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Efeitos Legais Proveniente do Reconhecimento da Dupla Parentalidade

4. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA E DUPLICIDADE PARENTAL: ANÁLISE

4.3 Efeitos Jurídicos decorrentes da Paternidade Socioafetiva e da Duplicidade

4.3.1 Efeitos Legais Proveniente do Reconhecimento da Dupla Parentalidade

As consequências legais que podem ser elaboradas por meio do reconhecimento da dupla parentalidade devem ser analisadas, pois adentram nas relações familiares.

Póvoas (2012) em sua obra trata a multiparentalidade ou dupla parentalidade e o parentesco com a família afetiva quando diz que a multiparentalidade ao ser reconhecida judicialmente, estabelece formalmente o vínculo entre pai e filho e acaba por estender seus efeitos por todas as linhas de parentesco. Assim então, surge a vinculação do filho afetivo com toda a família do pai ou mãe afetivos, tanto em relação ao parentesco colateral quanto em relação ao parentesco em linha reta. Ademais, quando uma pessoa se torna filho afetivo, os familiares passarão a ser parentes, constituindo todos os direitos e deveres proveniente do parentesco. Ainda, o filho poderá, caso queira, inserir o sobrenome da família afetiva, alterando o registro de nascimento.

Outro efeito causado é o de alimentos. Com o reconhecimento da dupla paternidade, não só os pais, mas a família afetiva poderá dispor dos alimentos. Disposto no artigo 1.694 do Código Civil de 2002, em outras palavras, no caso da multiparentalidade, poderá ser exigido alimentos de toda a família socioafetiva, como avós, irmãos, tios, etc. Da mesma forma que a família afetiva também pode pleitear alimentos para o filho afetivo.

Barbosa e Pereira (1999) explicam que ao reconhecer a paternidade socioafetiva, além de reconhecer o direito ao afeto, é necessário assegurar à criança todos os direitos que a permitam desenvolver-se de forma plena e

adequada, como o direito à educação, saúde, segurança, alimentação, lazer entre tantos outros.

Venosa (2010, p. 385) completa dizendo em sua obra,

Em sentido jurídico, eles podem apresentar um entendimento muito mais extenso do que o exibido na linguagem comum, podendo compreender além dos alimentos propriamente ditos, tudo que for essencial para saúde, educação, vestimenta e moradia. Dessa forma, percebe-se que os alimentos não compreendem apenas o imprescindível ao sustento, mas também o fundamental para a conservação da condição social do alimentado.

Nessa perspectiva, há o fundamento da assistência econômica entre os membros familiares, havendo sempre a verificação da necessidade e possibilidade, ou seja, sempre deve-se analisar as necessidades de quem compete e as possibilidades do que é obrigado a fornecer.

Além disso, o artigo 1.696 do código civil de 2002 expõe que “a prestação de alimentos é recíproca entre pais e filhos, e extensivo a todos os ascendentes, recaindo a obrigação nos mais próximos em grau, uns em falta de outros”. Deste modo, se tratando de um direito recíproco os pais afetivos também poderão pedir alimentos para os filhos.

Um próximo efeito, é a guarda da criança diante da duplicidade parental, Póvoas (2012) esclarece que a fixação da guarda da criança deve sempre resguardar o seu melhor interesse, ou seja, deve-se buscar quem possui uma maior afinidade com o menor e boas condições para criá-lo. Alguns tribunais já têm decidido a favor da guarda para aquele com quem a criança apresenta se sentir mais segura e com quem ela demonstra ter uma maior afetividade.

Cassetari (2014) aduz que a guarda pode ser compartilhada ou unilateral. Nos casos em que a guarda compartilhada é concedida, deve haver harmonia no relacionamento dos pais para garantir o crescimento saudável da criança, caso contrário, deve-se determinar a guarda unilateral para aquele que apresentar maior aptidão em desempenhá-la, nos moldes supracitados de afetividade, confiança e condições.

Em detrimento dos resultados da guarda do filho, outro efeito da dupla parentalidade é a do direito de visita. No artigo 1.589 do Código Civil quando diz que “o pai ou a mãe, em cuja guarda não estejam os filhos, poderá visitá-los e tê- los em sua companhia, segundo o que acordar com o outro cônjuge, ou for fixado

pelo juiz, bem como fiscalizar sua manutenção e educação”. Póvoa (2012) determina que isso deve ser aplicado da mesma forma que ocorre nos casos de biparentalidade.

É relevante destacar que o pai socioafetivo deverá não cortar as afinidades criadas com o menor, para que não gere negativamente um impacto na criança e em sua formação.

Por fim, o filho passa com o reconhecimento da dupla parentalidade a ter direito à sucessão, sendo assim, tendo a concessão de pleitear a herança, além de propor ação de nulidade de partilha. É necessário ressaltar que ele também se sujeita à deserdação.

Dias (2016) diz que o filho concorrerá na herança de todos os pais que tiver, não devendo existir prevalência entre filhos biológicos e afetivos, motivo pelo qual a criança concorre com todos os irmãos em igualdade de condições e é considerada herdeira necessária.

Explica Póvoas (2012, p.110) em sua obra que,

Seriam estabelecidas tantas linhas sucessórias quantos fossem os genitores. Se morresse o pai/mãe afetivo, o menor seria herdeiro em concorrência com os irmãos, mesmo que unilaterais. Se morresse o pai/mãe biológico também o menor seria sucessor. Se morresse o menor, seus genitores seriam herdeiros.

À vista disso, os efeitos determinados aos parentes biológicos devem ser empregados igualmente na dupla parentalidade, nos casos em que o menor concorre na sucessão de cada um de seus pais e da mesma maneira os pais concorrem na sucessão do filho.

Gonçalves (2018, p. 151) relata em sua obra a decisão da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, em março de 2017, a respeito da socioafetividade, sendo relator o Ministro Villas Bôas Cueva, que um idoso de quase 70 anos teve o direito de receber herança do pai biológico em ação de reconhecimento recente, mesmo já tendo recebido o patrimônio de seu pai socioafetivo. O referido julgado, além de reconhecer que a afetividade tem valor jurídico e amplos efeitos, também acentuou que a parentalidade socioafetiva encontra-se em posição de igualdade com a biológica.

Diante de tudo que foi exposto, a dupla parentalidade pode ser reconhecida em diversos casos concretos. É importante o reconhecimento dessa relação parental que é baseada no afeto, mesmo pré existindo um vínculo biológico.

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