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Efeitos entre terceiros

No documento Paulo Sergio Velten Pereira (páginas 168-172)

CAPÍTULO 3 A EXCEÇÃO DO CONTRATO NÃO CUMPRIDO

3.4 Os efeitos da exceptio non adimpleti contractus

3.4.2 Efeitos entre terceiros

Além de ser argüida perante os titulares originários do crédito sinalagmático, a exceção do contrato não cumprido também pode ser oponível em face daqueles que não

134 Art. 400. A mora do credor subtrai o devedor isento de dolo à responsabilidade pela conservação da coisa,

obriga o credor a ressarcir as despesas empregadas em conservá-la, e sujeita-o a recebê-la pela estimação mais favorável ao devedor, se o seu valor oscilar entre o dia estabelecido para o pagamento e o da sua efetivação.

participaram diretamente do vínculo prestacional desde sua origem, mas que posteriormente, são atingidos por seus efeitos.

Na lição de Moreno (2004, p. 93), para conhecer o alcance e eficácia do remédio perante outros sujeitos, faz-se necessário apreender a finalidade e o fundamento da exceptio, e nesse sentido:

[...] recordemos que se trata de un remedio que se otorga sólo respecto de los créditos sinalagmáticos, en orden al mantenimiento, durante la fase de ejecución de la relación, del equilibrio preexistente, que se materializa en el principio del cumplimiento simultáneo de los mismos. Son estos, créditos que están previamente conexionados, equilibrados entre sí, y con la exceptio se trata de impedir el desequilibrio de la relación, con el conseguinte prejuicio para una de las dos partes implicadas.

O equilíbrio da relação contratual é “uma realidade objetiva”, passível de ser modificada, independentemente de figurar como inadimplente de uma das prestações recíprocas, o obrigado originário ou um terceiro. Assim, a exceptio poderá ser oponível contra aquele que ingresse na relação jurídica sinalagmática, titular ou não de um direito próprio. Esse, portanto, é o requisito necessário para o exercício da ação (MORENO, 2004).

Lopes (1959) inclui entre as hipóteses, os casos de delegação, expromissão, cessão de crédito, cessão de contrato, ação subrogatória, fiança e contratos a favor de terceiros.

Na delegação, o novo devedor (terceiro), chamado de delegado, assume a prestação do devedor originário (delegante) com o consentimento do credor, aqui denominado delegatário.

Na expromissão, a diferença é que o terceiro apresenta-se espontaneamente ao credor para liberar o antigo devedor e sem o consentimento deste.

Em qualquer dos casos, têm-se duas relações obrigacionais distintas, apesar de muito próximas: a antiga, entre delegante e delegado. E a nova, entre credor-delegatário e terceiro-devedor-delegado.

Assim, eventual exceptio que o delegado possa opor ao delegante, em face da antiga relação, não será oponível por este ao delegatário, salvo, em caso de expromissão, pelo próprio inadimplemento do delegatário diante do delegante, defendendo Lopes (1959, p. 319) que:

[...] se o terceiro se oferece espontaneamente para assumir a responsabilidade pelo adimplemento de um débito de outrem, não pode opor ao credor as exceções de inadimplemento relativas às relações entre ele e o devedor originário, mas pode, ao

contrário, opor-lhe essas mesmas exceções se disserem respeito ao inadimplemento do próprio credor em relação ao devedor originário e, isto mesmo, no caso em que este haja sido liberado.

Nessa situação a inoponibilidade da exceção representaria um prêmio ao credor inadimplente.

Em caso de pura delegação, em que a nova obrigação é estipulada a título de encargo para o terceiro (que é devedor do devedor originário), este liquidará seu próprio débito ao pagar ao credor a dívida do delegante, razão pela qual a exceptio será inoponível pelo terceiro (pelo fato de haver aceito o encargo) em face do credor delegatário. Nessa hipótese, o terceiro que ingressa na relação jurídica pode opor as exceções que tenham por fundamento a obrigação delegada, todavia, é vedado argüir exceções baseadas em outras relações, seja com o credor ou com o devedor liberado da obrigação.

Na cessão de crédito, assim como na própria cessão de posição contratual ou cessão do contrato, as exceções inerentes ao cedente passam para o cessionário com a transmissão das obrigações.

A peculiaridade na cessão de crédito é que o cedente fica responsável ao cessionário pela existência do crédito ao tempo da cessão135. Afora essa, nenhuma outra responsabilidade caberá ao cedente. Perfeita que seja a cessão, o cessionário ingressa na mesma posição jurídica do cedente.

Já o devedor, também denominado de cedido, pode opor ao cessionário e ao cedente, as exceções que lhe competirem. Mas quanto a este último, apenas as exceções que tinha no momento em que tiver conhecimento da cessão.

Na assunção de dívida, por sua vez, o terceiro que assumir a obrigação do devedor originário não pode opor a exceptio que este eventualmente pudesse ter em relação ao credor, operando-se, em razão disso, certa mudança na extensão da obrigação, que passará a vigorar apenas entre o novo devedor e o credor. Nesse caso, o devedor primitivo somente não ficará exonerado se o terceiro que assumir a obrigação era insolvente ao tempo da assunção e o credor desconhecia esse fato.

Na sub-rogação, o terceiro que paga a dívida do devedor originário, recebe todos os direitos, ações, privilégios e garantias do credor primitivo, recebendo, na mesma proporção, a possibilidade que este tinha de opor a excepto e de com ela ser confrontado pelo devedor.

135 É que reza o art. 295 do CC/2002: Na cessão por título oneroso, o cedente, ainda que não se responsabilize,

Na fiança, se o fiador for demandado pelo pagamento da dívida do devedor principal, além do direito de exigir a exceptio escussionis, alegando o benefício de ordem (nos casos em que o benefício o aproveita), pode suscitar a exceção do contrato não cumprido, em face da cobrança que lhe endereça o credor, na hipótese de este encontrar-se inadimplente.

A exceptio também estará presente na estipulação em favor de terceiro, à medida que a este terceiro, beneficiário da estipulação, é permitido exigir a obrigação do promitente que, como devedor na relação sinalagmática, pode opor a exceção do contrato não cumprido, tanto contra o terceiro beneficiário (na hipótese de este exigir o cumprimento da prestação), como contra o próprio estipulante inadimplente. O direito titularizado e exercitado pelo terceiro deriva da mesma fonte da qual surge o direito à contraprestação do estipulante.

Do mesmo modo, a exceção do contrato não cumprido também é possível de ser suscitada na promessa de fato de terceiro e no próprio contrato com pessoa a declarar. No primeiro caso, tanto pelo promitente quanto pelo terceiro, quando este aquiesce ao cumprimento da obrigação, em relação ao credor inadimplente. No segundo, a terceira pessoa nomeada, que adquire os direitos e assume as obrigações decorrentes do contrato, pode opor a

CAPÍTULO 4 - A ARGÜIÇÃO DA EXCEÇÃO DO CONTRATO NÃO CUMPRIDO

No documento Paulo Sergio Velten Pereira (páginas 168-172)