso avaliar quais serão os efeitos observados, com a maior disponibilidade de informações, e quais serão os efeitos indiretos sobre o segmento informal.
Se por um lado a reforma trabalhista parece estar relacionada a um processo de dinamização do mercado de trabalho formal na construção civil, por outro, os resultados podem ser desfavoráveis aos trabalhadores, sobretudo aqueles de baixa qualificação.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desde a década de 1980, o debate acerca da importância da flexibilização do mercado de trabalho para a geração de emprego tem se acirrado. Neste contexto, inúmeros países como Inglaterra, Alemanha, França e México têm adotado reformas trabalhistas com este intuito. No Brasil, a Lei nº13.647, sancionada em 2017 (BRASIL, 2017), alterou de maneira significativa o marco regulatório do mercado de trabalho formal brasileiro. Nesse sentido, este trabalho teve por objetivo analisar os efeitos desta lei, sobretudo no que se refere à criação do trabalho intermitente e à flexibilização do trabalho a tempo parcial, sobre o emprego, a jornada de trabalho e a remuneração no setor da construção civil entre 2017 e 2019.
O modelo microfundamentado, apresentado por Boeri e Van Ours (2008), utilizado como referencial teórico neste trabalho, indica que as flexibilizações no mercado de trabalho que promovem um maior conjunto de possibilidades de alocação deste fator tendem a aumentar o emprego. Por outro lado, o efeito sobre o salário dependerá sobretudo do impacto sobre a demanda e oferta por trabalho, principalmente em relação às elasticidades-preço destes fatores.
Com base neste modelo e nas evidências identificadas na literatura, foram estimados dois modelos econométricos de dados em painel, a nível de estabelecimento, para o período de 2015 a 2019, a fim avaliar os efeitos associados às flexibilizações relacionados aos contratos de trabalho intermitente e parcial, respectivamente. O estudo adotou o modelo de diferenças em diferenças e o método de estimação por efeitos fixos para estimar os efeitos de interesse. Foram analisados 59.234 estabelecimentos da construção civil.
Os resultados encontrados, para o período analisado, confirmam a hipótese inicial de que flexibilizações laborais que promovam um maior conjunto de possibilidades de alocação do trabalho tendem a aumentar o emprego. Em relação à remuneração, observou-se que, nos estabelecimentos que aderiram ao trabalho intermitente e parcial, houve uma redução do salário dos trabalhadores. Baseando-se no referencial teórico, este resultado já era de certa forma esperado e pode ser justificado pela interação entre a oferta e a demanda por trabalho no segmento da construção civil entre 2015 e 2019. No que se refere à jornada de trabalho, para o período analisado, os resultados corroboram com a hipótese inicial de que as firmas que aderissem às formas de contratação flexíveis apresentariam redução das horas de trabalho contratadas. Dada a natureza intrinsecamente poupadora de trabalho destas formas de contratação, seria plausível supor que as firmas que fizessem uso destas modalidades
contratuais apresentariam uma redução das jornadas médias de trabalho dos seus empregados.
Em relação ao tamanho, os estabelecimentos de médio e grande porte apresentaram aumento do emprego, das horas de trabalho contratadas e da remuneração em comparação às demais firmas. Por definição, estes estabelecimentos apresentam maior número de trabalhadores, logo o resultado em relação ao emprego já era esperado. Além disso, empresas maiores tendem a ser mais produtivas, o que justificaria os salários maiores. Sobre as horas contratadas, o comportamento observado pode ter relação com o tipo de emprego nos estabelecimentos médios e grandes, que podem demandar jornadas de trabalho mais extensas.
Além disso, os resultados também indicaram que as firmas que contratam trabalhadores com nível superior, de modo geral, apresentaram maior nível de emprego e remuneração e menor volume de horas de trabalho contratadas. Estes resultados parecem indicar que há um prêmio salarial associado às firmas que investem em capital humano. Além disso, o maior nível de emprego pode indicar que estas firmas são mais produtivas e, portanto, comportam um maior volume de trabalhadores. Em relação ao efeito sobre as horas de trabalho, o tipo de trabalho nestes estabelecimentos pode demandar jornadas laborais mais curtas.
Sobre as limitações do trabalho, a base de dados da RAIS não identifica, diretamente, os contratos de trabalho parcial no período anterior à reforma. Esta indisponibilidade de dados representa a principal limitação deste trabalho, tendo em vista que um dos objetivos foi avaliar os efeitos da reforma associados à flexibilização do contrato parcial. Tecnicamente, esta questão pode ter impacto na identificação dos grupos de tratamento e controle associados à esta forma de contratação. Ainda assim, se considerarmos como grupo de tratamento apenas os estabelecimentos que utilizaram o trabalho parcial flexibilizado, então as firmas tratadas serão apenas aquelas identificadas a partir de 2017 e os efeitos captados sobre as variáveis de interesse seriam mensurados apenas em relação ao trabalho parcial flexibilizado. Isto foi feito, ou seja, este trabalho não avaliou o efeito do contrato parcial, mas sim o efeito de flexibilizar esta forma de contratação, portanto o efeito de, na margem, aumentar a flexibilidade desta modalidade contratual.
O estudo contribui com a análise dos efeitos da reforma trabalhista brasileira na construção civil no que se refere à três fatores chaves do mercado de trabalho: nível de emprego, horas de trabalho contratadas e salário real. A análise dos efeitos da reforma trabalhista neste segmento,